Por Sócrates Gomes, Diretor Comercial da Ligga Telecom
As cidades estão passando por uma transformação na forma como operam e o conceito de cidades inteligentes deixou de ser uma agenda futura para se tornar uma demanda concreta no Brasil. À medida que serviços públicos são digitalizados e sistemas passam a operar de forma integrada, a gestão urbana entra em um novo estágio, baseado em dados, eficiência e escala.
O movimento ocorre em um contexto em que a pressão sobre as cidades só aumenta. Com mais de 85% da população brasileira vivendo em áreas urbanas – segundo o IBGE, a demanda por serviços públicos mais eficientes e acessíveis aumenta, fazendo com que a capacidade de organizar a operação urbana de forma integrada deixe de ser diferencial para se tornar condição básica.
A digitalização já avançou em algumas frentes. No âmbito federal, cerca de 90% dos serviços públicos já estão disponíveis em formato digital, segundo dados do governo. O desafio agora está em levar esse nível de maturidade digital para a escala das cidades, onde a operação ainda depende, em muitos casos, de sistemas fragmentados e processos presenciais.
Na prática, o que define uma cidade inteligente não é a adoção de tecnologias isoladas, mas a integração de serviços e a reorganização de fluxos. Isso se traduz em mudanças concretas na dinâmica da cidade.
Na saúde, por exemplo, a digitalização permite organizar filas, priorizar atendimentos e reduzir o tempo de espera. Na educação, viabiliza gestão centralizada e acesso ampliado a conteúdo digital. Na administração pública, amplia a capacidade de planejamento e execução com base em dados.
O principal desafio, portanto, está em transformar essas iniciativas em escala. Ações isoladas, sem integração entre áreas e sem continuidade de investimento, tendem a gerar ganhos limitados. Nesse cenário, a construção de smart cities exige uma lógica sistêmica, em que diferentes serviços públicos operam de forma coordenada e sustentada ao longo do tempo.
É nesse contexto que alguns municípios começam a avançar de forma mais estruturada. Em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba no Paraná, por exemplo, a Prefeitura avança na consolidação de uma política pública permanente de conectividade com a instituição do programa WIFI Livre SJP.
A iniciativa estabelece diretrizes claras para a ampliação do acesso à internet em todo o território do município, marcando um passo importante na construção de uma cidade cada vez mais conectada e preparada para o futuro.
Coordenado pela Secretaria Municipal de Inovação, Modernização e Transformação Digital, o programa prevê a expansão estruturada da infraestrutura, com prioridade inicial para as unidades de saúde e, posteriormente, para áreas estratégicas como educação, segurança pública e desenvolvimento econômico. Atualmente, mais de 200 unidades já estão conectadas.
Na prática, isso significa que cidadãos podem utilizar Wi-Fi gratuito para acessar serviços públicos digitais diretamente nas unidades, o que contribui para melhorar o fluxo de atendimento e ampliar o acesso da população às políticas públicas.
Mais do que uma solução tecnológica, trata-se de uma reorganização da forma como a cidade opera. Quando sistemas passam a se comunicar, a gestão ganha eficiência. Quando o acesso digital se amplia, o serviço público ganha escala, transparência e capacidade de resposta.
Esse avanço tem impacto direto na dinâmica econômica das cidades. A eficiência dos serviços públicos influencia a produtividade, reduz custos operacionais e torna o ambiente mais favorável para negócios e investimentos. Estudos do Banco Interamericano de Desenvolvimento indicam que iniciativas de cidades inteligentes podem reduzir custos urbanos em até 20%, reforçando o potencial da digitalização como ferramenta de gestão.
Por isso, a discussão sobre smart cities precisa evoluir. O ponto central passa a ser a construção de modelos de gestão capazes de integrar serviços, operar com dados e sustentar ganhos de eficiência ao longo do tempo. Sem essa base, a digitalização tende a se limitar a iniciativas pontuais, com baixo impacto estrutural.
No fim, cidades inteligentes mesmo não são aquelas que adotam mais tecnologia, mas aquelas que conseguem transformar esses recursos em operação eficiente. Em um cenário de crescente pressão por produtividade e melhor uso de recursos públicos, a capacidade de fazer a cidade funcionar melhor passa a ser o principal diferencial.