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Manu Buffara e a coragem de fazer diferente com o que temos por perto

Manu Buffara Economia PR
Foto: Helena Peixoto

A gastronomia mundial tem se consolidado como um dos principais motores econômicos globais, impulsionando não apenas o setor de alimentação, mas também o turismo, o comércio e o desenvolvimento urbano. 

No Brasil, a indústria de alimentos e bebidas faturou cerca de R$ 1,27 trilhão em 2024, representando aproximadamente 10,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Esse setor gera mais de 2 milhões de empregos formais diretos e é o maior exportador mundial de alimentos industrializados, com vendas para cerca de 190 países.

Tendências como a valorização de ingredientes locais e sazonais, a sustentabilidade, a cozinha regenerativa e o aproveitamento integral dos alimentos ganham força em 2025, refletindo uma busca por autenticidade, respeito ao meio ambiente e conexão cultural. Esses movimentos não apenas transformam a experiência gastronômica, mas também impulsionam modelos de negócios mais conscientes e inovadores, capazes de gerar impacto social e ambiental positivo.

Nesse cenário de transformação e inovação, Curitiba desponta como um polo gastronômico de destaque nacional e internacional. 

A capital paranaense viu recentemente sete de seus restaurantes figurarem entre os 100 melhores do Brasil, um reflexo da identidade única da gastronomia local, que valoriza ingredientes regionais, práticas sustentáveis e uma relação profunda com o território.

Entre os nomes que mais se destacam está a chef curitibana Manu Buffara, eleita a melhor chef mulher da América Latina em 2022 pelo Latin America’s 50 Best Restaurants, reconhecimento que reforça a importância da cidade no mapa gastronômico mundial.

Manu é referência não apenas pela excelência de sua cozinha, mas também pelo compromisso com a sustentabilidade, o apoio a pequenos produtores locais e a inovação baseada na valorização do que a região oferece. 

Seu restaurante, o Manu, é conhecido por trabalhar com ingredientes sazonais e frescos, priorizando uma cozinha consciente que respeita o ciclo natural dos alimentos e promove uma gastronomia com propósito. A chef também lidera iniciativas sociais por meio do Instituto Manu Buffara, que atua em educação alimentar e inclusão social, ampliando o impacto da gastronomia para além dos pratos servidos.

A seguir, confira o Economia PR Drops com Manu Buffara, onde ela compartilha sua visão sobre o futuro da gastronomia, os desafios e as oportunidades para o Paraná, e como a coragem de fazer diferente com o que temos por perto pode transformar realidades.

Recentemente, Curitiba emplacou sete restaurantes entre os 100 melhores do Brasil, incluindo o seu, que ficou em terceiro lugar. O que você acredita que faz a gastronomia local se destacar nacionalmente?

Manu: Curitiba tem uma identidade gastronômica única, que vem se fortalecendo ano após ano. O destaque nacional é resultado de um movimento coletivo de chefs, produtores e consumidores que valorizam ingredientes locais, práticas sustentáveis e uma cozinha que respeita a origem do alimento. A gastronomia curitibana hoje é feita com propósito. Não estamos aqui apenas para alimentar, mas para contar histórias, provocar reflexão e criar conexões com o território. Essa coerência entre o que fazemos, como fazemos e para quem fazemos tem chamado a atenção do país.

Quais características da cultura e dos ingredientes paranaenses você vê como diferenciais para a gastronomia da região?

Manu: O Paraná é um estado de contrastes: do litoral ao interior, da serra à mata, temos uma variedade de produtos e sabores impressionantes. O que me encanta é a simplicidade com profundidade — ingredientes que carregam memória, como o milho crioulo, o pinhão, as frutas nativas, os pescados artesanais. Também existe uma força silenciosa nas mãos de quem planta, colhe e transforma com cuidado. A cozinha paranaense tem uma relação muito forte com a terra, com o tempo das coisas. E é essa escuta do território que faz dela algo tão especial. Não se trata de copiar tendências, mas de reconhecer o que é nosso, transformar com respeito e devolver ao prato com verdade.

De que forma a gastronomia paranaense tem incorporado as tendências de sustentabilidade, como a cozinha regenerativa e o zero waste, que são fortes para 2025?

Manu: Vejo uma movimentação real nesse sentido, especialmente entre cozinheiros que entendem seu papel como agentes de transformação. Cada vez mais se fala em cozinha consciente, aquela que respeita o ciclo dos alimentos, valoriza a sazonalidade, evita o desperdício e cria menos impacto ambiental. Muitos restaurantes, inclusive o meu, têm desenvolvido práticas que vão desde a compostagem até a criação de menus com aproveitamento integral dos ingredientes. Também temos buscado nos aproximar dos produtores para incentivar métodos mais sustentáveis de cultivo, como a agroecologia e a agricultura regenerativa. A sustentabilidade está saindo do discurso e virando prática diária.

Quais desafios os restaurantes paranaenses enfrentam hoje para se manterem competitivos?

Manu: O primeiro desafio é estrutural: custo Brasil, carga tributária alta e uma cadeia de suprimentos muitas vezes instável. Além disso, há o desafio de formar e manter equipes qualificadas e motivadas, o que exige investimento constante em treinamento e cultura interna. Também enfrentamos o desafio de comunicar melhor a riqueza da nossa gastronomia para além das fronteiras do estado. Muitos talentos incríveis ainda são pouco conhecidos nacionalmente. Mas acredito que estamos no caminho certo, unidos, consistentes e com um senso de comunidade muito forte.

Como você enxerga o futuro da gastronomia no Paraná nos próximos anos, considerando as tendências nacionais e globais para 2025?

Manu: Acredito que o futuro da gastronomia no Paraná passa pelo fortalecimento das raízes. Cada vez mais, o que nos diferencia é justamente aquilo que é nosso: os ingredientes nativos, os sabores ancestrais, os pequenos produtores que cultivam com responsabilidade. Vejo uma geração de cozinheiros disposta a pesquisar o território, a escutar os mais velhos, a valorizar o alimento não só como produto, mas como cultura. As tendências globais, como a cozinha vegetal, a fermentação, o foco no impacto social e ambiental  ganham sentido quando partem de um contexto real. E o Paraná tem esse contexto: biodiversidade, diversidade cultural e vontade de transformação. O futuro, para mim, está na escuta e na coragem de fazer diferente com o que temos por perto.

Como a valorização dos pequenos produtores locais influencia o modelo de negócios e a inovação no seu restaurante?

Manu: Essa valorização é a base do meu trabalho. Mais de 80% dos fornecedores do Restaurante Manu estão em um raio de até 300 km de Curitiba. Isso nos permite criar uma relação de confiança, aprender com quem produz, influenciar práticas e desenvolver ingredientes únicos. Além disso, esse modelo promove inovação constante, porque nos obriga a trabalhar com o que está disponível no tempo da natureza, e não no tempo da indústria. Isso afeta o cardápio, o processo criativo e a mensagem que passamos ao cliente.

Quais são seus próximos passos como empreendedora e chef?

Manu: Quero seguir ampliando o trabalho do Instituto Manu Buffara, que atua com educação alimentar, hortas urbanas e iniciativas de impacto social nas periferias de Curitiba. Também estou escrevendo um livro voltado à alimentação infantil, uma forma de contribuir com famílias que desejam criar uma relação mais saudável e afetuosa com a comida desde cedo. Meu propósito continua sendo o mesmo: transformar realidades através da comida, da escuta e do cuidado.

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