Curitiba consolidou, nos últimos anos, uma posição de destaque no cenário nacional de inovação ao estruturar um ambiente tecnológico que combina políticas públicas, iniciativa privada e produção de conhecimento.
Nesse movimento, o Vale do Pinhão assumiu papel relevante como articulador do ecossistema local, ao mesmo tempo em que novos polos e iniciativas independentes passaram a reforçar a densidade inovadora da capital paranaense.
Dados da Prefeitura de Curitiba indicam que o setor de tecnologia reúne mais de 9 mil empresas na cidade, além de centenas de startups em diferentes estágios de maturidade. O avanço também aparece em estudos internacionais: o Global Startup Ecosystem Index posiciona Curitiba entre as principais cidades brasileiras para o desenvolvimento de negócios inovadores, considerando fatores como qualificação de talentos, acesso a capital e integração com universidades.
Para Gui Zanoni, futurista certificado pela IFTF.org – certificado IFTF.org (Institute for the Future) é uma credencial emitida por uma das instituições de pesquisa prospectiva mais antigas e conceituadas do mundo, focada em ensinar metodologias de “foresight” (prospecção/estudo do futuro), o desempenho da capital reflete um processo de amadurecimento institucional que tem no Vale do Pinhão um dos seus pilares estruturantes.
“O Vale do Pinhão tem um papel muito relevante ao organizar a agenda de inovação da cidade e ao conectar startups que antes atuavam de forma dispersa. O Vale ajudou a criar massa crítica e visibilidade para Curitiba, através de projetos, eventos e fomentos”, afirma.
Criado como programa municipal de fomento, o Vale do Pinhão atua como articulador entre poder público, empresas e instituições de ensino. Segundo a Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, o ecossistema envolve mais de 60 instituições de ensino superior, além de aceleradoras, incubadoras e fundos de investimento que operam na capital.
Ao mesmo tempo, o ambiente de inovação da cidade passou a ganhar novas camadas de complexidade. Hubs privados, comunidades empreendedoras, universidades e iniciativas independentes ampliaram o desenvolvimento no setor tecnológico local.
Levantamento do Sebrae aponta crescimento superior a 100% no número de startups no Paraná entre 2019 e 2024, movimento impulsionado por políticas de incentivo e pelo fortalecimento da cultura empreendedora.
Para Gui Zanoni, esse avanço não substitui o Vale do Pinhão, mas indica a maturidade do ecossistema curitibano.
“Quando novos movimentos surgem, isso não enfraquece o que já existe. Pelo contrário, mostra que a cidade conseguiu criar um ambiente fértil para inovação. Ecossistemas fortes são, por natureza, distribuídos”, observa.
A presença crescente de empresas de base tecnológica em áreas como varejo digital, logística, saúde, agronegócio e serviços financeiros também contribui para diversificar a matriz econômica local. Dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social indicam que o setor de tecnologia responde por parcela crescente do Produto Interno Bruto municipal.
Esse avanço ocorre em paralelo ao aumento da demanda por soluções baseadas em dados, automação e inteligência artificial. Relatórios do Fórum Econômico Mundial e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico apontam que a digitalização avançada será determinante para a competitividade das economias regionais até 2030.
Na avaliação de Zanoni, o desafio agora não é apenas expandir o ecossistema, mas aprofundar sua qualidade.
“Não basta ampliar o número de iniciativas. O próximo passo é elevar o nível de gestão, integração e aplicação prática da inovação dentro das empresas”, afirma.
Programas como o Pitch Vale do Pinhão, rodadas de investimento e iniciativas de conexão entre startups e grandes companhias têm ampliado o acesso a capital e a mercados. A Prefeitura de Curitiba informa que essas ações já conectaram dezenas de empresas emergentes a investidores e parceiros estratégicos.
Apesar dos avanços, o ambiente ainda enfrenta obstáculos relacionados à retenção de talentos, escalabilidade internacional e acesso a financiamento em fases mais avançadas. Estudos da Associação Brasileira de Startups indicam que boa parte das empresas inovadoras brasileiras encontra dificuldade para expandir operações fora do país.
Superar esses gargalos exige coordenação entre diferentes frentes.
“O futuro da inovação em Curitiba passa por integração entre políticas públicas, capital privado, universidades e empresas âncora. O Vale do Pinhão segue como peça relevante desse arranjo, mas o crescimento virá da capacidade de todo o ecossistema atuar de forma conectada”, avalia.
O especialista destaca que a capital paranaense reúne ativos consistentes para avançar.
“Curitiba tem capital humano qualificado, tradição em planejamento urbano e um ambiente empresarial ativo. Esses fatores criam base concreta para ampliar a competitividade tecnológica”, afirma.
No cenário atual, marcado por mudanças aceleradas no trabalho e nos modelos de negócio, Curitiba passa a ser observada como laboratório urbano de inovação. Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação mostram que o Paraná está entre os estados com maior crescimento em investimentos em pesquisa e desenvolvimento nos últimos anos.
Para Zanoni, o momento exige visão de longo prazo e cooperação institucional.
“Curitiba já construiu fundamentos importantes com iniciativas como o Vale do Pinhão. O desafio agora é ampliar essa rede, integrar novos atores e transformar inovação em vetor permanente de desenvolvimento econômico”, conclui.