Por cinco vezes, o Noma, restaurante dinamarquês em Copenhague que ajudou a redefinir a alta gastronomia contemporânea, foi eleito o melhor do mundo. Três estrelas Michelin, filas de espera de meses, pratos que viraram referência para uma geração inteira de chefs.
René Redzepi era, para tudo o que se dizia sobre ele, um gênio.
E, como costuma acontecer quando esse rótulo está bem colado, havia uma tolerância implícita do mercado, dos patrocinadores e da imprensa para o que acontecia fora dos holofotes.
No início desse mês, o The New York Times publicou uma investigação com mais de 35 ex-funcionários. O que eles descreveram não era exigência ou disciplina rigorosa. Era violência. Socos durante o serviço, humilhações públicas, ameaças de lista negra para quem ousasse sair da linha.
Uma das pessoas resumiu assim:
“Era como ir para a guerra.”
Nessa quarta-feira, 11, René anunciou que deixaria o comando do restaurante após mais de duas décadas à frente do Noma. Também renunciou ao conselho da MAD, organização internacional fundada por ele para discutir o futuro da gastronomia.
Em nota pública, afirmou que um pedido de desculpas “não é suficiente” e que assume responsabilidade por suas ações.
O dado mais revelador não foram os relatos em si. Foi o fato de que, durante anos, todo mundo sabia. E ninguém disse nada.
Em ambientes assim, o silêncio não é apenas omissão. Ele se transforma em parte do mecanismo de violência. Em algum ponto, a conivência se torna tão brutal quanto o soco em si.
O caso não é isolado.
No Brasil, a Cacau Show, maior rede de franquias do país, com quase cinco mil lojas e faturamento superior a R$ 6 bilhões, atravessou em 2025 sua maior crise reputacional. Denúncias de ex-funcionários ao Ministério Público do Trabalho relataram assédio moral e sexual, gordofobia, homofobia e até proibição de gravidez entre colaboradoras.
Havia também rituais conduzidos pelo CEO Alexandre Tadeu da Costa, com trajes brancos, velas e cânticos, cuja ausência era interpretada como falta de comprometimento.
Quando franqueados criaram um perfil no Instagram para expor os abusos, o vice-presidente da empresa foi pessoalmente até a loja de uma deles, a mais de 600 quilômetros da sede, para perguntar o que seria preciso para ela parar. É claro: não com essa sutileza (dizem).
O que Noma e Cacau Show têm em comum vai além das denúncias. Nos dois casos, o fundador era a própria marca. Redzepi era o Noma. Literalmente.
O editor-chefe da principal revista gastronômica da Dinamarca chegou a afirmar que, sem ele, o restaurante não tem como sobreviver. Alê Costa é o rosto da Cacau Show em campanhas, eventos e convenções nacionais de vendas.
Quando a pessoa e a empresa se confundem a esse ponto, qualquer questionamento ao líder passa a ser interpretado como uma ameaça existencial ao negócio. E o silêncio começa, de forma perturbadora, a fazer sentido, inclusive o institucional.
Há um padrão recorrente nesses colapsos: o abuso raramente é segredo. Ele é tolerado.
A cultura do gênio intocável funciona porque todos ao redor têm algo a perder, seja o emprego, o contrato ou a reputação no setor.
O silêncio não é apenas covardia individual. É uma arquitetura de proteção que a própria liderança ajuda a construir e da qual muita gente se beneficia enquanto tudo ainda parece funcionar.
Redzepi chegou a admitir, em um ensaio de 2015, que havia sido um “monstro” que intimidava subordinados. Não foi o fim. Foi só um “ele é assim mesmo”. Virou material de narrativa de evolução pessoal. E os prêmios continuaram.
Para líderes e gestores, a pergunta que esses casos colocam não é confortável: em que medida o sucesso do seu negócio depende de uma figura que ninguém questiona?
Uma empresa saudável suporta escrutínio. Suporta discordância. Suporta, inclusive, a saída de seu fundador. Tem cultura, processos e pessoas que existem independentemente de quem está no topo.
Quando a resposta honesta para a pergunta “o que acontece se esse líder cair?” for “tudo cai junto”, o problema já não está apenas no líder.
Está na estrutura que foi construída para protegê-lo.