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Como a Empatheia quer estruturar ecossistemas de inovação no PR

Empatheia Inovação Economia PR
Foto: Divulgação

A discussão sobre inovação vem ganhando novos contornos no Brasil. Se durante anos o foco esteve no surgimento de startups e no desenvolvimento de tecnologias, cresce agora a percepção de que inovar depende cada vez mais da articulação entre diferentes atores.

O Brasil ocupa a 52ª posição no Global Innovation Index 2025, publicado pela WIPO, e figura entre as economias que mais avançaram no ranking desde 2019.

O progresso, no entanto, convive com gargalos estruturais, especialmente na transferência de conhecimento entre academia, governo e setor privado. Empresas, universidades, governos, entidades e ambientes de inovação formam redes complexas que exigem coordenação, governança e visão sistêmica.

Nesse cenário, o ecossistema de inovação de Curitiba tem se destacado no país. A capital paranaense multiplicou por oito o número de startups na última década, passando de 84 para 670.

A cidade também reúne cerca de 185 ambientes de inovação e abriga três unicórnios brasileiros: Ebanx, MadeiraMadeira e Olist.

O setor de tecnologia concentra mais de 9 mil empresas na cidade, enquanto o Vale do Pinhão articula um ecossistema que envolve mais de 60 instituições de ensino superior, além de aceleradoras, incubadoras e fundos de investimento, de acordo com levantamento do BP Money.

O reconhecimento internacional reforça esse posicionamento. Curitiba foi eleita a Comunidade Mais Inteligente do Mundo em 2024 pelo Intelligent Community Forum. Já o Smart City Expo Curitiba 2025, um dos principais eventos globais sobre cidades inteligentes, reuniu 21.712 visitantes de 600 cidades brasileiras e 25 países, recorde do evento, com estimativa de geração de R$ 650 milhões em negócios, segundo dados divulgados pela organização.

É nesse ambiente que surgiu e se desenvolveu a Empatheia, organização fundada em 2016 com o propósito de fortalecer conexões entre pessoas, organizações e territórios dentro do ecossistema de inovação do Paraná. A empresa agora entra em uma nova fase com o lançamento da plataforma Theia, voltada à governança de ecossistemas de inovação.

Nesta edição do Economia PR Drops, conversamos com Luiz Américo Gori Camargo, CEO e founder da Empatheia, sobre a evolução da empresa, o papel de Curitiba na construção do modelo de atuação e os desafios para ampliar o impacto da inovação no Paraná. Confira:

A Empatheia nasceu em 2016 de um incômodo com a desconexão entre pessoas e propósito. O que mudou nesses quase dez anos?

    Américo: Mudou a escala do problema e a maturidade da resposta. Em 2016, o incômodo era sobre cultura organizacional, liderança e a desconexão com os colaboradores. Quando ouvi o desabafo de uma colaboradora dizendo: “Eu seria mais feliz se eu pudesse ser eu mesma no trabalho”, aquilo me chocou. Eu vi naquela fala muito de mim. Foi ali que nasceu a tese da empatia e da autenticidade como caminho para resolver essa equação. A ideia inicial era simples e profunda: a empatia poderia alinhar pessoas ao propósito e melhorar as relações de trabalho. E, na prática, isso se mostrou verdadeiro. Em 2019, ao apresentar meu TCC em Economia Criativa, surgiu a primeira versão estruturada da Empatheia como uma plataforma de empatia. A proposta era apoiar líderes e colaboradores a se relacionarem de forma mais consciente, criando ambientes mais saudáveis e produtivos. Foi nesse momento que percebemos que cultura organizacional era apenas a primeira camada de um problema muito maior. A vivência dentro do empreendedorismo, da inovação e da tecnologia ampliou nosso campo de visão. Percebemos que o problema não estava apenas dentro das empresas, mas sim entre elas. Estava na desconexão entre atores, na fragmentação de iniciativas, na ausência de coordenação entre organizações que, teoricamente, compartilham o mesmo território ou setor. E a Empatheia amadureceu junto com esse diagnóstico. Com origem em sistemas de gestão empresarial e consultorias voltadas a dados e estrutura organizacional, migramos de uma atuação focada na empresa individual para uma presença mais sistêmica. Hoje não nos posicionamos como “catalisadores” isolados, mas como um ator de apoio à governança de ecossistemas, sejam territoriais, locais, setoriais ou empresariais. Se antes trabalhávamos a empatia como competência relacional, hoje trabalhamos a empatia como arquitetura de conexão. A desconexão deixou de ser apenas humana. Tornou-se estrutural. E a Empatheia também precisou evoluir na mesma proporção.

    Como Curitiba e o Vale do Pinhão moldaram o modelo da Empatheia?

    Américo: Curitiba nos ensinou método. O Vale do Pinhão nos ensinou rede. A cidade de Curitiba nos influenciou profundamente na construção da Empatheia. Mas foi participar de iniciativas que transformam a cidade (como o Vale do Pinhão e o Smart City Expo Curitiba) que ampliou nossa visão sobre cidades inteligentes, planejamento urbano e governança de redes. A cidade é feita de espaço, mas sobretudo de pessoas e suas histórias. Olhar do centro aos bairros revela uma riqueza de oportunidades e potenciais que muitas vezes passam despercebidos. E o conhecimento sobre a cidade, em seus meandros, tem sido um diferencial no relacionamento com empresas que não são da cidade e a enxergam como destino de expansão e prosperidade. Com o Vale do Pinhão, tive o privilégio de participar ativamente da Rede de Ambientes de Inovação e do Laboratório de Governança, iniciativa do Sebrae PR com a Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação no período em que estivemos à frente do Accelera Hub, do qual fomos signatários do Pacto pela Inovação do Vale do Pinhão. Ao lado do Manifesto do ecossistema, é um Instrumento importante, que ajudou a “colocar a bola no chão” para que o jogo recomeçasse no pós-pandemia com direção, alinhamento estratégico e base em valores, princípios e objetivos comuns. Para a Empatheia, foi uma jornada extremamente significativa, pois nos permitiu vivenciar, na prática, o que significa articular múltiplos atores em torno de uma agenda compartilhada. Ao mesmo tempo, a experiência na estruturação da governança setorial EloHabitar demonstrou como setores tradicionais (como a construção civil e seus segmentos adjacentes) também podem operar sob a lógica de ecossistema. O aprendizado que tivemos foi claro: inovação não nasce apenas das startups, modelo que, inclusive, tem se mostrado cada vez mais desafiador quando isolado. Ela emerge da articulação entre os atores de governo, empresas, academia, capital, entidades representativas, instituições de fomento e ambientes promotores de inovação. É o que chamamos de Hélice Sêxtupla. Cada um com seu papel no palco e nos bastidores. A Empatheia absorveu essa vivência. Nosso modelo deixou de ser centrado na empresa isolada e passou a estruturar ferramentas e soluções com base na dinâmica entre atores, com um olhar especial para comunidades, associações empresariais e ambientes promotores de inovação, além de empresas que expandiram a sua visão em redes. O foco está na articulação organizada. Curitiba moldou nossa visão de governança. O Vale do Pinhão validou que ecossistemas com método, dados e coordenação funcionam. Trata-se de tecnologia organizada por relações humanas bem estruturadas.

    Em 2026 a empresa migra de serviços para plataforma, com o lançamento da Theia. O que muda no modelo de negócio?

    Américo: Muda o vetor de crescimento e muda também a forma como pensamos o negócio. A Empatheia deixa de ser vista apenas como uma prestadora de serviços e passa a se posicionar como uma infraestrutura digital de governança para ecossistemas de inovação. Os serviços continuam existindo. Eles são profundos, transformadores e fazem parte da nossa trajetória. Não há nada de errado com consultoria, pelo contrário, há profissionais excelentes atuando nisso, muitos inclusive dentro da nossa própria rede. O ponto é que serviço tem limite de escala. Ele depende diretamente de tempo humano. A plataforma nasce com outra lógica: rede. A Theia é a camada digital que estrutura e governa a dinâmica de um ecossistema com base no que a Empatheia aprendeu em toda a sua jornada. Ela conecta organizações, organiza agendas, consolida dados estratégicos, registra eventos, forma elos institucionais e gera inteligência relacional. Deixamos de operar apenas sob demanda humana direta para estruturar um ambiente baseado em recorrência, dados e rastreabilidade. Isso não elimina os projetos personalizados, eles continuam existindo, mas passam a retroalimentar a plataforma com insights e melhorias contínuas. O modelo passa a combinar camadas modulares de governança, parcerias, experiências, conexões estruturadas como um grande centro de convenções com seus pavilhões e em que seus anfitriões gerenciam e amplificam a sua rede. Isso não elimina os projetos personalizados. E Se antes entregávamos transformação por projeto, agora entregamos infraestrutura para transformação permanente. A Theia está em fase beta, com um grupo limitado e selecionado de participantes. O acesso acontece mediante solicitação de credenciamento, porque estamos priorizando uma entrada qualificada, alinhada aos princípios de governança e colaboração que a plataforma propõe.

    O Paraná tem potencial para ser referência em inovação com impacto social? O que ainda falta?

    Américo: O estado já demonstra capacidade estruturada de inovação com impacto. Ao longo dos últimos anos, tenho convivido com iniciativas que fortalecem o ecossistema tanto no nível territorial quanto na integração entre atores de diferentes regiões e até de outros estados. Essa robustez crescente vem da capacidade de articulação e de uma legislação mais arrojada, que permite a movimentação de recursos com maior agilidade entre poder público, iniciativa privada, universidades e centros de P&D e inovação. Novos ambientes estão sendo estruturados, não apenas voltados a setores tradicionais da economia privada, mas também conectados a áreas de interesse público. Quando a inovação deixa de ser apenas agenda empresarial e passa a ser agenda de desenvolvimento territorial, isso é um claro sinal de maturidade. Outro ponto relevante é o incentivo do governo e da academia na formação de profissionais especializados na gestão de ambientes promotores de inovação, com mestres que viveram a inovação quando ainda era incipiente no estado. Isso cria base técnica para continuidade, algo fundamental para gerar impacto social de longo prazo. Mas, na minha visão, o impacto social não vem apenas da capacidade de produzir inovação. Ele depende da capacidade de difundi-la, de fazer com que a inovação chegue ao cotidiano das pessoas. Temos inúmeras pesquisas produzidas na academia, muitas delas patenteadas, que o mercado sequer sabe que existem. O desafio agora não é apenas criar, mas conectar, transferir e sustentar. Impacto social nasce da capacidade de organizar, medir e sustentar essa inovação ao longo do tempo. E o Paraná está em uma posição privilegiada para dar esse próximo salto.

    Qual mudança de mentalidade você recomendaria para lideranças empresariais paranaenses?

    Américo: Eu acredito que a principal mudança é sair da lógica da competição isolada e avançar para uma colaboração estruturada. Ainda existe, em muitos setores, a mentalidade do “cada um por si”. Eu entendo isso. A competição faz parte do mercado. Mas quando ela se torna isolada e desconectada, acaba limitando o próprio crescimento coletivo e, no longo prazo, até o crescimento individual. Hoje o mundo premia sistemas organizados. Cidades se tornam mais inteligentes quando conseguem articular seus atores de forma coordenada. Setores econômicos se fortalecem quando empresas conseguem colaborar em agendas comuns, mesmo continuando a competir entre si no mercado. Tenho visto que empresas que operam em rede, que compartilham dados estratégicos com governança adequada e que constroem soluções colaborativas crescem de forma mais resiliente. Elas ampliam o acesso a oportunidades, reduzem riscos sistêmicos e ganham escala por meio da articulação. Para mim, liderança hoje exige visão sistêmica. Não basta gerir bem a própria empresa. É preciso compreender o ambiente em que ela está inserida, o setor, o território, os ambientes de inovação, as políticas públicas e as redes que podem potencializar resultados. Quem entende o ecossistema onde atua toma decisões mais inteligentes. E quem contribui para organizar esse ecossistema deixa de ser apenas participante e passa a ser protagonista.

    Quais as principais metas para este ano?

    Américo: A Empatheia atua com base em quatro eixos estratégicos: Me Inspira, Me Conecta, Me Transforma e Me Prospera. Para mim, esses eixos deixaram de ser apenas uma narrativa institucional. Eles passaram a orientar, de forma muito concreta, a evolução da plataforma e as decisões que estamos tomando. Nossa principal meta é consolidar a Theia como uma infraestrutura digital capaz de materializar esses quatro movimentos dentro dos ecossistemas. Inspirar visão estratégica, conectar atores, transformar relações em elos estruturados e gerar prosperidade sustentável. Para isso, estamos focados em três frentes prioritárias. A primeira é estruturar casos piloto com ambientes de inovação e organizações estratégicas no Paraná, validando o modelo em contextos reais. A segunda é consolidar a camada de governança e inteligência relacional da plataforma, garantindo rastreabilidade, organização de agendas e articulação estruturada. E a terceira é expandir a narrativa da Empatheia como infraestrutura de conexão e organização de mercado, posicionando a marca como referência em governança colaborativa. Este é um ano de transição estratégica. Estamos saindo de uma fase mais operacional e entrando em uma fase de consolidação institucional e tecnológica. Contamos com parceiros e amigos que já fazem parte do projeto, que segue aberto a novas organizações interessadas em construir essa jornada conosco. O objetivo é transformar a experiência acumulada ao longo dos anos em uma estrutura escalável, capaz de apoiar ecossistemas de maneira contínua e organizada.

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