Renata Genari, Co-founder Worket
Esse é o ano do novo ciclo. O ano de arrumar a casa. E não pense que estou falando sobre horóscopo e previsões místicas, mas sim sobre um desafio real, o movimento de mercado que já começou a desenhar um futuro implacável para quem não se posicionar agora.
A Inteligência Artificial (IA) é a força motriz que está redefinindo mercados inteiros. A forma como as empresas respondem a essa transformação determinará sua relevância e longevidade.
Inteligência Artificial: do Exploratório ao Estratégico
Avançamos com a inteligência artificial até aqui no nível exploratório, com algumas empresas alcançando o uso estratégico. Mas agora temos dados que mostram a diferença real entre dois grupos: empresas que implementaram IA com estrutura sólida, pessoas bem treinadas, dados estruturados com governança, cultura data-driven madura e posicionamento de marca claro — e empresas que adotaram IA sem essa base necessária. Essa distinção é a linha que separa o sucesso do arcaico.
O primeiro grupo, uma minoria, já colheu os primeiros resultados em 2025. Agora estão prontas para alcançar um nível oportunístico de IA em todas as camadas do negócio. Até aqui, talvez não tenham incomodado tanto a concorrência. Mas vão incomodar agora.
A capacidade de integrar a IA de forma sistêmica e estratégica é o que as diferencia, transformando a tecnologia em um verdadeiro motor de crescimento.
Essa transição do exploratório para o estratégico, e do estratégico para o oportunístico é reforçada pelas tendências da Gartner para 2026, que apontam para a ascensão de sistemas de IA cada vez mais sofisticados.
A IA Agêntica, por exemplo, com seus sistemas multiagentes que colaboram para fluxos de trabalho complexos, exige uma governança robusta com integração de sistemas.
O relatório Gartner prevê que “70% dos sistemas multiagentes (MAS) usarão agentes altamente especializados até 2027, aprimorando a precisão, além de tornar a coordenação mais complexa”, e que “60% dos MAS respaldarão a interoperabilidade multifornecedores até 2028, impulsionando inovação e flexibilidade”.
Isso significa que a IA não será apenas uma ferramenta, mas uma rede de inteligências interconectadas, demandando uma infraestrutura e uma cultura organizacional que poucas empresas possuem hoje.
Além disso, a proliferação de Modelos de Linguagem Específicos ao Domínio destaca a necessidade de IA treinada para setores, garantindo precisão e conformidade. A projeção é que +60% dos modelos empresariais de IA generativa serão para domínios específicos até 2028.
Isso sublinha a importância de dados estruturados e governança, pois a eficácia desses modelos depende diretamente da qualidade e especificidade dos dados com os quais são alimentados. Empresas sem essa base sólida estarão fadadas a usar IAs genéricas, com resultados igualmente genéricos e, muitas vezes, ineficazes.
2026: A última janela de oportunidade
Empresas que vinham caminhando sem se importar muito com a sua estrutura nos últimos dois anos, estão diante da última janela de oportunidade para construir a base que permita competir nos próximos anos. Essa janela é 2026. Não é um prazo arbitrário, mas o ponto de inflexão onde a lacuna entre os líderes e os arcaicos se tornará insuperável.
A IA está provocando a pivotagem de modelos de negócio em múltiplos setores. Processos que funcionavam deixaram de funcionar, e pessoas precisam ser requalificadas. Ignorar essa realidade é assinar sua própria irrelevância.
Dentre outros estudos, a Gartner também enfatiza a necessidade de um “Sintetizador” – a capacidade de orquestrar diversas tecnologias para agregar valor inédito. Isso não é apenas sobre adotar uma nova ferramenta, mas sobre repensar a arquitetura tecnológica e organizacional para integrar a IA de forma coesa.
A requalificação de pessoas é um pilar fundamental nesse processo. Não se trata apenas de treinar para novas ferramentas, mas de desenvolver uma mentalidade de adaptação contínua e aprendizado ágil, preparando a força de trabalho para um cenário onde as habilidades de hoje podem ser obsoletas amanhã.
Reputação na Era da Desconfiança Digital
Além da transformação dos modelos de negócio, o posicionamento de marca precisa ser reconstruído, porque a tecnologia está gerando um momento de maior desconfiança de todos os tempos. A facilidade de criação de conteúdo, impulsionada pela IA, trouxe consigo o desafio da desinformação e forte pensamento crítico, tornando a credibilidade um ativo ainda mais valioso e escasso.
A reputação hoje, é sobre elevar o valor de mercado continuamente, gerar uma percepção correta que confirma a decisão de contratação, trazer um pipeline qualificado, converter com eficiência e multiplicar a base de clientes através da retenção e encantamento. Reputação virou ativo que mantém empresas lucrativas e seguras. E esse ativo, na era das IAs, exige manutenção diária.
O relatório do LinkedIn, “2025 B2B Marketing Benchmark – Trust Is the New KPI”, corrobora essa visão, afirmando que “A confiança se tornou o resultado mais valioso no B2B — e o caminho mais claro para o ROI. É o que impulsiona cada negócio, cada decisão e cada relacionamento de longo prazo”. Os dados são claros: a confiança é o novo motor de crescimento.
Paralelamente, as Plataformas de Segurança de IA surgem como uma resposta à crescente complexidade dos ataques cibernéticos e à necessidade de proteger os sistemas de IA contra injeção de prompts, ações não autorizadas e vazamento de dados. A reputação, portanto, não é apenas uma questão de percepção, mas de infraestrutura e governança robustas que garantam a integridade e a confiabilidade em todas as interações digitais.
A liderança como guardiã da marca
Neste cenário, é indispensável a liderança madura, segura, inspiradora e habilitada a treinar outros guardiões da marca em cada interação com o cliente, em cada ponto de contato, em cada decisão que afeta a percepção de valor. A confiança não pode ser apenas um slogan; ela precisa ser incorporada na cultura da empresa e operacionalizada em todos os níveis.
O LinkedIn reforça que “A confiança deve ser operacionalizada. Os principais profissionais de marketing estão alinhando equipes, conteúdo e porta vozes em torno de uma estratégia de confiança consistente e mensurável”. Isso exige que a liderança não apenas compreenda as implicações da IA, mas que também seja capaz de guiar suas equipes através dessa transformação.
A Gartner, em suas recomendações para a gestão das tendências tecnológicas, frequentemente aponta para o papel do CIO e de outros líderes na definição de estratégias de governança e segurança de dados, bem como na promoção de uma cultura de inovação responsável.
A liderança deve ser o farol que orienta a empresa na construção de uma base sólida de confiança, tanto interna quanto externamente.
Visão integrada para longevidade
Hoje tudo está conectado (negócio, pessoas, dados, tecnologia). Nessa janela, olhar para tudo de forma integrada e repensar o negócio, torna-se indispensável para quem quer solidez e melhores oportunidades até 2030. A complexidade do cenário atual exige uma abordagem holística, onde cada componente da organização trabalha em sinergia para construir e manter a vantagem competitiva.
E para finalizar, a janela de 2026 é real e exige ação estratégica agora. As empresas que investirem em uma base sólida de IA, governança de dados, requalificação de pessoas e, acima de tudo, na construção e manutenção da confiança, serão as que prosperarão. As demais, infelizmente, verão sua vantagem competitiva se evaporar.