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Eileen Gu: o ouro não é a única medalha que vale

Eileen Gu Ouro Economia PR
Foto: Hannah Peters/Getty

Nas Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina 2026, um repórter perguntou à esquiadora Eileen Gu se ela via suas duas pratas como “dois ouros perdidos”. Gu riu. E respondeu:

“Sou a freeskier feminina mais condecorada da história. Acho que isso é uma resposta por si só.”

Ela não se desculpou. Não relativizou. Reposicionou o valor do que tinha nas mãos.

Fiquei pensando nisso…

Porque eu sei, por experiência própria, que a cor da medalha não define o valor de uma conquista. Nem o orgulho de quem a carrega no peito.

Eu tinha uns 10 anos. Era uma piscina olímpica em Erechim (RS). Inverno, água gelada e os 50 metros costas mais importantes da minha vida até então. Quando me chamaram para o pódio (terceiro lugar, bronze no Sul-Brasileiro), minha primeira reação foi olhar para os lados. Eu? Eu ganhei alguma coisa?

Guardo essa medalha até hoje. E é a minha favorita. A que mais considero. A que, para mim, tem grande significado (aqui fora, em terra seca).

O esporte ensina isso. O mundo corporativo, quase nunca.

No ambiente de negócios, construímos uma cultura obcecada pelo primeiro lugar. Metas batidas ou não batidas. Contratos fechados ou perdidos.

Crescimento de dois dígitos ou fracasso. Não existe bronze no PowerPoint de resultados. Não existe prata na reunião de board.

O que não é ouro vira, na melhor das hipóteses, “aprendizado” – palavra bonita que muitas vezes usamos para não precisar celebrar o que permaneceu de pé mesmo sem o primeiro lugar.

E isso tem um custo alto.

Talentos que se autocensuram antes mesmo de tentar. Equipes que escondem processos brilhantes porque o resultado final ficou abaixo da meta. Líderes que não sabem reconhecer, nem em si mesmos, o valor do que foi construído no caminho.

O movimento começa a mudar, ainda que devagar.

No Brasil, empresas tributadas pelo lucro real já podem destinar entre 2% e 4% do Imposto de Renda devido para projetos esportivos, com dedutibilidade integral. Na prática, o patrocínio ao esporte deixa de ser apenas filantropia e passa a ocupar espaço na estratégia.

No Paraná, a Rede de Investidores Sociais (RIS-PR), que reúne 49 organizações privadas como Grupo Boticário, Electrolux, Instituto Renault e Volvo, movimentou R$ 170 milhões em investimento social em 2024, parte deles em projetos esportivos. (O dado engloba outras áreas além do esporte, mas o recado é claro.)

São empresas que aprenderam, na prática, que apoiar um atleta é apoiar uma trajetória. Não apenas uma medalha.

Quem patrocina esporte sabe que vai financiar derrotas, lesões e recomeços. E faz isso mesmo assim. Porque entende que valor não mora só no pódio mais alto.

No ambiente corporativo, ainda estamos aprendendo essa lição.

Celebrar as conquistas do time, mesmo quando elas não vêm em forma de “ouro”, não é condescendência. É estratégia.

Reconhecer avanços, dar visibilidade ao que funcionou e nomear vitórias intermediárias é o que sustenta cultura, engajamento e consistência no longo prazo.

Talvez seja hora de olharmos com mais atenção para as medalhas que já estão no peito.

Dentro e fora das piscinas geladas de Erechim.

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Editora-chefe do Economia PR. Fundadora da BASIS Comunicação. Community Manager. Acelerada Camila Renaux. Consultoria em Comunicação Estratégica. Prêmio Sangue Bom de Jornalismo (SINDIJOR PR 2014)

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