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Cinco lições de um pedido recente de recuperação no agro

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Por Meisson G. Eckardt, Diretor Jurídico da Safegold

A recente recuperação extrajudicial de mais um grande grupo empresarial do agronegócio brasileiro, especializado na comercialização de insumos agrícolas e com forte presença na região Sul, oferece um conjunto valioso de lições para o mercado.

Trata-se de um caso emblemático não apenas pelo valor das dívidas (R$ 2,2 bilhões), mas também pelo porte da operação (10.000 produtores rurais impactados, em cerca de 200 municípios) e pelo contraste entre crescimento acelerado e fragilidade organizacional, combinação que, quando mal administrada, costuma resultar em crises profundas.

O grupo cresceu apoiado em um ciclo favorável do agronegócio, com expansão do crédito, aumento da demanda por fertilizantes, defensivos e sementes e uma percepção generalizada de que o setor seria imune a choques mais severos.

Esse contexto gerou uma falsa sensação de segurança que também atingiu muitos empresários rurais e diversas outras empresas do setor: a Serasa Experian informou que o 3º trimestre de 2025 registrou 628 pedidos de recuperação no agronegócio, contra 254 no 3º trimestre de 2024 (alta de 147%).

No caso em análise, o pedido de recuperação extrajudicial não surgiu de um evento isolado, mas da falta de gestão adequada e do acúmulo de decisões estratégicas equivocadas ao longo do tempo. Vejamos.

  • Primeira lição: encarecimento do crédito. O primeiro ponto que merece destaque é a dependência excessiva de crédito de curto prazo para financiar crescimento de longo prazo. A companhia expandiu sua operação apoiada em capital de giro caro, com vencimentos incompatíveis com o ciclo financeiro do produtor rural. Quando o custo do dinheiro subiu e o mercado de crédito se retraiu, a estrutura de financiamento mostrou-se insustentável.
  • Segunda lição: aumento da inadimplência. O segundo aprendizado está na má gestão do risco na concessão de crédito aos clientes. Em busca de volume e participação de mercado, a empresa ampliou prazos, flexibilizou garantias e concentrou exposição em determinados perfis de clientes. A inadimplência, quando veio, não foi apenas pontual; tornou-se sistêmica.

Em setores altamente cíclicos como o agro, uma política de crédito frouxa costuma cobrar seu preço em momentos de estresse. Se não houver controladoria com rotinas de provisão, critérios objetivos de corte e revisão periódica da carteira, o resultado aparece tarde demais, no pior momento do ciclo.

  • Terceira lição: precariedade dos controles e da gestão financeira. O terceiro ponto diz respeito à governança e ao controle financeiro. Crescer rápido exige sistemas, indicadores e disciplina de gestão ainda mais rigorosos. O caso revela sinais de fragilidade no acompanhamento do endividamento, na previsibilidade do fluxo de caixa e na capacidade de reação antecipada. Quem tem informação gerencial sólida chega à mesa negociando; quem não tem chega se explicando.

A recuperação extrajudicial, nesse sentido, não foi surpresa para quem observava os números com atenção, mas acabou sendo tardia como instrumento de correção.

  • Quarta lição: ausência de proteção aos impactos externos

O quarto aspecto é a exposição a choques externos, como variação cambial, volatilidade de preços de commodities e mudanças nas condições climáticas. Empresas do agro convivem com esses riscos diariamente, mas a diferença está em como se protegem deles. Falhas em políticas de hedge e na diversificação de receitas amplificaram os impactos negativos no caixa e no resultado operacional.

  • Quinta lição: falta de transparência e comunicação

Por fim, o quinto ponto envolve a comunicação e a relação com stakeholders. Em situações de estresse financeiro, transparência e diálogo com credores, fornecedores e parceiros são fundamentais, antes e durante a adoção das medidas necessárias. A deterioração da confiança costuma acelerar crises, reduzir alternativas de financiamento e multiplicar litígios no Judiciário.

A recuperação judicial (ou extrajudicial) é um instrumento legal, válido e importante de reorganização, mas a falta de estratégia reduz o espaço de negociação, afeta a confiança, aumenta os riscos e destrói valor.

Por isso, um processo bem conduzido, com a apresentação de um calendário objetivo de comunicação (com fatos, marcos e compromissos verificáveis), construído com profissionais especializados em reestruturação, se mostra essencial e costuma valer mais do que qualquer promessa genérica.

Mais do que apontar culpados, o episódio serve de alerta. Em um ambiente de juros elevados, crédito seletivo e margens pressionadas, empresas que não revisarem seus modelos de financiamento, gestão de risco, controladoria e governança tendem a repetir a mesma trajetória.

O caso analisado ensina que crescimento, por si só, não é sinônimo de solidez. No agronegócio, setor estratégico, competitivo e cada vez mais financeiro, sobreviverá quem combinar expansão com disciplina, crédito com cautela e ambição com governança. 

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A Safegold foi fundada em 2010 a partir da visão de Ezequiel Douglas Wilbert, especialista em finanças com ampla experiência no setor. Desde 2002, ele já percebia que muitas empresas brasileiras enfrentavam dificuldades não por falta de potencial, mas por falhas na gestão -cenário que o inspirou a criar uma consultoria dedicada a transformar negócios com inteligência financeira e excelência na gestão. Inicialmente concebida como uma UTI empresarial voltada para turnaround, gestão de caixa e mediação de dívidas, a Safegold evoluiu ao longo dos anos. Em 2015, ampliou sua atuação com a criação da área de Controladoria e FP&A, oferecendo uma visão 360º dos negócios. Em 2018, incorporou Business Intelligence e automação de indicadores, fortalecendo sua capacidade analítica e estratégica. Hoje, posiciona-se como uma boutique de gestão com forte viés tecnológico, especializada em Performance Empresarial e Reestruturação de Negócios. Com uma equipe multidisciplinar de mais de 50 profissionais e mais de 300 empresas atendidas, a Safegold entrega soluções personalizadas com foco em resultados sustentáveis, decisões baseadas em dados e estratégia empresarial. Entre seus reconhecimentos estão o selo Microsoft Partner, software próprio de tesouraria e quatro prêmios Mérito em Administração em Santa Catarina.

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