Recentemente assisti à minissérie “All Her Fault”, da Prime Video. À primeira vista, trata-se de um suspense policial bem construído, daqueles que prendem o espectador do primeiro ao último episódio. Mas, por trás da trama central, há uma reflexão que permanece mesmo depois que os créditos finais sobem.
Sem entrar em spoilers, a série toca em um tema que muitas mulheres conhecem bem, especialmente aquelas que empreendem ou ocupam posições de liderança: a culpa.
Por trabalhar demais. Por não trabalhar o suficiente. Por priorizar a carreira quando a família precisa de presença. Ou por estar em casa quando o trabalho exige disponibilidade.
Não é exatamente o meu lugar de fala, já que não sou mãe. Mas a reflexão continua válida. Em muitas trajetórias femininas, sobretudo no universo empresarial, existe uma cobrança permanente para justificar escolhas que, quando feitas por homens, raramente são questionadas.
Essa cobrança não aparece apenas na vida privada. Ela atravessa também a forma como a sociedade reage quando mulheres tomam decisões.
No Brasil, todos os dias surgem notícias que mostram como o “não” feminino ainda pode gerar consequências extremas. Mulheres são assassinadas por encerrar relacionamentos, por rejeitar investidas ou simplesmente por decidir seguir em frente.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o país registrou 1.518 feminicídios em 2025, o segundo recorde consecutivo.
O levantamento independente do Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL) aponta um cenário ainda mais alarmante. A instituição contabilizou 2.149 assassinatos e 4.755 tentativas no mesmo período, somando 6.904 ocorrências relacionadas ao crime.
A diferença entre os registros revela algo conhecido por especialistas: a subnotificação ainda é significativa.
Os dados ajudam a compreender a dimensão estrutural da violência. Aproximadamente oito em cada dez vítimas são mortas por companheiros ou ex-companheiros, e cerca de dois terços dos crimes acontecem dentro de casa. Em outras palavras, o ambiente que deveria ser o mais seguro.
Outro elemento que aparece com frequência nos relatos policiais é o histórico de violência anterior. Em muitos casos, a vítima já havia registrado ocorrência ou obtido medida protetiva contra o agressor. Ainda assim, a escalada da violência não foi interrompida.
No Paraná, há sinais mistos.
O estado registrou 87 feminicídios em 2025, número 20% menor que o de 2024, de acordo com dados oficiais de segurança pública. A redução é atribuída, em parte, a programas como o Mulher Segura e ao fortalecimento de mecanismos como a Patrulha Maria da Penha. Mesmo assim, o Paraná ainda ocupa o quinto lugar no ranking nacional de feminicídios.
A violência de gênero é a face mais brutal de um problema maior, mas não é a única.
No mundo dos negócios, a desigualdade aparece de forma menos visível, embora igualmente persistente. Dados compilados por consultorias e institutos de pesquisa mostram que o avanço feminino em posições de liderança existe, mas ainda é lento.
Nas 250 maiores empresas do Brasil, por exemplo, apenas 6% têm mulheres como CEOs. Há cinco anos eram 3%, segundo levantamento citado pela revista Consumidor Moderno. O progresso é real, mas ainda distante de qualquer cenário de equilíbrio.
Quando se ampliam as posições executivas, a presença feminina sobe para cerca de 34%, número que cresceu gradualmente desde 2019. Nos conselhos de administração das empresas do Ibovespa, as mulheres ocupam aproximadamente 21% das cadeiras, de acordo com levantamentos recentes de governança corporativa.
No ecossistema de inovação, a desigualdade se repete. Apenas 19,7% das startups brasileiras foram fundadas por mulheres, segundo dados compilados por plataformas de emprego e pesquisa de mercado.
O acesso a capital também é desigual: empresas fundadas por mulheres recebem menos de 12% do volume total de investimentos de venture capital no país.
Esse dado chama ainda mais atenção quando comparado ao desempenho dessas empresas. Um estudo do fundo norte-americano First Round Capital indicou que startups lideradas por mulheres apresentaram desempenho 63% superior às criadas exclusivamente por homens.
Ou seja, não se trata apenas de uma discussão sobre justiça ou inclusão. Trata-se também de eficiência econômica.
No Paraná, o empreendedorismo feminino possui uma base relevante. Cerca de 32% dos negócios do estado são liderados por mulheres, segundo dados de programas de desenvolvimento empresarial e levantamento do Sebrae.
Em Curitiba, o percentual chega a aproximadamente 34%, enquanto em algumas cidades menores as mulheres já representam quase metade dos microempreendedores individuais.
O desafio local, entretanto, não está apenas em abrir empresas. Está em fazê-las crescer. Grande parte desses negócios permanece em escala pequena, muitas vezes por falta de acesso a redes estratégicas, crédito mais robusto ou mercados corporativos de maior porte.
Esse cenário cria um paradoxo curioso. Nunca se falou tanto em diversidade, liderança feminina e equidade de gênero. Nos últimos anos surgiram comunidades, fundos de investimento especializados, programas de aceleração e uma quantidade crescente de eventos dedicados ao tema.
Mas, quando se observam os dados com atenção, percebe-se que as estruturas profundas mudam lentamente. Quem decide onde o capital será investido continua sendo majoritariamente homem.
Quem ocupa a maioria dos conselhos de administração também. E quem define promoções e trajetórias de carreira ainda opera, muitas vezes, com critérios herdados de uma cultura corporativa construída décadas atrás.
Talvez por isso tantas mulheres, em diferentes contextos, ainda convivam com aquela sensação inicial que apareceu na série de televisão.
A sensação de que cada escolha exige alguma forma de justificativa.
A discussão sobre igualdade de gênero costuma ser tratada como uma pauta exclusivamente feminina. Na prática, ela é muito mais ampla.
Empresas perdem talento quando não conseguem reter ou promover mulheres. O mercado perde inovação quando investe menos em fundadoras. E a sociedade inteira perde quando metade da população precisa negociar constantemente o direito de simplesmente decidir os rumos da própria vida.
No fim das contas, a pergunta talvez não seja o quanto as mulheres avançaram nas últimas décadas.
A pergunta mais incômoda é outra: quanto ainda custa, para uma mulher, dizer “sim” para a própria vida. Ou simplesmente dizer “não”.