Por Bruno Lage, administrador com MBA em Finanças (FGV); atuou em grandes bancos e family offices e, em Curitiba, cofundou a Catálise com Marcelo Aoki
Ao analisar os números mais recentes da indústria de fundos no Brasil, fica evidente que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) assumiram um papel central na captação de recursos. Não se trata de percepção, mas de um movimento sustentado por dados concretos.
A indústria de fundos encerrou 2025 com captação líquida positiva de R$ 88,4 bilhões, segundo a ANBIMA. Desse total, os fundos de renda fixa concentraram R$ 84,3 bilhões, o que mostra que o fluxo de recursos esteve majoritariamente direcionado ao crédito.
Dentro dessa categoria, destacaram-se os fundos classificados como duração livre crédito livre, que registraram captação líquida de R$ 148,4 bilhões no ano. Esses veículos podem alocar mais de 20% da carteira em ativos de médio e alto risco, no mercado doméstico e internacional, refletindo uma busca clara por estratégias menos dependentes de títulos públicos.
É nesse contexto que os FIDCs passaram a ocupar posição de destaque. A principal razão está na natureza dos ativos subjacentes. Enquanto a renda fixa tradicional se apoia majoritariamente em títulos soberanos ou crédito bancário, os FIDCs investem diretamente em recebíveis da economia real.
Essa conexão com os fluxos de caixa das empresas permite maior previsibilidade dos resultados e um controle mais refinado do risco, desde que a originação e a análise de crédito sejam conduzidas com rigor. Cabe destacar, contudo, que os FIDCs são destinados a investidores qualificados, enquanto os fundos de renda fixa permanecem amplamente acessíveis ao público em geral.
Outro diferencial relevante é a estrutura de cotas. A presença de cotas subordinadas, responsáveis por absorver as primeiras perdas, oferece uma camada adicional de proteção aos investidores seniores. Em 2025, esse mecanismo mostrou-se particularmente importante frente a fundos mais expostos à marcação a mercado, conforme apontam análises setoriais da ANBIMA.
A evolução da base de investidores reforça essa tendência. Ao longo de 2025, o número de contas aplicando em FIDCs praticamente dobrou, sinalizando maior familiaridade do investidor qualificado com o produto e crescente confiança nas estruturas de governança.
Na Catálise Estruturação e Gestão de Fundos, esse movimento foi percebido de forma direta. Observamos uma demanda crescente por estruturas mais sólidas, com diversificação adequada, critérios rigorosos de crédito e alinhamento claro de interesses entre cotistas e originadores.
Os dados mostram que os FIDCs não apenas competiram com a renda fixa tradicional, mas passaram a liderar fluxos relevantes de capital. Mais do que um ajuste pontual de portfólio, trata-se de uma reconfiguração estrutural da alocação de crédito no mercado de capitais brasileiro, baseada em dados, governança e eficiência econômica.
Seguimos para um ano que promete consolidar cada vez mais os FIDCs como instrumento da democratização do crédito no Brasil.