Depois de um ano marcado por incidentes de grande escala — incluindo o maior ataque já registrado ao ecossistema financeiro brasileiro — o Brasil entra em 2026 com uma superfície de risco ampliada e ameaças cada vez mais sofisticadas.
A avaliação é do Rodolfo Almeida, COO da ViperX, startup de proteção ofensiva do Grupo Dfense, que analisou os principais movimentos do crime digital em 2025 e projetou o que empresas e usuários devem esperar para o próximo ano.
“Em 2025, setores como financeiro, público e áreas intensivas em dados — saúde, educação e varejo — estiveram entre os mais atingidos. O ano foi marcado por ataques à cadeia de suprimentos, engenharia social potencializada por IA e um avanço do ransomware, que cresceu 25% globalmente. Vimos um país que evoluiu tecnicamente, mas ainda reativo e dependente de fornecedores pouco protegidos, hoje a principal porta de entrada para ataques”, afirma Almeida.
A Inteligência Artificial saiu do laboratório e virou arma central do crime digital
Segundo o COO, 2025 marcou o momento em que a IA deixou de ser promessa e se tornou ferramenta de linha de frente para grupos criminosos. A empresa observou três tendências principais:
- Engenharia Social Realista — Cerca de 80% dos e-mails de phishing já contam com geração baseada em IA, produzindo textos perfeitos e contextualizados. Deepfakes e clonagem de voz impulsionaram golpes de “chefe falso” e até “sequestros virtuais”, que já motivaram alertas do FBI.
- Malware Dinâmico — Ferramentas de IA passaram a gerar malwares que mudam de assinatura a cada execução, burlando defesas tradicionais.
- Fraudes em Escala — Apenas em 2025, o FBI registrou mais de US$ 262 milhões roubados em golpes de account takeover, muitos apoiados em sites falsos e comunicações automatizadas por IA.
“O desafio é que a IA ofensiva escala muito mais rápido que a defensiva. Hoje, qualquer criminoso com baixo nível técnico consegue gerar textos, áudios e páginas falsas quase perfeitas. As empresas precisam parar de tratar IA apenas como produtividade e começar a enxergá-la como parte do seu modelo de ameaças”, reforça Almeida.
Principais fraudes previstas para 2026
A sofisticação atingirá o pico no próximo ano. A projeção indica que os ciberataques em 2026 mesclarão táticas de espionagem, hacktivismo e crime financeiro.
O foco deixa de ser apenas “bloquear dados” (ransomware tradicional) e passa a ser a manipulação da realidade e da identidade.
Confira as táticas prioritárias mapeadas pela inteligência de ameaças:
- O “Chefe” é uma IA (Deepfake BEC): O golpe do CEO falso evolui. Áudios e vídeos gerados por IA autorizarão pagamentos fraudulentos em tempo real, enganando departamentos financeiros inteiros.
- Sequestro Virtual 2.0: Criminosos usarão voz e imagem de familiares para simular sequestros com realismo aterrorizante, exigindo resgates imediatos.
- Identidades Sintéticas: A fusão de dados vazados (CPFs reais) com personas criadas por IA desafiará os processos de onboarding de bancos e fintechs.
- Armadilhas no PIX: A exploração de falhas em jornadas de pagamento instantâneo será cirúrgica, mirando perfis vulneráveis com engenharia social baseada em dados vazados.
- Clonagem de Portais: Sites falsos idênticos aos originais, criados para capturar credenciais e tokens de autenticação (MFA) em escala.
- Extorsão Híbrida: Ameaça dupla de vazamento de segredos industriais combinada com pressão psicológica direta sobre executivos-chave.
Para mitigar os danos dos ciberataques em 2026, a mentalidade de “castelo fortificado” precisa cair. O perímetro de segurança não existe mais. Almeida reforça que a maior vulnerabilidade hoje reside no fornecedor conectado ao seu sistema, não necessariamente na sua infraestrutura interna.
Para empresas
A tecnologia sozinha falhará. A blindagem exige quatro pilares de gestão:
- Auditoria Radical de Terceiros: Checklists de conformidade são inúteis. Exija provas técnicas e auditáveis de segurança de qualquer parceiro comercial.
- CTEM (Gestão Contínua de Exposição): Abandone testes anuais. A gestão de ameaças deve ser diária e dinâmica.
- Governança no Board: Cibersegurança deixa de ser custo de TI e vira pauta de risco operacional e crédito.
- Treinamento Anti-Manipulação: Ensinar colaboradores a detectar gatilhos psicológicos é mais eficaz que bloquear sites.
Para usuários
A defesa individual requer “paranoia saudável”. Adote regras inegociáveis:
- Zero Confiança em Links: Recebeu uma promoção “imperdível”? Não clique. Digite o endereço da loja manualmente no navegador.
- Validação de Identidade: Se um executivo ou parente pedir dinheiro com urgência, desligue e ligue de volta para o número conhecido.
- Higiene de URL: Verifique se o domínio é oficial (.com.br). Endereços com finais exóticos (.biz, .info) ou erros de digitação sutis são o primeiro sinal de golpe.