A inovação deixou de ser um tema periférico para ocupar posição estratégica no debate sobre desenvolvimento econômico no Paraná.
Nos últimos anos, o Estado passou a tratar tecnologia, empreendedorismo e novos modelos de negócio como instrumentos estruturantes para aumentar produtividade, competitividade e geração de empregos qualificados, tanto no setor privado quanto na administração pública.
Esse movimento envolve a consolidação de ambientes de inovação, a articulação entre universidades, empresas e governo, além do fortalecimento de políticas voltadas à formação de talentos, atração de capital e adoção de soluções inovadoras.
O desafio, agora, está menos na criação de iniciativas e mais na capacidade de transformar projetos, pilotos e pesquisas em produtos, contratos e impacto mensurável para a sociedade.
Nesse contexto, o Paraná passou a reconhecer lideranças que atuam como articuladores do ecossistema, conectando demandas reais a soluções tecnológicas e modelos escaláveis.
A figura do Embaixador da Inovação surge como um símbolo dessa maturidade, ao valorizar trajetórias que contribuem para dar fluidez e pragmatismo ao ambiente inovador estadual.
O Economia PR Drops conversou com Marlon Cardoso, Embaixador da Inovação do Paraná em 2025, sobre o papel da inovação como infraestrutura de desenvolvimento, os desafios para ampliar a conversão de ideias em negócios e o que precisa acontecer para o Estado avançar de forma consistente até 2026. Confira:
O que significa ser Embaixador da Inovação do Paraná e quais são as responsabilidades associadas a esse reconhecimento?
Marlon: Para mim, é uma honra grande e uma responsabilidade ainda maior. Apesar de eu ser de Curitiba, o título tem peso estadual, o que amplia bastante o significado. Essa foi a primeira edição com indicações vindas diretamente dos ecossistemas, então existe um reconhecimento que vem da base, de quem vive a inovação no dia a dia. Não vejo isso como um mérito individual. Inovação é construção coletiva. Esse reconhecimento representa startups, universidades, empresas, governo, investidores, hubs e parques tecnológicos, além dos empreendedores que transformam problemas reais em soluções aplicáveis. Não se trata exatamente de um cargo, mas de um reconhecimento de trajetória. Recebo como um chamado para servir mais, conectar melhor e gerar resultados concretos para o Paraná, tanto na capital quanto no interior. Se fosse resumir em três verbos, diria inspirar, conectar e entregar. Inovação precisa sair do discurso e virar método, adoção e impacto.
Quais metas podem ser consideradas no curto, médio e longo prazo dentro desse papel?
Marlon: Formalmente, embaixadores não definem metas, mas gosto de organizar objetivos por horizonte. No curto prazo, o foco está em criar uma agenda objetiva de conexões, mapeando demandas do setor público e privado e ligando essas necessidades a startups, pesquisadores e empresas com capacidade de entrega. No médio prazo, o desafio é aumentar a taxa de conversão do ecossistema. Mais criatividade virando produto, mais produto chegando ao mercado e mais inovação gerando emprego, renda e arrecadação. Quando existe caminho real para contratos e escala, a motivação de empreendedores e pesquisadores cresce. No longo prazo, até o fim de 2030, espero ver o Paraná ainda mais integrado como um ecossistema estadual em rede, com governança distribuída e participação regional. Mais do que rankings, o objetivo é impacto com velocidade, refletido em produtividade, competitividade e empregos qualificados.
Onde você espera que o Paraná esteja em 2026 em termos de inovação?
Marlon: Espero que o Estado siga tratando a inovação como infraestrutura de desenvolvimento econômico e humano, tão essencial quanto logística, energia, saúde e educação. Isso já está acontecendo e é um avanço importante. Vejo um Paraná com ambientes de inovação que executam, talentos preparados, capital para início e escala e, principalmente, demanda ativa, com empresas e governo testando e adotando soluções com agilidade e segurança. O desafio é tornar a inovação cada vez mais aplicada no cotidiano, com resultados visíveis para a população.
O secretário de Inovação, Alex Canziani, citou a meta de tornar o Paraná o segundo estado mais inovador do país. O que precisa acontecer, de forma objetiva, para esse salto?
Marlon: Esse avanço depende de quatro pilares funcionando de forma integrada. Primeiro, ambientes de inovação que entreguem resultados e não apenas visibilidade. Segundo, talentos conectados às demandas reais do mercado, com foco especial em tecnologia e inteligência artificial. O terceiro pilar é capital mais volumoso e mais inteligente, capaz de financiar não só o início, mas também a fase de escala das startups. O quarto é demanda ativa, com governo e empresas comprando e testando inovação com segurança jurídica e velocidade. Tudo isso precisa estar sob uma governança estadual em rede, com métricas e acompanhamento contínuo.
Em quais áreas o Paraná já se destaca e onde ainda perde espaço para outros estados?
Marlon: O Paraná tem consistência e capilaridade. Existem ecossistemas ativos em várias regiões, como Foz do Iguaçu, Maringá, Londrina, Pato Branco e Ponta Grossa, além de iniciativas colaborativas na região metropolitana de Curitiba. O próximo passo é integrar ainda mais essas regiões em uma malha única de oportunidades. O Estado também tem forte vocação para inovação aplicada em áreas como agro, indústria, comércio, logística, energia, govtech e inteligência artificial. Onde ainda há espaço para avançar é na densidade de capital para escala, no acesso a mercados e na internacionalização. Outro ponto crítico é a adoção massiva de inovação, especialmente nas compras públicas. Mais importante do que pilotos bem estruturados é chegar à implementação real, com processos claros, contratos e escala. Isso exige metodologias padronizadas e segurança jurídica para lidar com risco e incerteza de forma responsável.
O que você espera conseguir entregar até o fim de 2026 como embaixador?
Marlon: Mesmo não sendo um papel formal de execução, espero atuar como catalisador de entregas. Destaco três frentes. A primeira é fortalecer um ecossistema estadual em rede, com governança e acompanhamento. A segunda é uma agenda permanente de conexões entre startups, empresas, governo e academia, com foco em desafios reais e adoção. A terceira é apoiar a estruturação de uma jornada empreendedora clara, do estágio inicial à escala, com instrumentos adequados em cada fase. Quando startups crescem, o impacto é distribuído por todo o Estado.
Que mensagem fica para startups, empreendedores e empresas que querem se conectar mais com o ecossistema em 2026?
Marlon: 2026 precisa ser um ano de aceleração com propósito e execução. Startups devem escolher problemas relevantes, validar soluções com seriedade e provar valor rapidamente. Empresas e governo precisam abrir espaço para testar e adotar soluções no mundo real. E, acima de tudo, ninguém constrói inovação sozinho. Ecossistema é rede de trabalho. Quando competência, parceria e coragem se conectam, a inovação deixa de ser promessa e passa a gerar resultados concretos para todos.