A demanda por energia no Brasil deve seguir em alta, e isso não é surpresa. Com projeções oficiais indicando crescimento do PIB próximo a 2% em 2026, o consumo energético continuará pressionando empresas e setores industriais no ano que chega e nos próximos.
A energia segue sendo insumo estratégico e um dos principais componentes de custo da indústria. Ao mesmo tempo, o avanço da eficiência energética no setor parece tímido no país: segundo dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), entre 2005 e 2023 o ganho de eficiência industrial foi de apenas 2,7%. Para efeito de comparação, o setor residencial reduziu seu consumo em cerca de 20% no mesmo período.
Esse descompasso preocupa, mas também sinaliza oportunidades. Especialistas afirmam que a combinação entre automação industrial, digitalização de processos e mudança regulatória inaugura uma nova fase, colocando a eficiência energética no centro das decisões estratégicas.
“Estamos vivendo o início da transição energética. Acabamos de sair de uma COP realizada em um país considerado potência energética, como é o Brasil, que reforçou dois compromissos globais: ampliar o uso de renováveis e dobrar até 2030 a eficiência energética, que teve a dedicação de um dia exclusivo de debates, demonstrando a relevância deste tema”, avalia Victor Henrique de Moraes, General Manager da Eletron Energia S.A.
Embora o Brasil tenha matriz energética limpa, a indústria ainda opera de forma pouco automatizada, especialmente em processos baseados em motores elétricos. E aí está um dos maiores potenciais de transformação.
“A maior parte do consumo industrial está nos motores, e grande parte deles é antiga e opera continuamente, mesmo quando não há demanda. Com automação, sensores inteligentes e controle em tempo real, o equipamento trabalha apenas quando necessário. É como trocar um motorista que acelera o tempo todo por outro que antecipa curvas e subidas para economizar combustível”, explica Moraes.
Ele reforça ainda que eficiência energética não depende apenas da aquisição de novos equipamentos, mas de inteligência operacional.
“Não basta trocar máquinas, é preciso repensar processos.”
A conectividade tem papel fundamental nessa transição. A combinação entre internet das coisas, monitoramento remoto e inteligência artificial permitirá decisões mais rápidas e alinhadas ao consumo real.
“Quanto mais dados, maior a capacidade de transformar informação em decisão. A IA vai acelerar esse processo e permitir ajustes contínuos para melhorar o desempenho energético sem impactar a produção”, afirma Moraes.
As recentes alterações regulatórias também ajudam a ampliar a prioridade para obter mais eficiência energética nas indústrias. Empresas do mercado livre de energia (antes isentas de contribuições para programas de eficiência) agora estarão incluídas no custeio. A tendência é que esse impacto seja incorporado às tarifas.
“Quando a energia se torna mais cara, a eficiência deixa de ser discurso e passa a ser prioridade. O retorno sobre investimento é alto e rápido. E mais do que sustentabilidade, estamos falando de competitividade”, reforça Moraes.
Alguns setores já despontam com maior potencial para avanços, como papel e celulose, alimentos e bebidas, produção de combustíveis, cimenteiro e segmentos ligados a metais e minerais.
Em áreas como siderurgia, onde o uso de energia é destinado majoritariamente ao aquecimento, as soluções ainda evoluem, mas a pressão para acelerar ajustes é crescente. Já segmentos mais pulverizados, como alimentos e papel, apresentam terreno fértil para adoção de tecnologias de automação e monitoramento energético.
Apesar do cenário de oportunidade, a maturidade industrial para lidar com o tema ainda é baixa. Muitas empresas tomam decisões apenas diante de urgências operacionais, deixando de capturar ganhos relevantes. “Em alguns casos, o gasto com energia supera até a folha salarial. Crescer pode significar vender mais, ou gastar menos para produzir a mesma coisa”, conclui Moraes.
A automação industrial e a digitalização estão redesenhando a competitividade energética global. No Brasil, o potencial existe, e o momento também, devido às projeções de mais crescimento econômico pela frente.
“Se o país já é referência em energia renovável, o próximo passo é transformar essa vantagem em produtividade industrial. A tecnologia está disponível. Agora, o desafio é acelerar, antes que o custo da ineficiência se torne maior do que o investimento necessário para superá-la”, afirma Moraes, da Eletron.