Os shopping centers brasileiros vivem um momento de transformação. Depois de consolidarem sua recuperação no pós-pandemia e ampliarem o foco em lazer, gastronomia e serviços, o próximo grande desafio do setor é incorporar a Inteligência Artificial à experiência do consumidor e à gestão dos empreendimentos.
A IA já deixou de ser uma tendência para se tornar uma ferramenta estratégica capaz de aumentar vendas, reduzir custos, prever comportamentos de consumo e tornar as operações mais eficientes. Em contrapartida, os empreendimentos que retardarem essa adaptação podem perder competitividade diante de consumidores cada vez mais digitais e exigentes.
O superintendente do Londrina Norte Shopping, Glaydson Trovão, afirma que a inteligência artificial tende a se tornar uma das principais ferramentas de gestão dos shopping centers.
“A IA consegue analisar milhões de dados sobre fluxo de visitantes, horários de maior movimento, perfil de consumo, campanhas promocionais e comportamento dos clientes para apoiar decisões muito mais assertivas. Ela permite, por exemplo, prever demanda, otimizar equipes, personalizar campanhas de marketing, recomendar ações específicas para diferentes públicos e até melhorar a ocupação dos espaços comerciais. O shopping e as lojas deixam de tomar decisões baseadas apenas na experiência e passa a atuar orientado por dados”, explica.
Os números mostram a relevância do setor. Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), o Brasil conta atualmente com 658 shopping centers, que recebem cerca de 471 milhões de visitantes por mês, reúnem 124,8 mil lojas, geram mais de 1,08 milhão de empregos diretos e movimentaram R$ 200,9 bilhões em faturamento em 2025 — o maior resultado da história do segmento.
“Esses indicadores reforçam o potencial de ganhos quando tecnologias inteligentes passam a apoiar decisões comerciais, operacionais e de relacionamento com o consumidor”, comenta Glaydson.
A aplicação prática já aparece entre as principais tendências mundiais do varejo. Estudos apresentados na NRF Retail’s Big Show, maior evento global do setor, apontam que a inteligência artificial será protagonista na personalização da jornada de compra, na gestão inteligente de estoques, no atendimento por assistentes virtuais, na análise preditiva do comportamento dos consumidores e na integração entre canais físicos e digitais.
A própria Abrasce promoveu, em 2025, um evento dedicado exclusivamente ao impacto da IA generativa e da análise de dados no futuro dos shopping centers, demonstrando que o tema passou a integrar a agenda estratégica do setor brasileiro.
Mas a transformação tecnológica também traz riscos para quem permanecer à margem desse movimento.
“A concorrência no varejo já não acontece apenas entre lojas vizinhas, mas, também, com marketplaces, plataformas digitais e empresas capazes de oferecer experiências altamente personalizadas. O consumidor espera conveniência, rapidez e ofertas relevantes. Se o setor não utilizar inteligência artificial para compreender esse comportamento e criar experiências cada vez mais personalizadas, outros canais farão isso. Hoje, competir significa conhecer profundamente o cliente e transformar dados em relacionamento”, afirma.
Esse movimento já é percebido pelo próprio setor. Durante o Congresso Internacional da Abrasce de 2026, executivos defenderam que os shopping centers precisam evoluir de centros de compras para verdadeiros hubs de experiências, utilizando inteligência artificial, análise de dados e personalização para fortalecer a conexão com os consumidores e ampliar o tempo de permanência nos empreendimentos.
“A inteligência artificial não substituirá o atendimento humano, um dos principais diferenciais dos shoppings, mas permitirá que gestores e lojistas tomem decisões mais inteligentes, antecipem tendências e ofereçam experiências cada vez mais relevantes. Em um mercado que movimenta mais de R$ 200 bilhões por ano, a inovação tende a deixar de ser diferencial para se tornar condição de sobrevivência.”