A inovação empresarial na Região Sul vem passando por uma transformação que combina a força histórica da indústria com uma presença cada vez maior de tecnologia, software, dados e soluções aplicadas. É o que mostra o estudo “Raio-X Inovação: Sul”, desenvolvido pela Grownt a partir da análise de registros do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) entre 2015 e 2025.
O levantamento considera registros de origem nacional e prioriza empresas e institutos ligados a empresas, com tratamento das bases para excluir pessoas físicas, organizações sem fins lucrativos, universidades e outras instituições que não fazem parte do recorte empresarial.
A proposta é identificar não apenas o volume de propriedade intelectual, mas também as áreas de concentração, as vocações estaduais e os movimentos mais recentes da inovação protegida.
Os dados mostram que o Sul consolidou uma posição relevante no cenário nacional. A região responde por mais de um quinto da propriedade intelectual empresarial brasileira nas modalidades analisadas e alcança 35,6% dos registros nacionais de desenho industrial em 2025.
Ao mesmo tempo, a trajetória da última década revela uma mudança qualitativa: a inovação regional deixa de estar associada apenas a máquinas, veículos e manufatura e passa a incorporar com mais força eletrônica, automação, controle, software e inteligência aplicada.
Em 2025, a Região Sul chegou a 3.031 registros de propriedade intelectual e a 1.344 empresas com registros no INPI, sinalizando uma ampliação da base empresarial que transforma inovação em ativos protegidos. O Paraná aparece nesse cenário como um dos principais vetores dessa mudança, especialmente pela combinação entre indústria, design e economia digital
Para entender o que está por trás desses números, o Economia PR Drops conversou com Rodrigo Moro, Head de Gestão da Inovação e Research Analytics da Grownt, sobre a evolução da propriedade intelectual no Sul, o novo perfil da inovação paranaense, a participação de empresas de diferentes portes e as oportunidades ainda pouco exploradas pelas organizações. Confira:
O estudo mostra que a Região Sul se consolidou como o principal polo de propriedade intelectual empresarial fora de São Paulo. Quais fatores explicam esse protagonismo e o que mudou na última década para que isso acontecesse?
Rodrigo: Nossas análises embasadas nos registros do INPI mostram que o Sul deixou de ser apenas “relevante fora de São Paulo” e virou o bloco regional mais forte do país em inovação protegida. No acumulado 2015–2025, três dos cinco maiores polos empresariais de propriedade intelectual do Brasil estão na região, que responde por mais de um quinto da PI empresarial brasileira em todas as modalidades — patentes, desenhos industriais e programas de computador — e por 35,6% dos desenhos industriais registrados no país em 2025. Se levarmos em conta medidas proporcionais, como registros de patentes por milhão de habitantes, os três estados da região têm os melhores indicadores de proteção de propriedade intelectual per capita de todo o Brasil. Dois fatores explicam essa consolidação. O primeiro é estrutural: o Sul tem uma matriz industrial densa e diversificada — metalmecânica, móveis, eletrodomésticos, agroindústria, tecnologia — e essas cadeias sempre geraram inovação. O que mudou na última década foi a formalização: as empresas passaram a transformar essa inovação em ativo protegido. O segundo fator é a consistência. Entre 2015 e 2023, o agregado da região cresceu 87%, contra 64,7% do Brasil, e não foram picos isolados — foi uma trajetória contínua, menos volátil que a nacional, com destaque para programas de computador, que avançaram 290,9% e quase quadruplicaram em dez anos. O resultado é 2025 como ano recorde: 3.031 registros e 1.344 empresas registrando ativos, mais que o dobro da média histórica.
Entre os três estados do Sul, o Paraná aparece como o principal vetor de crescimento recente, liderando a expansão em propriedade intelectual total, desenhos industriais e programas de computador. O que explica esse avanço e quais setores puxam esse movimento?
Rodrigo: Os números são bastante claros: entre 2015 e 2025, o Paraná cresceu cerca de 89% em registros totais de PI — o maior avanço entre os três estados do Sul, à frente de Santa Catarina (68%) e Rio Grande do Sul (62%). E esse crescimento é puxado justamente pelas frentes mais dinâmicas: os registros de programas de computador do estado mais que quadruplicaram na década, saltando de 66 para 272 por ano, um avanço superior a 300%, enquanto as patentes cresceram 86%. O que explica isso é a combinação de três motores setoriais. Primeiro, a indústria de bens de consumo com design intensivo — o Paraná é um grande polo moveleiro, de eletrodomésticos e alguns outros bens de consumo, com empresas como Caemmun, Casa Brazil, Britânia, Zen Toys, Gaam, Atlas e Electrolux entre as maiores depositantes da década. Segundo, um ecossistema digital em plena expansão, com Positivo Tecnologia, SPRO e uma rede de instituições de ciência e tecnologia — PUCPR, Parque Tecnológico Itaipu, Biopark — que aparecem entre os principais titulares de software em 2025. E terceiro, uma frente de tecnologia industrial avançada: em 2025, a Lightera Latam, que unifica as operações da Furukawa Electric na América Latina, assume a liderança isolada do estado com 46 patentes, mais de três vezes o volume da segunda colocada. É um sinal de que o Paraná está entrando em uma nova fase, mais tecnológica e intensiva em P&D.
O levantamento aponta que o Paraná se tornou o estado mais digital da região, com destaque para software e desenho industrial. Esse perfil representa uma mudança na matriz de inovação do estado ou é uma evolução de vocações que já existiam?
Rodrigo: É mais evolução do que ruptura — e essa é talvez a leitura mais interessante do estudo. O retrato de registro de propriedade intelectual mostra que o Paraná não abandonou suas vocações históricas; ele as sofisticou e adicionou uma camada digital por cima. Veja o desenho industrial: a liderança do estado em móveis, decoração e eletrodomésticos vem de tempos atrás, e ela continua forte — o interior do Paraná é hoje talvez o maior polo de móveis e decoração do Sul, com nomes como DJ Móveis, Casa Brazil, Gaam e Caemmun. O que há de novo é a escala do software: o estado lidera o acumulado da década na região, com mais de 1.500 registros de programas de computador, à frente de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e em 2025 mantém a ponta. E esse software não é desconectado da economia real — ele aparece aplicado a gestão, saúde, indústria, dados e eficiência operacional, muitas vezes nascendo dentro das próprias cadeias industriais e do ecossistema de instituições de pesquisa do estado. Ou seja: a matriz não mudou de lugar, ela ganhou densidade tecnológica. O mesmo movimento que o estudo identifica nas patentes do Sul como um todo — a ascensão da inovação “ciberfísica”, que combina máquina, sensor, controle e produto — encontra no Paraná um dos seus melhores exemplos: a indústria tradicional e a economia digital deixaram de ser mundos separados.
Os dados mostram que o Paraná reúne uma base cada vez maior de empresas inovadoras e lidera o acumulado da década em número de empresas com registros de propriedade intelectual. Esse crescimento está concentrado nas grandes indústrias ou já alcança startups, empresas de tecnologia e negócios de médio porte?
Rodrigo: Já alcança — e esse é um dos dados mais reveladores da pesquisa. No acumulado da década, o Paraná lidera o Sul em número de empresas distintas com registros de PI, com cerca de 2,5 mil CNPJs diferentes. E quando olhamos a distribuição, fica evidente que não se trata de meia dúzia de campeões: cerca de 60% dessas empresas registraram um único ativo no período, e apenas uma minoria concentra grandes volumes. É uma base pulverizada, formada em grande parte por pequenas e médias empresas que estão protegendo inovação pela primeira vez. Isso se reflete também no ritmo recente: em 2025, cerca de 400 empresas paranaenses registraram ativos no INPI — praticamente empatadas com Rio Grande do Sul e Santa Catarina — contra uma média histórica regional bem menor. No Sul como um todo, o número de empresas com registros em 2025 ficou 124% acima da média da década. E o perfil dessas empresas é diverso: ao lado das grandes indústrias, como o grupo Boticário, aparecem softwarehouses como a SPRO, empresas de base tecnológica ligadas a parques e instituições como o PTI e o Biopark, negócios de saúde como a JJGC (materiais dentários), uma constelação de fabricantes de móveis de médio porte do interior do estado e por fim microempresas, voltadas em torno da inovação registrada em si. A conclusão do estudo é justamente essa: a inovação protegida deixou de ser prática restrita a poucos campeões e virou estratégia de uma base empresarial cada vez mais ampla.
O estudo também aponta que o Paraná ainda tem centenas de empresas com potencial para utilizar a Lei do Bem, mas que ainda não acessam esse incentivo. Na prática, por que essa oportunidade continua sendo pouco aproveitada e quais são os principais obstáculos?
Rodrigo: Primeiro, é importante reconhecer que houve avanço real. O histórico de beneficiárias mostra que o Paraná saltou de 83 empresas na Lei do Bem no ano-base 2015 para 388 em 2024 — mais que quadruplicou em dez anos, com forte aceleração a partir de 2019. No acumulado desde 2006, 681 empresas paranaenses já utilizaram o incentivo ao menos uma vez. Mesmo assim, dois sinais mostram que o potencial segue subaproveitado. O primeiro é um contraste revelador: o Paraná lidera o Sul em número de empresas com registros de propriedade intelectual na década, mas é o estado com menos beneficiárias da Lei do Bem em 2024 — 388, contra 530 do Rio Grande do Sul e 427 de Santa Catarina. Ou seja, é onde a distância entre inovar e capturar o incentivo é maior. O segundo é a intermitência: das 681 empresas que já usaram a lei, quase 30% aparecem em um único ano-base e menos de um terço mantém uso recorrente por cinco anos ou mais. Muitas entram, enfrentam a burocracia e desistem. Some-se a isso o dado regional do estudo: 917 empresas do Sul em Lucro Real já registraram ativos de PI no INPI, mas não foram identificadas entre as beneficiárias — 34,2% do conjunto analisado. Convertida, essa base ampliaria em mais de 50% o número de empresas do Sul na Lei do Bem. Por que isso acontece? Três obstáculos se repetem. O primeiro é desconhecimento: muitas empresas não sabem que suas atividades se qualificam como P&D — acham que a Lei do Bem é “coisa de laboratório”, quando desenvolvimento de produto, melhoria de processo e software se enquadram. E o próprio perfil das beneficiárias paranaenses desmente esse mito: tecnologia da informação já é um dos maiores grupos, com mais de 80 empresas no histórico, ao lado de químico, alimentos, máquinas e automotivo. O segundo é insegurança sobre documentação e comprovação: há receio de glosa e falta estrutura interna para organizar projetos, horas e dispêndios no formato exigido — é isso que explica tanta empresa usar o incentivo uma vez e não voltar. O terceiro é de gestão: em muitas empresas médias, a inovação acontece na engenharia e na fábrica, mas ninguém a conecta ao departamento fiscal. A mensagem central do estudo é que essa não é apenas uma oportunidade fiscal — é uma oportunidade de maturidade. A empresa que registra PI já fez o mais difícil, que é inovar; falta transformar isso em vantagem competitiva e financeira, de forma consistente, ano após ano.
Olhando para os próximos anos, quais áreas devem liderar a próxima onda de inovação no Paraná? O estudo indica uma migração para eletrônica, automação, inteligência artificial aplicada e software voltado à produtividade. Esse deve ser o novo diferencial competitivo do estado?
Rodrigo: Os registros de 2025 já dão pistas concretas de para onde o estado caminha. Depois de uma década em que as patentes do Sul foram dominadas por veículos, máquinas e agro, o ano recente mostra a ascensão de elétrica, eletrônica, sensores, controle e monitoramento — o que a pesquisa chama de assinatura “ciberfísica”: máquina, sensor, controle e produto combinados. No Paraná, o símbolo dessa virada é a liderança da Lightera em 2025, concentrada em patentes de tecnologia de conectividade e infraestrutura digital — um perfil muito diferente do que dominava o ranking estadual dez anos atrás. O software segue o mesmo caminho: os registros paranaenses estão cada vez mais voltados a aplicações de produtividade — gestão, dados, monitoramento, saúde, indústria e setor público — e menos a sistemas genéricos. Somam-se a isso o ecossistema de instituições de pesquisa e parques tecnológicos do estado, que já aparece com força nos rankings de titulares de software, e a base de manufatura instalada, que é o “chão de fábrica” onde essas tecnologias serão aplicadas. Então sim, acredito que o diferencial competitivo do Paraná na próxima década será exatamente essa convergência: um estado que tem, ao mesmo tempo, indústria de escala, o maior polo de propriedade intelectual em software do Sul e design de produto consolidado. Poucos lugares no Brasil reúnem os três ingredientes. Quem souber combiná-los — eletrônica embarcada no produto, inteligência artificial aplicada ao processo, software conectando tudo — vai liderar a próxima onda. E os dados sugerem que o Paraná já começou.