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Como a Era da IA redefine storytelling e eleva valor humano

IA Storytelling James McSill Economia PR
Foto: Divulgação

O avanço acelerado da inteligência artificial redefiniu a produção de conteúdo e abriu um novo capítulo para o storytelling aplicado a negócios, mídia e marcas. O mercado global cresce em ritmo exponencial e movimenta bilhões, impulsionado por ferramentas capazes de gerar narrativas, personagens, vídeos e experiências multimodais em escala.

Projeções de consultorias internacionais indicam que segmentos como o de conteúdo gerado por IA, storytelling multimodal e produção automatizada de vídeo devem multiplicar faturamentos até 2033, impulsionando transformações profundas em comunicação, marketing, educação e entretenimento.

Nesse cenário, tecnologias como geração de linguagem, vídeo com IA, personalização avançada e modelos multimodais remodelam estratégias de engajamento. Empresas podem produzir mais, mais rápido e para múltiplos públicos simultaneamente.

No entanto, pesquisas recentes mostram que a sofisticação técnica nem sempre se traduz em conexão humana. Funcionários relatam desconforto ao perceber mensagens corporativas produzidas por IA e marcas enfrentam desafios éticos, de autenticidade e de maturidade no uso das ferramentas. O resultado é um ambiente em que volume não garante impacto.

Ao mesmo tempo, cresce a busca por narrativas mais sensíveis, íntimas e verdadeiras. A saturação de conteúdos padronizados produzidos por algoritmos reforça a percepção de que, apesar das máquinas, o diferencial competitivo continua ligado à capacidade humana de interpretar nuances, expressar vulnerabilidades e criar sentido.

O desafio para marcas e profissionais passa a ser a integração equilibrada entre automação e presença, entre escala e profundidade, entre eficiência e intenção narrativa.

Para aprofundar esse debate, o Economia PR Drops conversou com James McSill, referência internacional em storytelling aplicado ao mercado e autor de mais de 35 obras. No novo livro lançado pela DVS Editora, ele discute como unir tecnologia e humanidade sem sacrificar autenticidade, ética e criatividade. A seguir, confira a entrevista completa.

Como a IA está mudando a essência do storytelling? O que muda quando narrativas podem ser geradas em escala?

James: A inteligência artificial não está apenas mudando a forma como contamos histórias, está alterando o próprio conceito de autor. Antes, a narrativa era fruto de uma voz individual; agora, passa a ser resultado de um diálogo entre humano e máquina. O perigo está em confundir quantidade com profundidade. Quando tudo pode ser narrado, o desafio volta a ser o mesmo de sempre: como tocar alguém. No meu livro “Storytelling e Inteligência Artificial”, mostro que a verdadeira revolução não é tecnológica, é emocional. A IA permite escrever em escala, mas só o humano pode criar em profundidade. O futuro do storytelling pertence a quem souber usar a máquina para amplificar o que só o humano pode dar: empatia, propósito e verdade.

Muitas marcas usam IA para produzir mais conteúdo, mas não melhores histórias. Onde está o erro e quais os maiores equívocos que você vê empresas cometendo?

James: O erro está em tratar a IA como fábrica de frases e não como lente de ampliação da alma da marca. Vejo empresas fascinadas com a velocidade e cegas para o conteúdo. Confundem comunicar com transmitir dados e esquecem que toda boa história começa com uma ferida. As marcas que prosperam são as que reconhecem vulnerabilidades e as transformam em valor humano. Nenhuma máquina, sozinha, sabe fazer isso. No livro, argumento que a nova fronteira do marketing é espiritual. Quem não entender a alma por trás dos algoritmos será substituído por eles.

Quais tendências em marketing narrativo vão emergir nos próximos 2 a 3 anos e para as quais a maioria das empresas ainda não está preparada?

James: Três grandes movimentos já se anunciam. Primeiro, o storytelling adaptativo, histórias que se moldam em tempo real à resposta emocional do público. Segundo, a coautoria entre humano e IA, em que o consumidor deixa de ser espectador e passa a ser personagem. Terceiro, o retorno da intimidade, de histórias menores, mais lentas, quase confessionais, num mundo saturado de ruído. A maioria das empresas ainda vive o paradigma da performance, mas o próximo ciclo será o da presença. Consumidores vão procurar marcas que saibam parar para escutá-los.

A emoção pode ser codificada por IA? Como equilibrar automação narrativa com conexão humana genuína? Existe limite para o que deve ser delegado à tecnologia?

James: A emoção pode ser simulada, mas não sentida. A IA pode aprender padrões emocionais, mas não pode sofrer, e é do sofrimento que nasce a arte. O equilíbrio virá quando as empresas compreenderem que automatizar não é o mesmo que humanizar. A IA deve cuidar dos processos; o humano, dos significados. Quanto mais a máquina evolui, mais valiosa se torna a autenticidade humana. O papel do contador de histórias é lembrar às marcas que emoção não é dado, é presença.

O conceito de autenticidade muda com a hiperpersonalização? Consumidores deveriam sempre saber quando interagem com narrativas geradas por IA?

James: Autenticidade não é transparência absoluta, é coerência emocional. Na era da hiperpersonalização, as pessoas não querem saber quem escreveu a história, mas se acreditam nela. Ainda assim, existe uma linha ética: a autoria deve ser clara, sobretudo quando a intenção é persuadir. A confiança é o novo ativo de marca. A IA pode personalizar experiências, mas só o humano pode garantir que essa personalização não se torne manipulação. Autenticidade não é algoritmo, é escolha.

A IA democratiza o storytelling ou amplia desigualdades? E quais particularidades do mercado brasileiro devem ser consideradas?

James: As duas coisas. Democratiza o acesso, mas amplifica desigualdades cognitivas e culturais. A IA oferece as mesmas ferramentas a todos, mas só quem tem repertório sabe o que fazer com elas. No Brasil, existe um potencial extraordinário e, com ele, um risco. O país tem tradição oral fortíssima, mas o sistema educativo nem sempre ensina a estruturar histórias. Na Escócia, Finlândia e muitos outros países, aprendemos na escola primária sobre a estrutura básica de uma boa história. Expressar-se com clareza faz parte do currículo. Não é aula de inglês ou finlandês, é aula de oratória e debates. A IA pode corrigir essa lacuna, desde que usada como ponte, não como muleta. No fundo, o que proponho em “Storytelling e Inteligência Artificial” é isto: usar a máquina para resgatar o humano. Quanto mais digital nos tornamos, mais precisamos de verdade.

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