Por Bruno Lage, administrador com MBA em Finanças (FGV); atuou em grandes bancos e family offices. Em 2015, cofundou a Catálise Estruturação e Gestão de Fundos com Marcelo Aoki.
Pouca gente percebe, mas no varejo o verdadeiro campo de batalha não está apenas na gôndola, no preço ou na campanha de marketing. Ele está no caixa. Em um setor onde boa parte das vendas acontece a prazo, o sucesso não depende apenas de vender mais, mas de financiar bem a própria operação.
É nesse ponto que muitas redes descobrem que competir sem uma estratégia financeira estruturada significa renunciar a margem, previsibilidade e crescimento. E é exatamente aí que o FIDC para varejo começa a fazer diferença.
Ao acompanhar de perto a evolução financeira de grandes redes, fica claro que depender exclusivamente do sistema bancário tradicional já não atende às necessidades do varejo moderno. O FIDC permite algo essencial: internalizar decisões financeiras, criando um braço próprio para financiar a operação com mais autonomia, previsibilidade e controle.
De forma simples, o FIDC para varejo é um fundo regulado pela CVM que adquire direitos creditórios gerados pela própria empresa, como vendas a prazo e operações com fornecedores.
Na prática, ele funciona como um banco interno, capaz de antecipar recebíveis de forma estruturada, pagar fornecedores à vista, financiar projetos estratégicos e criar linhas internas de crédito, tudo com políticas definidas pela própria companhia.
O principal ganho está na eficiência. Ao substituir linhas bancárias tradicionais, o varejista reduz o custo médio do capital e ganha previsibilidade de caixa.
Há também um efeito relevante de eficiência tributária: empresas no regime de Lucro Real podem migrar parte do resultado para o fundo, reduzindo a carga tributária de até 34% para 15% no momento da distribuição. Em um setor onde cada ponto percentual importa, essa diferença tem impacto direto no resultado.
Esse modelo já é realidade entre os grandes players, que utilizam estruturas financeiras próprias para fomentar crédito, fortalecer fornecedores e ampliar a rentabilidade do negócio. O FIDC, nesse contexto, não é apenas uma ferramenta financeira, mas um elemento de integração entre operação, crédito e crescimento.
Na Catálise, estruturamos um FIDC para uma grande rede de supermercados que ilustra bem esse potencial. A operação gerou efeito caixa de R$ 22,08 milhões, efeito contábil de R$ 11,35 milhões, rentabilidade de 163% do CDI, além de um volume operado de R$ 504,57 milhões. O patrimônio líquido do fundo evoluiu de R$ 2,1 milhões para R$ 278 milhões, consolidando uma estrutura robusta e escalável.
É a prova de que, quando bem estruturado, o FIDC transforma a gestão financeira em um ativo do negócio. É a estratégia para quem planeja o crescimento!