Economia PR - Startup: para dar certo, depois de lançar, precisa durar!

Startup: para dar certo, depois de lançar, precisa durar!

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Foto: Ilustração gerada por IA por Marlon Cardoso

Ignição! 

Está dada a largada nesse espaço de conversa franca, direta e útil sobre inovação, empreendedorismo e cidades inteligentes aqui nessa parceria com o grande portal Economia PR.

Escrever esta coluna é uma honra, em especial, porque faço parte de um estado (Paraná) e de uma cidade (Curitiba) em que empreendedorismo e inovação deixaram de ser discurso e viraram pauta econômica concreta e em constante movimento. 

Nesta matéria de abertura, eu quero conversar com você sobre um tema que, na prática, separa “ideias promissoras” de “startups que duram e dão certo”: estruturação com previsibilidade (negócio) e segurança (jurídica).

Segurança jurídica garante proteção e previsibilidade, tão necessárias para negócios inovadores. Ilustração gerada por Inteligência Artificial (IA) sob direção criativa de Marlon Cardoso.

A tese é simples: startup não “quebra” por falta de ideia e “não dura” somente por causa delas. É uma implosão armada por uma soma de descuidos no tempo, em especial sua documentação jurídica mínima.

Sim! A diferença entre o sucesso e insucesso do negócio inovador está muito ligada à forma com que o empreendedor trata essa área, pois é ela que sustenta e protege o produto, organiza o administrativo e dá segurança ao financeiro da empresa.

Não é somente burocracia – embora seja uma parte meio chata da gestão! – é o sustentáculo do crescimento sadio e sólido na jornada da startup.

Estruturar uma startup que funciona é construir um sistema, não somente um “projeto”

Startups são organizações empresariais iniciais, desenhadas para aprender rápido e crescer em ambientes de incerteza. Só que existe um paradoxo aí: para aprender rápido, você precisa de cuidados mínimos sólidos.

No mundo real, esses mínimos passam por cinco dimensões que se complementam — empresa, equipe, produto, capital e mercado — porque crescimento sustentável não acontece com uma perna só. 

Negócios inovadores usam governança para ajustar produto, equipe, capital e mercado. Ilustração gerada por Inteligência Artificial (IA) sob direção criativa de Marlon Cardoso.

Aqui, um adendo: num mundo de economia cada vez mais globalizada e dinamizada pelo conhecimento e desenvolvimento tecnológico, é impossível falar de jornada sem considerar que para tudo isso dar certo, o empreendedor precisa de ajuda.

E é aí que entram as governanças de ecossistemas empreendedores e de inovação, como “amalgama” para a jornada dos “startapeiros”. 

Mas, e quanto à segurança jurídica?! Ela é imprescindível desde os primeiros lampejos de ideação. Desde quando você concebe uma ideia de produto que vai levar a um negócio inovador, o jurídico deve estar presente em todos os seus passos.

Ele protege o valor (tanto do produto e como da marca), reduz o risco (de conflitos e geração de passivos), dá previsibilidade (relacionamentos com clientes e fornecedores, governança e estabelecimento de contratos) e aumenta o potencial de captação de capital (garante a boa avaliação nos procedimentos de due diligence). 

Aqui vai mais uma pílula de lucidez e verdade: Investidor não compra “promessa de produto ou negócio”!

Negocia pela previsibilidade de retorno financeiro do “deal”, medido com base na governança, documentação e capacidade de execução do empreendedor, sem surpresas quanto ao tempo e com o menor risco possível (embora o risco seja indissociável da operação).

Por que empresas (e startups) dão errado: o “clássico” continua vencendo

Há um conjunto de razões recorrentes e bem documentadas para o insucesso pelo mundo. Em análises amplas de post-mortems, aparecem com frequência: (i) falta de aderência ao mercado (produto sem demanda), (ii) falta de caixa, (iii) desalinhamento de equipe/sócios e (iv) competição e/ou timing.

Na minha opinião, todas essas quatro questões se juntam numa única: ansiedade em dar certo. É ela que faz o empreendedor queimar fases e tomar decisões sem os devidos cuidados, em especial, jurídicos.

A morte começa com o nascimento da startup se não tiver atenção máxima com as falhas clássicas. Ilustração gerada por Inteligência Artificial (IA) sob direção criativa de Marlon Cardoso.

Do lado brasileiro, quando olhamos sobrevivência e mortalidade de pequenos negócios, o dado é um lembrete duro: uma parcela relevante fecha dentro de alguns anos, com variações por porte e setor.

E, no universo de inovação, a discussão sobre “alta mortalidade” é um pano de fundo permanente na cobertura setorial e que dá muito emprego para “druidas do empreendedorismo”, cada um com uma solução milagrosa e demandando muitos recursos públicos e privados. 

O ponto prático (e crucial) é que, além do “produto e mercado” como fatores de sucesso, existem dois aceleradores silenciosos de queda:

  1. Desorganização documental, quando a empresa/empreendedor não sabe provar o que é, o que faz e o que tem, não esclarecendo seus diferenciais e potenciais; 
  2. Descuido com intangíveis, ou seja, não blinda a marca, o software, os dados, os segredos e os contratos, colocando seus principais ativos a descoberto.

Os descuidos que mais custam caro: documentação, PI e negociação

Documentação não é somente formalidade, é definição sólida de destino. Ilustração gerada por Inteligência Artificial (IA) sob direção criativa de Marlon Cardoso.

Documentação societária: o risco começa dentro de casa

Muita startup nasce com CNPJ, mas sem pacto entre sócios. E isso é o início de uma bomba-relógio, porque as promessas verbais viram conflito quando entra dinheiro na jogada, quando um founder sai, ou quando o produto dá certo (de verdade).

O mínimo jurídico aqui é um contrato social (bem estruturado e atualizado perante a lei) e um acordo de sócios (com regras de saída, vesting, não concorrência, propriedade intelectual, deliberações, deadlock etc.).

Parece “formalidade” demais para quem está iniciando?

Negativo! É extremamente necessário e facilita todo o operacional, pois reduz ruído e protege execução. A regra é clara: “o que é acordado não sai caro”.

O funcionamento de qualquer produto precisa ser explicado por um manual. Se você faz para seus clientes, é muito importante ter isso com seus parceiros de negócio.

Propriedade intelectual: sem proteção, o “produto” vira commodity ou vira disputa

No Brasil, a proteção do intangível tem caminhos claros:

  • Propriedade industrial (marcas, patentes etc.) (Lei 9.279/1996). 
  • Programa de computador (software) (Lei 9.609/1998); e,
  • Direitos autorais (Lei 9.610/1998); 
Disputas futuras são evitadas com os cuidados no início e no percurso. Ilustração gerada por Inteligência Artificial (IA) sob direção criativa de Marlon Cardoso.

Daí, nada mais clássico (como erro do empreendedor) que negociar com parceiro, fornecedor ou investidor sem definir quem é dono do quê (código, design, base de dados, know-how, documentação técnica, invenções etc.).

E, quando a casa cresce, a conta chega na due diligence. Já viu alguém dizer que “não sentiu segurança para investir”? Na verdade, traduzindo, quer dizer “tem muita coisa para ajustar antes de colocar a grana!” Pois, bem… fica aqui minha contribuição parecendo um “druida” (risos).

“Se não está escrito, não existe (para o mercado)”.

Na prática de M&A e investimento, o “combinado” sem prova documental vale pouco. Prova e rastreabilidade valem muito!

Dados e produto digital: LGPD e Marco Civil já são parte do core do produto

A LGPD (Lei 13.709/2018) define regras e princípios para tratamento de dados pessoais. E o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) organiza princípios, direitos e deveres no uso da internet. 

Se sua startup trata dados pessoais, isso não é “tema do jurídico depois”, passa a integrar a arquitetura do produto, tão importante quanto suas funcionalidades inovadoras. Não entender assim é muito arriscado.

Veja bem, o risco não é só multa, não! É a perda de contrato, ruptura com clientes corporativos e travas em processos de parceria e venda.

Negociações empresariais: contratos fracos “matam na margem”

Startups perdem valor quando assinam contratos:

  • com clientes ou fornecedores sem SLA e sem escopo bem definido, que enfraquece a operação no tempo ou em momentos cruciais;
  • de parcerias sem governança e sem divisão de ativos previamente estipulados, que geram interferências sem retorno útil e geram disputas internas e até cisões;
  • termos de uso copyleft ou copyright sem coerência com o modelo de receita, flexibilizando ou endurecendo demasiadamente as práticas de proteção do direito autoral/intelectual sobre o produto;
  • investimento sem clareza, ou seja, valuation que não se sustenta na prática, com term sheet confuso ou com cap table bagunçada.

Fique esperto! É o tipo de coisa que só corrói a margem das negociações, trava crescimento e cria litígio. Não é somente formalidade, burocracia ou esperdício de dinheiro olhar para essas questões antes delas baterem à porta.

Lá eu dando uma de “druida” novamente! Deixo um pequeno roadmap (enxuto e prático) para reduzir risco sem perder velocidade que a inovação exige

A pergunta que eu mais escuto é: “Ok, mas o que eu faço primeiro, sem virar refém do jurídico?”.

Minha resposta é um roteiro simples:

  1. Defina a tese e valide demanda, gaste tempo e dinheiro por aqui, aprenda rápido com tudo, sem romantizar o MVP, dê atenção absoluta a ele, pois é crucial para tudo que vem depois;
  2. Organize a base societária, firme contratos e acordo de sócios com base jurídica atualizada e com visão de desenvolvimento futuro do negócio, prevendo e se acautelando de tudo que possa vir a acontecer na relação, depois que as coisas estiverem dando certo;
  3. Proteja o que gera valor, com todas as forças e formas legais, pois a marca, o software, os segredos, proteção à propriedade intelectual são o concreto da casa da sua startup ou empresa inovadora, sem isso sua empresa perde a atratividade em termos de negociação, qualquer que seja;
  4. Contratualize relações críticas, sem economizar na produção de termos com clientes, fornecedores, parceiros e investidores/adquirentes, uma vez que, assim como ideia não registrada não pode ter provada sua propriedade, um direito combinado de boca sem contrato é dificilmente reconhecido judicialmente, logo, bons contratos geram menos criticidade nas relações. 
  5. Prepare a empresa (para investimento, para entrada de sócios e até para venda), prepare e deixe mais bem organizados os elementos-base para essas operações, tais como valuation realista, cap table atrativo, documentos legais prontos e disponíveis, governança mínima definida, registros de propriedade, entre outros, e se tiver dúvidas não hesite em contratar um bom advogado especializado.

Roadmap enxuto e seguro para pautar crescimento com menor risco para negócios inovadores. Ilustração gerada por Inteligência Artificial (IA) sob direção criativa de Marlon Cardoso.

Nunca é demais lembrar que o Marco Legal das Startups (LC 182/2021), assim como as leis Estadual (no Paraná é a Lei nº 20.541/2021) e Municipal (em Curitiba, é a Lei nº 15.324/2018) de Inovação existem justamente para criar um ambiente mais favorável ao empreendedorismo inovador e instrumentos de relação com o poder público e mercado. 

Por outro lado, ainda são legislações recentes e em plena implementação. Sei que é esperada maior velocidade e efetividade de suas previsões, diante do interesse real nos efeitos econômicos positivos acelerados pela inovação.

Porém, não se pode perder de vista a importância de um diálogo aberto e a preservação da segurança jurídica em tudo (e isso será matéria para outra publicação por aqui).

Ou seja, o jurídico não é freio, é trilho!

A startup ou qualquer empresa inovadora que funciona e dura não é a que “evita documentação ou formalidades”. É a que evita surpresas (situações previsíveis que que insistem em acontecer)

Nesse contexto, a segurança jurídica não é luxo: é estratégia. Ela permite que você cresça sem reescrever o passado a cada rodada, a cada cliente e a cada novo sócio.

E para fechar essa primeira matéria de coluna deixo aquela orientação objetiva: Comece pequeno, mas comece certo: proteja o essencial, documente o crítico e negocie com clareza.

E uma última frase, para você guardar: Inovação de verdade não é correr mais, é correr na direção certa, com base firme o suficiente para sustentar a velocidade.

Conto com sua audiência aqui no ECONOMIA PR, para seguirmos papeando sobre o que nos move cada dia mais rápido para o futuro: negócios inovadores! 

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Marlon Alves Cardoso é consultor de inovação e especialista em gestão de ambientes promotores de inovação, design de produtos e negócios inovadores, inovação aberta e inovação aplicada à gestão pública. É uma das principais lideranças do ecossistema e foi propositor do premiado modelo de governança do ecossistema Vale do Pinhão (Curitiba), com experiência prática na articulação entre startups, governo, universidades, setor produtivo e investidores. Bacharel em Direito (FESP) e advogado inscrito na OAB/PR, é especialista em Gestão de Ambientes Promotores de Inovação (UNICENTRO) e exerce a função de Secretário da Comissão de Tecnologia, Inovação e Inteligência Artificial da OAB/PR – SJP. Publicou artigo no IASP (Beijing, 2025), referência global em ecossistemas e parques de inovação. Designado com a comenda de Embaixador da Inovação do Paraná, em 2025. Servidor público municipal concursado, soma 32 anos de experiência em gestão de programas públicos de alta complexidade, com atuação em áreas como defesa civil, segurança pública com cidadania, administração pública e gabinete executivo. Na coluna, escreve com foco em estratégia e governança de ecossistemas, startups e nova economia, inovação no setor público, tendências tecnológicas com aplicação real e modelos práticos para transformar ideias em produtos, negócios e políticas públicas — com linguagem direta, visão de campo e compromisso com resultado. Temas recorrentes: inovação aberta, GovTech, políticas públicas de inovação, venture building, hubs e parques tecnológicos, cidades inteligentes, métricas e governança, contratação pública de inovação, IA aplicada ao serviço público.

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