Por Roberto Lopes é Diretor de Novos Negócios do Grupo Eko Bee e responsável pela H2Eko
Por muito tempo, a água foi tratada como um recurso invisível na gestão de condomínios. Essencial, mas raramente questionada. Bastava pagar a conta no fim do mês. Esse modelo, no entanto, está ficando para trás e não por escolha, mas por pressão de realidade.
Eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes no Brasil, têm colocado a segurança hdrica no centro das decisões urbanas. Ao mesmo tempo, o custo da água, e principalmente do esgoto, muitas vezes atrelado ao consumo, passou a impactar diretamente a taxa condominial. O que antes era uma despesa previsível, hoje se comporta como uma variável de risco.
Mas o ponto mais crítico está no desperdício estrutural do sistema. Um estudo divulgado em 2025 pelo Instituto Trata Brasil, com base em dados oficiais de saneamento, mostra que o país perde mais de 40% da água tratada antes mesmo de ela chegar às torneiras. Na prática, isso significa bilhões de litros desperdiçados todos os anos, e um custo que inevitavelmente recai sobre o consumidor.
Esse cenário expõe uma contradição: enquanto há escassez e aumento de custos, também existe um enorme potencial de eficiência ainda pouco explorado dentro dos próprios empreendimentos.
É nesse contexto que o reuso de água ganha relevância. Estudos técnicos brasileiros mostram que o reaproveitamento de água cinza, proveniente de chuveiros, pias e máquinas de lavar, pode reduzir em cerca de 18% o consumo total de água potável em residências.
Em condomínios, a escala de uso e a concentração de unidades permitem ampliar o potencial de economia, especialmente quando o sistema é aplicado de forma coletiva.
A lógica é simples: uma parte significativa da água consumida no dia a dia não precisa ser potável. Ainda assim, utilizamos água tratada, com alto custo de captação e distribuição, para atividades como limpeza, irrigação e manutenção.
Essa distorção, que por anos passou despercebida, começa a ser revista à medida que o tema ganha peso financeiro.
O avanço da gestão hídrica urbana já aponta para um movimento claro: soluções descentralizadas, como o reuso de água e a captação local, deixam de ser alternativas e passam a integrar a estratégia de abastecimento das cidades. Trata-se de uma adaptação a um cenário de pressão crescente sobre os recursos naturais.
Esse movimento também reposiciona o papel da gestão condominial. O síndico deixa de atuar apenas na operação e passa a tomar decisões que impactam diretamente custos, valorização do ativo e previsibilidade financeira.
Ao mesmo tempo, há um componente cultural importante. A mudança de comportamento dos moradores ainda acontece de forma gradual, mas tende a acelerar à medida que os impactos se tornam mais visíveis. Quando a água deixa de ser abstrata e passa a pesar na taxa mensal, a percepção muda.
O fato é que a água já não pode mais ser tratada como um recurso garantido dentro da lógica urbana. Ela passou a exigir planejamento, tecnologia e gestão ativa.
Soluções como estações compactas de tratamento de água cinza, a exemplo da ETAC, já permitem que condomínios aproveitem volumes que antes seriam descartados, reintegrando essa água a usos não potáveis dentro da própria operação.
Esse tipo de tecnologia passa a cumprir um papel prático na redução de custos e na adaptação dos empreendimentos a uma nova realidade hídrica.
Condomínios que entenderem esse movimento mais cedo terão vantagem clara, não apenas em termos de custo, mas também de adaptação a um cenário que será, inevitavelmente, mais pressionado. Porque, no fim, a questão deixou de ser apenas ambiental. Tornou-se financeira, operacional e estratégica.