Uma comitiva da Universidade de Trier, na Alemanha, visitou o UniSenai PR, em Curitiba, nos dias 9 e 10 de setembro. A agenda teve como foco o diálogo entre experiências brasileiras e alemãs sobre o ensino superior dual, modelo que aproxima a formação acadêmica da prática profissional no setor produtivo.
Ao longo dos dois dias, os representantes alemães conheceram a estrutura do Campus da Indústria, acompanharam iniciativas do UniSenai PR e visitaram a Bosch. A programação incluiu discussões sobre como universidades e empresas podem atuar de forma complementar na preparação de profissionais para um mercado ligado à tecnologia e à inovação.
Para Alessandra Campos, pró-reitora do UniSenai PR, a visita representa uma continuidade de um trabalho iniciado anteriormente e uma oportunidade de apresentar aos parceiros alemães como o modelo vem sendo construído no país.
“Assim como foi importante para nós conhecer a realidade alemã, é fundamental que eles também conheçam a realidade brasileira.”
Segundo ela, apresentar a experiência desenvolvida com a Lar Cooperativa e o posicionamento do UniSenai PR junto à indústria permitiu ampliar a troca de conhecimentos e reunir novos insights para o projeto.
Modelos diferentes, objetivo em comum
Embora tenham estruturas e trajetórias distintas, os modelos brasileiro e alemão partem de uma mesma premissa: tornar a formação mais conectada às necessidades do mundo do trabalho.
Na Alemanha, o estudante que segue a trajetória dual passa inicialmente por uma formação técnica que combina escola profissionalizante e empresa. Quando chega à universidade, já carrega experiência prática anterior.
No modelo do UniSenai PR, essa aproximação acontece ao levar problemas e demandas reais da indústria para o ambiente acadêmico, por meio de iniciativas como as Jornadas de Aprendizagem e o Programa de Mentoria.
O professor doutor Karl Hofmann, da Universidade de Trier, destacou essa convergência entre os dois modelos.
“Existem alguns paralelos e algumas diferenças, mas, com certeza, há muitas coisas que podemos aprender uns com os outros.”
Na avaliação do professor, o principal diferencial da metodologia está em relacionar diretamente as aplicações desenvolvidas durante a formação aos desafios da indústria. Na Engenharia Mecânica, por exemplo, demandas reais podem ser incorporadas ao percurso acadêmico.
Essa lógica também foi percebida por Christian Lamberti, responsável pela Formação Profissional em Engenharia Mecânica na Tesla Automation. Embora tenha seguido uma trajetória universitária tradicional, ele considera que ter vivenciado o modelo dual teria sido uma vantagem em sua formação.
“É uma metodologia que considero muito benéfica para todos os envolvidos, porque aproxima o aprendizado da prática e prepara melhor as pessoas para os desafios reais do trabalho.”
Infraestrutura e indústria como espaços de aprendizagem
Durante a passagem pelo Campus da Indústria, a comitiva conheceu diferentes ambientes que integram o Parque Tecnológico da Indústria, entre eles espaços do UniSenai PR, o Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica, o Habitat Corporações e a Aceleradora Habitat Senai. A visita permitiu observar como educação, pesquisa, inovação e indústria se conectam dentro do ecossistema.
A estrutura chamou a atenção de Hofmann, que destacou os laboratórios e equipamentos disponíveis no campus e afirmou que gostaria de contar com infraestrutura semelhante para seus estudantes na Alemanha.
Lamberti também identificou oportunidades para as empresas. Além dos equipamentos, chamou sua atenção a combinação entre pesquisadores, projetos e soluções disponíveis no ecossistema, o que, na perspectiva empresarial, amplia as possibilidades de conexão e desenvolvimento.
A percepção dos visitantes encontra eco na experiência brasileira. Para Vicente Gongora, das Coordenações Acadêmicas do UniSenai PR, laboratórios de excelência e equipamentos de ponta permitem transformar desafios concretos da indústria em experiências de aprendizagem.
“O sistema dual aproxima a realidade da vida profissional do estudante da formação acadêmica.”
Para ele, quando um problema real chega à instituição e é trabalhado pelos alunos em ambientes preparados para a prática, o conteúdo teórico passa a fazer mais sentido.
A aproximação também é vista pelas empresas como parte da preparação dos profissionais que chegarão ao mercado. Jairo Muller Wolf, responsável pela área de Engenharia de Teste da Bosch, destacou que a parceria com o UniSenai PR permite trabalhar sobre problemas concretos e fortalecer um processo contínuo de desenvolvimento.
“O mercado está aqui, dentro da própria indústria.”
Para ele, a conexão com instituições internacionais, como a Universidade de Trier, amplia o ecossistema de conhecimento e cria novas possibilidades de intercâmbio de experiências.
Quando a experiência da indústria chega à sala de aula
A integração entre formação e prática pode ser observada na trajetória de estudantes e profissionais que passaram pelo Senai e hoje atuam na indústria.
Quezia Caroline Rodrigues, técnica responsável pelos produtos de teste da Bosch e estudante de Engenharia Mecânica do UniSenai PR, passou pela Mecatrônica e pela Tecnologia da Fabricação Mecânica antes de chegar à graduação. Para ela, levar casos reais para a sala de aula faz diferença na preparação profissional.
“Essa experiência aproxima o conhecimento acadêmico dos desafios que encontramos no mercado de trabalho.”
Alyrio Alberto Bailo, engenheiro automotivo de testes da Bosch e ex-aluno do Senai, também conhece essa integração por diferentes perspectivas. Aos 15 anos, iniciou sua trajetória como aprendiz, participou da Olimpíada do Conhecimento e, posteriormente, ingressou na Bosch. Hoje, atua como mentor de estudantes.
Como mentor, leva desafios reais aos alunos e acompanha seu desenvolvimento. Um dos projetos nasceu de um problema encontrado no ambiente industrial: uma dificuldade no sincronismo de um motor.
O desafio foi transformado em trabalho de conclusão de curso e resultou em uma solução implementada e em funcionamento. O projeto conquistou o segundo lugar na primeira edição da Jornada de Aprendizagem.
Para Ilka Midori Furtado, líder de Cultura e Business Partner da Bosch, essa troca não acontece em uma única direção.
“Temos muito a aprender com o que está acontecendo fora e também com o que estamos desenvolvendo internamente.”
A visita, segundo ela, permitiu tanto conhecer outras experiências quanto apresentar como a Bosch constrói suas parcerias com universidades e escolas técnicas.
Aprendizados que apontam para o futuro
Mais do que uma comparação entre dois sistemas, a visita abriu espaço para identificar práticas que podem ser compartilhadas e adaptadas. Para Hofmann, os desafios enfrentados pela indústria têm pontos de contato em diferentes países, o que cria espaço para projetos conjuntos.
“Não vejo por que não podemos trabalhar juntos para encontrar soluções.”
A perspectiva de continuidade também foi reforçada por Vicente Gongora, para quem a experiência já desenvolvida com a Lar apresenta resultados positivos e pode servir como referência para ampliar a aplicação do modelo no PR.
Alessandra Campos avalia que a visita contribuiu para esse processo de amadurecimento. Além de apresentar o que já está sendo desenvolvido no Estado, a agenda permitiu que equipes técnicas brasileiras observassem outras possibilidades para aperfeiçoar a iniciativa.
Para Lamberti, a expectativa é acompanhar como o ensino superior dual vai evoluir no Brasil.
“Estou muito curioso e quero acompanhar como esse modelo vai se desenvolver no Brasil.”