O Norte do Paraná vive um momento de consolidação do seu ecossistema de inovação, com Londrina no centro desse movimento. Segundo o Sebrae, a cidade reúne hoje 278 startups ativas e 48 ambientes de inovação credenciados, articulados por 12 governanças que atuam de forma integrada desde 2017 .
Esse avanço também se reflete na maturidade do ecossistema.
Na escala do Estação 43, Londrina evoluiu de 16 pontos entre 2018 e 2019 para 23 pontos em 2025, indicando um salto consistente na organização, nas conexões e na capacidade de geração de inovação.
O reconhecimento já extrapola o cenário regional. Londrina figura entre as mil cidades mais relevantes do mundo para startups e está entre as 20 cidades mais inteligentes do Brasil, ao mesmo tempo em que avança em novos investimentos em infraestrutura, como centros de inovação e projetos ligados às universidades.
Nesse cenário, o Estação 43 se consolida como o principal articulador do ecossistema local, conectando empresas, universidades, poder público e sociedade civil.
A proposta é transformar a densidade de iniciativas em maturidade econômica, ampliando a geração de negócios, startups e soluções com impacto real.
Para entender o estágio atual e os próximos passos desse movimento, o Economia PR Drops conversa com Hemerson Ravaneda, diretor-superintendente do Estação 43. Confira:
Como você descreveria o estágio atual do ecossistema de inovação de Londrina em comparação com outros hubs do país? Quais são os principais diferenciais da região?
Hemerson: O ecossistema de inovação de Londrina tem características bem específicas quando comparado a outros. A principal diferença é que ele não conta com uma fonte primária de financiamento, algo comum em outros ecossistemas, onde há governo ou iniciativa privada injetando recursos para impulsionar o movimento. O Estação 43 é construído puramente por voluntários, hoje são mais de 450. Temos 12 governanças setoriais que abrangem diversos setores econômicos e, acima delas, como guarda-chuva, o Instituto Estação 43. Estamos bem avançados em organização por setores econômicos e na evolução pelos padrões do SEBRAE de ecossistema de inovação. Porém, ainda precisamos de perenidade institucional. Não temos uma fundação ou instituto que nos proveja financeiramente de forma contínua. Todas as ações são voluntárias e dependem de subvenção pontual para eventos e iniciativas específicas. Esse é, na minha visão, o principal ponto de diferença em relação a outros ecossistemas mais consolidados.
Quais os maiores desafios que as startups do Norte do Paraná enfrentam hoje e o que a Estação 43 faz de concreto para endereçar esses gargalos?
Hemerson: O maior desafio é mercado. Como o ecossistema é aberto, as startups surgem por iniciativa dos próprios fundadores e, quando isso acontece, frequentemente há uma desconexão com o mercado. São boas ideias sendo desenvolvidas, mas muitas vezes não estão alinhadas com as necessidades reais que o mercado busca. Para endereçar isso, o Estação 43 trabalha em duas frentes principais, acelerando a comunicação entre as hélices do ecossistema e aproximando as governanças dos setores industriais para que tragam suas dores. É uma espécie de pitch reverso. As empresas expõem suas dificuldades aos fundadores e cada um identifica o que se encaixa no produto ou ideia. Essa conexão é o que estamos construindo agora.
Como tem sido a articulação entre universidades, empresas estabelecidas e governo para fortalecer o ecossistema local?
Hemerson: Sempre houve um problema grave de comunicação entre esses entes. As academias distantes das empresas, as empresas distantes do governo, o governo distante do ecossistema. Agora estamos tentando resolver isso de forma mais intensiva, especialmente após a institucionalização do Estação 43, que aconteceu em 2025, com a obtenção do CNPJ e da declaração de ICT, o que fortalece bastante esse movimento. Já estamos em contato com as universidades e contamos com uma governança de inovação das instituições de ensino superior. Até então, essas instituições olhavam muito mais para como inovar internamente no ensino superior. Agora estamos levando a discussão para como conectar os pesquisadores à inovação e ao mercado.
De onde surgiu a ideia do marketplace para startups? Qual dor específica ele resolve que outras ferramentas já existentes não resolviam?
Hemerson: A ideia nasceu de uma dificuldade que eu mesmo sempre enfrentei como membro da comunidade de startups. Quando vou falar com fundos de investimento, eles pedem uma série de informações que a maioria das startups não está pronta para fornecer. E quando os fundos vêm olhar para Londrina, não conseguem enxergar o nível de maturidade de cada startup para sequer iniciar uma dinâmica de matchmaking. A dor, portanto, é dupla. As startups não sabem como se apresentar e os investidores não conseguem qualificar o que encontram. O marketplace resolve exatamente essa lacuna, estruturando as informações e entregando um grau mínimo de maturidade para tornar o processo muito mais objetivo.
Como funciona a dinâmica da plataforma, quem pode entrar, como as startups são apresentadas e como investidores e empresas acessam esse conteúdo?
Hemerson: Encontramos no mercado uma plataforma de avaliação de startups que estamos testando em regime de POC, prova de conceito, dentro da Codel. As startups se cadastram e inserem suas informações, desde aquelas em fase de ideação até as que já estão faturando. A exposição dos dados é feita de forma controlada. As startups decidem o que querem compartilhar. A Codel não expõe os dados diretamente. O que os investidores visualizam é algo como temos 50 startups de saúde, das quais 30 optaram por expor seus dados, com o grau de maturidade e as informações fornecidas por cada uma, sem identificação imediata. O investidor interessado entra em contato com a Codel, informa o perfil que busca e a Codel faz o matchmaking, organizando uma reunião entre as startups selecionadas e o fundo de investimento.
Qual seria, para você, o indicador mais concreto de que o ecossistema de Londrina deu um salto de maturidade nos próximos anos?
Hemerson: CNPJ criado a partir do ecossistema e nota fiscal emitida. Esse é o indicador mais concreto. Um ecossistema que não gera CNPJ e não emite nota fiscal pelos negócios gerados dentro dele ainda está em momento de conscientização, ainda não virou. O nosso ecossistema já deu um salto grande de maturidade até aqui, mas a virada de verdade se mede em empresas nascendo e transacionando de verdade.