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Por que o interior virou motor das startups no PR

Interior paraná startups Economia PR
Foto: Rodolfo Gaion / Pexels

Enquanto o Brasil ainda discute se a inovação vai, algum dia, sair das capitais, o Paraná responde com dados. De acordo com o último mapeamento oficial do Sebrae, apenas 36% das startups do estado estão em Curitiba. As demais 64% se distribuem pelo interior, com destaque para o Noroeste, que soma 269 startups, sendo 174 em Maringá, e para o Norte, com 238 startups, das quais 178 estão em Londrina.

Não se trata de promessa, plano ou política em construção. Trata-se de um movimento já consolidado. A interiorização da inovação no Paraná não é discurso. É realidade estatística e operacional.

Esse cenário contraria uma narrativa bastante comum nos ecossistemas brasileiros, onde capitais costumam concentrar talentos, capital e oportunidades.

São Paulo concentra startups (47,4% do total estadual). Rio de Janeiro concentra startups (cerca de 44%). Florianópolis também (40%).

O Paraná seguiu outro caminho. Distribuiu. E essa escolha estrutural ajuda a explicar vantagens competitivas que começam a ficar evidentes.

Os números colocados em perspectiva

Maringá, com cerca de 430 mil habitantes, abriga 174 startups formalizadas ou em estruturação. Londrina, com aproximadamente 580 mil habitantes, concentra 178. Juntas, as duas cidades somam 352 startups. Curitiba, capital com quase 2 milhões de habitantes, reúne pouco mais de 560.

A comparação fica ainda mais relevante quando se observa a densidade demográfica dos municípios. Maringá tem cerca de 40 startups por 100 mil habitantes. Londrina, aproximadamente 31. Curitiba, perto de 29.

Em termos relativos, o interior não apenas compete com a capital, como a supera.

E esse padrão não se limita a Maringá e Londrina. Cascavel, Ponta Grossa, Foz do Iguaçu, Toledo e outras cidades médias do Paraná já contam com startups ativas, comunidades tech organizadas e programas de aceleração.

O que em outros estados ainda aparece como tentativa de criar hubs fora das capitais, no Paraná já funciona na prática.

Por que isso aconteceu no Paraná

A interiorização não foi resultado de um único programa público nem de uma decisão centralizada. Foi consequência da convergência de fatores estruturais que se reforçaram ao longo do tempo.

Universidades tiveram papel central. A Universidade Estadual de Maringá e a Universidade Estadual de Londrina atuam como âncoras reais de talento, especialmente em tecnologia, engenharia e ciências aplicadas. Diferente do padrão brasileiro, no qual estudantes deixam o interior para a capital e não retornam, essas instituições ajudaram a criar condições para que talentos se formassem e permanecessem.

A UTFPR, com campi espalhados pelo estado, reforçou esse movimento.

Onde há universidade conectada ao ecossistema local, surgem startups. O diferencial paranaense foi conseguir conectar formação acadêmica, mercado e inovação, em vez de formar profissionais apenas para estruturas tradicionais.

Outro fator decisivo foi o custo de operação. Um desenvolvedor sênior em Curitiba custa menos que em São Paulo (R$13 mil contra R$ 16 mil mensais, em média, segundo o Indeed). Em Maringá ou Londrina, o custo é ainda menor, ficando na média de R$ 10 mil por mês.

Para startups em estágio inicial, essa diferença define viabilidade. Não é detalhe financeiro. É sobrevivência.

Além dos salários, entram na conta aluguel, custo de vida da equipe, expectativa salarial e até o custo de errar e tentar novamente. Uma startup que consome R$ 50 mil por mês em São Paulo consegue operar com algo próximo de R$ 30 mil em cidades do interior, oferecendo qualidade de vida igual ou superior.

O trabalho remoto ampliou possibilidades de contratação, mas não resolveu tudo. Fundadores continuam escolhendo onde viver. Maringá e Londrina oferecem infraestrutura urbana adequada, universidades, comunidade tech ativa e um custo de vida que amplia o tempo de caixa das empresas.

Há ainda o fator dos mercados regionais. Muitas startups do interior nascem resolvendo problemas específicos de economias locais.

Agronegócio no Noroeste, agroindústria em Toledo, logística em Foz do Iguaçu. São mercados grandes, rentáveis e pouco explorados por startups de grandes centros, que costumam buscar soluções imediatamente escaláveis em nível nacional.

Tudo isso foi sustentado por comunidade. Antes de prédios espelhados e discursos grandiosos, surgiram grupos de desenvolvedores, meetups, mentorias e conexões locais.

Quando políticas públicas chegaram, encontraram um ecossistema vivo. Foi um movimento de baixo para cima, não imposto de cima para baixo.

A distribuição das startups no Paraná cria um ecossistema mais resiliente, com menor pressão sobre talentos e maior conexão com a economia real. No interior, o custo mais baixo permite testar, errar e ajustar modelos com mais tempo e menos capital.

Em inovação, isso faz diferença.

O debate agora não é mais sobre levar startups para fora da capital, mas sobre como escalar sem perder as vantagens que tornaram esse movimento possível.

O Paraná não oferece um modelo perfeito, mas mostra que concentração não é a única estratégia viável para inovar no Brasil.

O caso paranaense desafia a ideia de que inovação precisa, necessariamente, se concentrar em um único lugar. Mostra que há alternativas à hiperconcentração, especialmente em estados com cidades médias fortes, universidades distribuídas e economias regionais relevantes.

Das 2.095 startups do Paraná, 1.532 estão fora de Curitiba.

Esse dado conta uma história que o Brasil ainda está aprendendo a interpretar. Inovação se espalha quando existe solo fértil fora das capitais. E solo fértil não são prédios ou slogans, mas talentos formados localmente, comunidades organizadas, mercados reais e empreendedores dispostos a permanecer.

A interiorização já aconteceu. Agora, o jogo é outro: transformar distribuição em escala.

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Editora-chefe do Economia PR. Fundadora da BASIS Comunicação. Community Manager. Acelerada Camila Renaux. Consultoria em Comunicação Estratégica. Prêmio Sangue Bom de Jornalismo (SINDIJOR PR 2014)

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