A história de que Curitiba não tem suingue é tão antiga quanto o próprio Carnaval da cidade.
É igual à lenda da loira do cemitério municipal, que pede um táxi e some: todo mundo repete, ninguém questiona. Os primeiros bailes registrados por aqui datam do final da década de 1850, ainda com muita influência europeia. Ao menos é o que chega até nós.
Isso também ajuda a explicar por que pouco se sabe sobre como o Carnaval verdadeiramente de rua começou na cidade. Os registros são escassos e fragmentados, voltados sobretudo a eventos oficiais da cidade, enquanto manifestações populares, espontâneas e coletivas permaneceram à margem da história (pelo menos a documentada).
Nota: “Carnaval verdadeiramente de rua” se entende como um movimento que ocupa o espaço urbano, inverte a ordem, cria comunidade e transforma a cidade em festa.
Mas, quase silenciados, os coletivos independentes e foliões foram comendo pelas beiradas, e organizando, ano após ano, uma farra consistente e consciente. Ainda que sob os ataques de setores que insistem em enxergar a capital por um viés elitista, antipopular e até puritano, como se Curitiba tivesse alergia ao que vem da rua.
Esta visão careta do que é cultura, pra quem Carnaval é só baderna e barulho, parece mais fraca a cada Carnaval – ano passado, por exemplo, cerca de 50 mil foliões foram às ruas da capital para brincar e se divertir.
O evento é de grande porte e merece ser tratado como tal: contando com o pré-Carnaval, foram três meses de festa em 2025 no Paraná, que movimentaram cerca de R$ 712,22 milhões no estado, conforme projeção do Fecomercio.
Entre os principais beneficiados estão bares e restaurantes, transporte de passageiros e, para quem vem de fora, hotéis e pousadas.
Guardadas as óbvias e devidas proporções de tamanho e renda, São Paulo, terra onde o poeta já disse ser o “túmulo do samba”, reuniu 16,5 milhões de pessoas, gerou 50 mil empregos diretos e indiretos e movimentou a economia local com R$ 3,4 bilhões, de acordo com a gestão Nunes.
E não faz tanto tempo assim que todo mundo queria sair da cidade em época de festas.
Berço do samba, o Carnaval 2026 deve movimentar mais de R$ 5,7 bilhões na economia do Rio, segundo Riotur. Curitiba não concorre com esses números, ainda. Mas já prova que o carnaval também é um ativo econômico.
Quando a festa cresce e movimenta dinheiro é que ela deixa de ser tolerada e passa a ser disputada. O carnaval de rua se vê em uma encruzilhada histórica: entre a liberdade de estar solto, dançando e pulando, sem precisar pensar em muita coisa, e a institucionalização para poder dialogar com o poder público.
Fazer o CNPJ de um bloco de carnaval de rua, à primeira vista, parece uma contradição com a própria ideia de festa livre, para todos. Mas, na prática, para muitos, pode ser necessário.
Foi o caso do Garibaldis e Sacis, um dos mais tradicionais blocos de Curitiba.
A história deles começa em 1999, também como resposta a um discurso recorrente de que a cidade “não tinha Carnaval”. Segundo Marcel Cruz, um dos atuais responsáveis pelo bloco, a ideia surgiu depois de um comentário ouvido na rádio.
Ao escutar que Curitiba parecia não ter Carnaval, Itaércio Rocha — um dos fundadores do Garibaldis — reagiu:
“Peraí, se isso for verdade, o que nunca foi, talvez as pessoas não estejam preparadas para o Carnaval”, conta Marcel, rindo.
A solução de Itaércio, muito estratégica, foi criar um pré-Carnaval, como forma de aquecer a cidade para, então, receber os quatro dias da festa oficial. Era o plano.
A organização formal – CNPJ, nome de associação, estatuto e estrutura jurídica definida foi criada em 2010, como Associação Recreativa Cultural — hoje também Assistencial e Educacional — Amigos do Garibaldi e Sacis.
Ainda assim, a formalização não significou reconhecimento imediato. Foram mais de quinze anos de conversas com a Fundação Cultural de Curitiba e com a prefeitura, avançando a passos de formiga.
Segundo análise de Marcel, esse diálogo começou sem muito método, mas nunca deixou de existir. Durante mais de uma década o bloco desfilou sem qualquer suporte básico de infraestrutura. Só depois de muito diálogo os Garibaldis e Sacis começaram a ter condições mínimas para que o desfile aconteça com segurança, com banheiros químicos, logística adequada, e outros.
“É isso que faz a festa acontecer”, resume.
E ainda é pouco. Mesmo depois de muito questionamento, só ano passado houve uma evolução nas conversas sobre a regularização de ambulantes, por exemplo. Porém sem nenhuma decisão concreta.
É nesse contexto, também, que começam a surgir os editais de fomento ao Carnaval.
Se antes, há 20 anos, o apoio institucional à cultura em Curitiba era fragmentado e nunca chegava até movimentos populares, hoje conseguimos ver uma tímida mudança na postura do poder público. Esse processo ajuda a entender por que os editais atuais não surgem de um ponto de partida, mas são, sim, parte de uma construção social e de uma demanda pública. Vinda da rua.
O edital para o Carnaval de 2026 prevê recursos para produção, difusão, pesquisa e formação cultural, com apoio a escolas de samba e blocos – indicando que o poder público passou a observar e incorporar dinâmicas criadas pelos próprios blocos. A verba contempla quinze projetos em diferentes modalidades, com valores que variam de R$ 7.250 a R$ 115 mil.
“É pouco. Nossa festa ainda é feita na raça, na alegria e com doações privadas”, diz Marcel.
A inspiração, curiosamente, vem de outro evento que nunca enfrentou tanta resistência cultural: o Natal de Curitiba.
“É um caso de sucesso”, afirma. “Deu tudo certo, não houve grandes problemas, tudo foi bem-feito. É só adaptar esse modelo para o Carnaval, para as festas juninas e outras celebrações populares.”
Para ele, não se trata de competir por recursos, mas de equilíbrio.
“Se uma fração do investimento feito no Natal — um quarto, um terço — fosse aplicada em outras festas, Curitiba teria o melhor Carnaval do Sul e a melhor festa junina. A cidade já sabe fazer. Falta decidir fazer“.