Quase metade das pequenas e médias empresas brasileiras fecha as portas por um motivo que, na teoria, era para ser simples: má gestão financeira.
Segundo o Sebrae, 48% das PMEs quebram por falta de planejamento e descontrole do fluxo de caixa. E aí acontece aquela cena comum no Brasil real: empresa vendendo, trabalhando, girando… e mesmo assim morrendo por dentro, porque o caixa não fecha.
Eu estava conversando com o João Henrique Tosin, CEO e fundador da Celero, startup paranaense que decidiu encarar justamente esse problema.
E logo no começo do papo ele trouxe um dado que é quase um soco: um levantamento da empresa aponta que 85% das pequenas empresas não sabem o que é fluxo de caixa. Não é “não sabe fazer”. É “não sabe o que é”. O que explica muita coisa.
A história da Celero começa antes da startup.
Em 2012, João tentou empreender trazendo uma marca de jeans para o Brasil e o negócio faliu. Ele conta sem romantizar: faltou gestão financeira. Aliás, a romantização da vida empreendedora também foi pauta da conversa. Muita vontade, muita informação, muita expectativa, pouco preparo. De novo, uma conta que não fecha.
Enfim… Voltando: o incômodo virou ideia, e a ideia virou empresa. Em 2016, a Celero foi fundada em Curitiba com um objetivo ambicioso: usar tecnologia para automatizar a gestão financeira de pequenas empresas.
Por alguns anos, a startup atendeu PMEs diretamente. Mas na pandemia veio a virada. Eles perceberam que estavam disputando um pedaço muito pequeno do mercado: só 5% das PMEs usam ferramentas específicas de controle financeiro, enquanto 72% dependem do internet banking para administrar as finanças.
Ou seja: o empreendedor tenta gerir o negócio usando a mesma interface feita para pagar boleto e fazer Pix. Depois a gente se pergunta por que dá errado.
Foi aí que a Celero decidiu parar de insistir no “mais um aplicativo” e seguir um caminho mais inteligente: levar a tecnologia para dentro do banco. O modelo, chamado de BFM (Bank Financial Management), integra a inteligência artificial ao internet banking, inserindo gestão financeira na rotina que o empreendedor já tem.
Segundo João, a IA da Celero identifica padrões e comportamentos de risco com base nos dados transacionais e usa a estratégia de nudge para incentivar decisões melhores, como evitar misturar finanças pessoais e empresariais (um hábito nacional que custa caro).
Do lado das instituições financeiras, a empresa oferece soluções para retenção, dados e avaliação de crédito, em formato white label. Na prática, o empreendedor usa a ferramenta como se fosse do próprio banco.
Em 2025, a Celero afirma ter dobrado o faturamento. Para 2026, a meta é dobrar de novo e fechar cinco novos contratos com grandes instituições.
E, para além do Brasil, a startup negocia uma parceria com a Visa para levar o modelo para a América Latina, região que tem perfil parecido: muita PME e pouca cultura de software de gestão. Países como Argentina, Colômbia e Peru estão na mira para fases de testes.
No fim, o que me chamou atenção nessa conversa é que a discussão não é sobre “ter IA” (isso todo mundo diz que tem).
É sobre usar dados a favor do empreendedor. Na prática, no dia a dia, na rotina já existente, quase como um BI aplicado à vida real da PME.
O João comentou um ponto que resume bem a tese: teve empresa que aumentou o lucro sem aumentar o faturamento, simplesmente por melhorar a gestão. Parece básico, mas isso é quase revolucionário.
Porque no fim das contas, não é mágica. É inteligência. E, quando a empresa enxerga o próprio caixa com clareza, ela para de tomar decisão no escuro.