Transformar conhecimento científico em negócios de alto impacto é um dos grandes desafios do ecossistema brasileiro de inovação. Embora o país tenha ampliado os investimentos em deeptechs, empresas que desenvolvem tecnologias baseadas em ciência e engenharia avançada, o setor ainda enfrenta obstáculos como o longo ciclo de desenvolvimento, a necessidade de capital paciente e a aproximação entre pesquisadores, investidores e mercado.
O movimento, no entanto, começa a ganhar força. Em 2024, o Brasil registrou R$ 1,5 bilhão em investimentos em deeptechs, crescimento de 20% em relação ao ano anterior.
O ecossistema reúne cerca de 875 empresas desse perfil, muitas ainda em estágio inicial, evidenciando o potencial de expansão de um segmento considerado estratégico para áreas como saúde, inteligência artificial, energia, novos materiais e biotecnologia.
No Paraná, iniciativas voltadas à estruturação desse ambiente começam a ganhar protagonismo. Um exemplo é o anúncio do Grupo Marista, que investirá R$ 14,5 milhões na HOTMILK nos próximos quatro anos. O aporte contempla a criação de um hub de deeptechs de 8 mil metros quadrados, previsto para entrar em operação no segundo semestre de 2028, além da ampliação do Centro Integrado de Soluções de Inteligência Artificial (CISIA). A estratégia também prevê novos hubs temáticos voltados para healthtechs, agrotechs e climatechs até 2030.
Para entender como esse movimento pode fortalecer a conexão entre ciência, empreendedorismo e mercado, o Economia PR Drops conversou com Marcelo Moura, diretor da HOTMILK, ecossistema de inovação da PUCPR. Confira a entrevista.
O que motivou o Grupo Marista a anunciar esse novo ciclo de investimentos na HOTMILK?
Marcelo: A HOTMILK chega a uma nova fase de maturidade. Ao longo dos últimos anos, construímos um ecossistema robusto, conectando startups, empresas, investidores e a academia, com resultados concretos para o mercado e para a sociedade. O Grupo Marista entende que este é o momento de ampliar esse impacto, fortalecendo ainda mais a capacidade de transformar conhecimento em inovação. Esse investimento reforça uma visão de longo prazo e a convicção de que a universidade tem um papel fundamental na geração de soluções para os grandes desafios do país.
Por que a decisão de começar essa nova fase com um hub dedicado a deeptechs?
Marcelo: As deeptechs representam uma das fronteiras mais importantes da inovação global. São empresas que nascem a partir de descobertas científicas e tecnologias avançadas, capazes de gerar transformações profundas em diversos setores da economia. Embora tenham um ciclo de desenvolvimento mais longo e complexo, também carregam um enorme potencial de impacto. Identificamos uma oportunidade de contribuir para que mais pesquisas de excelência consigam chegar ao mercado, criando um ambiente que ofereça infraestrutura, conexões e apoio especializado para esse tipo de empreendimento.
O que esse novo hub de deeptechs oferecerá de diferente para startups, pesquisadores e empresas?
Marcelo: O principal diferencial será a integração entre ciência, tecnologia e mercado em um mesmo ambiente. Estamos projetando um espaço com infraestrutura laboratorial, conexão direta com pesquisadores da PUCPR, startups de base científica, investidores e grandes corporações. Nosso objetivo é criar um modelo altamente colaborativo, em que empresas possam participar desde as etapas iniciais de desenvolvimento tecnológico, ajudando a acelerar a validação das soluções e ampliando as oportunidades de aplicação prática das pesquisas.
Como a HOTMILK pretende aproximar ainda mais a pesquisa científica do mercado a partir desse investimento?
Marcelo: Acreditamos que a aproximação acontece quando criamos mecanismos concretos de colaboração. Muitas vezes, excelentes pesquisas permanecem restritas ao ambiente acadêmico por falta de conexão com desafios reais da indústria. O novo hub foi concebido justamente para reduzir essa distância. Queremos aproximar pesquisadores de empresas que possuem demandas tecnológicas relevantes, além de estimular modelos em que corporações atuem como parceiras estratégicas e até como primeiros clientes das soluções desenvolvidas. Isso aumenta as chances de transformar conhecimento científico em inovação aplicada.
Qual é o potencial desse projeto para fortalecer o ecossistema de inovação do Paraná?
Marcelo: O Paraná já se destaca nacionalmente pela qualidade de suas universidades, pela força do setor produtivo e pela capacidade de geração de inovação. Este projeto contribui para elevar ainda mais esse posicionamento, atraindo talentos, pesquisadores, startups e empresas interessadas em desenvolver tecnologias de alto impacto. Além disso, fortalece a capacidade do estado de gerar propriedade intelectual, novos negócios e soluções competitivas globalmente, consolidando o Paraná como uma referência em inovação baseada em ciência.
Como o CISIA se integra a essa estratégia e qual será seu papel no desenvolvimento de soluções em inteligência artificial?
Marcelo: O CISIA é uma peça fundamental dessa nova etapa. Enquanto o hub de deeptechs amplia nossa capacidade de fomentar negócios de base científica, o CISIA fortalece a competência técnica necessária para desenvolver projetos avançados em inteligência artificial. O investimento permitirá ampliar a equipe dedicada do centro e aumentar sua capacidade de execução. Nosso foco está em projetos de alta complexidade, envolvendo ciência de dados, modelos avançados de IA e aplicações capazes de gerar impacto real para empresas e para a sociedade.
Além dos investimentos já anunciados, o Grupo Marista estuda novos aportes ou iniciativas para fortalecer o ecossistema de inovação nos próximos anos? O que pode adiantar?
Marcelo: O anúncio atual faz parte de uma estratégia mais ampla de longo prazo. O hub de deeptechs é o primeiro passo de um planejamento que prevê a criação de outros hubs temáticos focados em áreas estratégicas como healthtechs, agrotechs e climatechs até 2030. Nossa visão é aprofundar competências em setores com grande potencial de transformação econômica e social. Continuamos avaliando novas oportunidades e parcerias, sempre com o objetivo de fortalecer a conexão entre educação, pesquisa, empreendedorismo e inovação, ampliando o impacto positivo que conseguimos gerar para a sociedade.