Segunda à noite. Praça de alimentação de um shopping de uma cidade do interior do do Paraná. Uma mesa aqui com duas pessoas, outra ali com uma comendo às pressas, outra lá com a mãe e o filho (assim como eu).
Os atendentes dos estabelecimentos da pizzaria, da hamburgueria, da comida italiana estavam, em sua grande maioria desocupados – muitos devido à ausência de fluxo de clientes – olhando para o celular, esperando o tempo passar.
Observando um pouco mais era possível ver as franquias que usam tótem de autoatendimento (não é uma novidade), o que diminui o percentual de colaboradores. Percebe-se um, no máximo dois atendentes, pelo menos ali neste cenário. Com isso, há a economia de tempo, reduz custo, dentre outros fatores.
Tanto eu quanto você já esbarramos em atendimentos que usam da tecnologia e da inteligência artificial para agilizar processos em grande escala, trazendo uma agilidade com jeito humanizado.
A IA está transformando, de forma estrutural e profunda, como vamos operar e conviver e viver em um novo cenário. Isso já traz reflexos nas relações de trabalho, na produção, nos serviços, enfim, na entrega de resultados.
Com base nisso, ao estudar a relação entre humano e tecnologia, o relatório The Human Advantage: Stronger Brains in the Age of AI, publicado em janeiro de 2026 pelo World Economic Forum em parceria com o McKinsey Health Institute, traz uma reflexão importante.
O futuro está na atuação conjunta entre humano e tecnologia, com o cérebro assumindo papel central na geração de resultados para a vida cotidiana. Não se trata de tecnologia versus humano, mas de uma lógica complementar, em que “tecno + humano” redefine, de forma significativa, a construção social.
A desenvoltura humana analítica, assim como a capacidade de lidar com desafios, é apresentada neste estudo como brain skills – habilidades cognitivas (usando em substituição ao até então usado amplamente “soft skill” – ou seja, a capacidade do cérebro de autorregulação, de ter o pensamento crítico, de usar a sua criatividade, e lançar mão do poder da adaptabilidade e da aprendizagem contínua será cada vez mais requerida.
Nesta linha, o estudo apresenta o conceito de capital cerebral, ou seja, a combinação da saúde física/estrutural do cérebro (em ótimo estado de saúde e com bom funcionamento) aliado as competências cerebrais (capacidades cognitivas, interpessoais e de liderança que nos tornam humanos).
Tais habilidades estão intimamente ligadas à vida do homem e da sua interação em ambientes pessoais e profissionais – trazendo luz ao papel humano, de fato, ou seja, nesta interface com tantos dados, a sua autonomia para tomada de decisões pautadas em contexto e ética será ainda mais necessária.
Segundo dados apresentados neste estudo, estima-se que 59% dos trabalhadores precisarão de treinamento adicional até 2030 para lidar com as demandas geradas pela inteligência artificial. Habilidades humanas e comportamentais? Compreensão de como usar as ferramentas de IA? São tantas oportunidades e receios…
E dentro da construção do capital cerebral, a análise destaca cinco pilares para a construção do mesmo e vou me ater a um deles: fomentar habilidades cerebrais, ou seja, desenvolver capacidades como pensamento analítico, resiliência, criatividade e alfabetização tecnológica.
Sem o olhar comprometido para o desenvolvimento contínuo será cada vez mais complexo se manter em uma sociedade que está vivendo em um ritmo tão acelerado.
E quando falamos de desenvolvimento é ter a mente mais propensa ao novo, com reflexão, com contexto e com ética (e talvez, não em tantas “pílulas rápidas de ‘conhecimento” que temos acesso em forma de enxurrada via redes sociais. Destaco que não sou contra a este modelo, apenas, que para alguns cenários, se faz necessário ir além).
Desenvolver também é conseguir estimular a criatividade em tarefas cotidianas manuais para fazer novas sinapses, como escrever usando papel e caneta (sim, parece óbvio, mas já existem estudos que, diante do uso massivo de telas, o ser humano está perdendo esta habilidade).
Fato é que se vive um momento de mudanças profundas de perspectiva diante das infinitas possibilidades que a inteligência artificial propõe. Ainda não se sabe, para muitos negócios, quais caminhos são sólidos para seguir, como olhar para o time de colaboradores, o que fazer em desafios específicos.
A tecnologia impacta até o nosso alimento (mas este é assunto para uma próxima coluna). Ainda vamos comer – nas praças de alimentação ou não. E por sinal, como elas serão no futuro? Ou ainda, quais serão as alterações na sua área profissional com a IA cada vez mais perto?
Como diria aquele antigo jargão de um programa televisivo brasileiro “estamos de olho…”