Por João Betenheuzer, CRO e Co-Counfder da Celero
Durante muito tempo, a inovação financeira foi tratada como algo que surgia primeiro nos Estados Unidos ou na Europa. Mas parte da infraestrutura financeira mais avançada do mundo hoje está sendo construída fora desses mercados. E o Brasil é um dos principais exemplos disso.
Os números ajudam a explicar essa mudança de percepção. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, produzida pela Deloitte, o setor bancário brasileiro ultrapassou a marca de 208 bilhões de transações no último ano, impulsionado principalmente pela consolidação do mobile banking e pela expansão do Pix dentro da rotina financeira das pessoas e das empresas.
O estudo também mostra que o Pix foi o meio de pagamento com maior crescimento nas operações via POS, avançando 69% e superando modelos mais tradicionais.
Esse avanço vai além da digitalização dos pagamentos. O Brasil passou a construir um ambiente em que pagamentos, dados e serviços financeiros circulam de maneira integrada, criando uma infraestrutura operacional difícil de encontrar até em mercados considerados mais maduros.
Parte disso acontece porque o país avançou rapidamente em interoperabilidade financeira. Pix, Open Finance e integração via APIs evoluíram quase simultaneamente, criando um sistema onde informações financeiras começaram a circular em escala real, e não apenas em projetos-piloto.
Esse movimento já aparece também nos dados do Open Finance. Segundo levantamento da Sensedia em parceria com a Let’s Money, o Brasil alcançou 128 milhões de consentimentos ativos no sistema e registra cerca de 4,4 bilhões de comunicações semanais entre instituições financeiras e aplicações.
Isso coloca o país entre os mercados mais avançados do mundo em compartilhamento financeiro operacionalizado em larga escala.
Existe um fator estrutural importante nessa transformação. Enquanto mercados mais antigos ainda convivem com camadas complexas de sistemas legados, o Brasil conseguiu acelerar a modernização financeira de forma relativamente coordenada.
O Pix talvez seja o exemplo mais visível dessa mudança. Desde o seu lançamento, em poucos anos já deixou de ser apenas uma ferramenta de transferência instantânea para se tornar um importante pilar tecnológico do sistema financeiro brasileiro.
A velocidade da adoção alterou comportamento do consumidor, jornadas de pagamento e até dinâmicas operacionais de empresas.
Ao mesmo tempo, o Open Finance começou a reduzir uma das maiores limitações históricas do mercado financeiro: a dificuldade de interpretar o comportamento financeiro real de pessoas físicas e jurídicas em tempo quase instantâneo.
Isso ganha ainda mais relevância quando olhamos para pequenas e médias empresas. Grande parte das PMEs brasileiras ainda opera com baixa organização financeira e pouca padronização de dados, o que historicamente dificultou análises mais precisas por parte das instituições financeiras.
Na prática, muitas vezes o problema nunca foi apenas risco alto, mas baixa visibilidade sobre a operação dessas empresas.
Com a evolução da infraestrutura financeira brasileira, pagamentos, fluxo transacional e comportamento financeiro começaram a se aproximar. A distância entre o que acontece na operação real de uma empresa e o que o sistema financeiro consegue enxergar sobre ela começa a diminuir.
E talvez essa seja a principal transformação em curso. O debate deixa de ser apenas sobre digitalizar serviços financeiros e passa a ser sobre transformar dados operacionais em inteligência contínua, contextualizada e acionável.
No fim, a discussão talvez deixe de ser sobre quais países possuem os sistemas financeiros mais tradicionais e passe a ser sobre quais mercados conseguiram reorganizar sua infraestrutura financeira com mais velocidade, interoperabilidade e capacidade de gerar inteligência em tempo real. E, nesse cenário, o Brasil passou a ocupar uma posição difícil de ignorar.