Por Guilherme Augusto Pianezzer, professor de Matemática Financeira, doutor em Métodos Numéricos
A chegada do GPT-6 Astra, apresentado pela OpenAI em setembro de 2026, talvez seja lembrada no futuro menos como o lançamento de mais uma versão do ChatGPT e mais como um ponto de inflexão na relação entre seres humanos e máquinas.
Modelos de inteligência artificial estão deixando de ser apenas ferramentas usadas para responder perguntas, escrever textos ou gerar imagens. Cada vez mais, tornam-se capazes de executar sequências inteiras de trabalho: pesquisar, analisar dados, programar, produzir documentos, operar softwares e participar de tarefas profissionais complexas. Isso cria uma possibilidade econômica inquietante.
A divisão pode não ser sobre emprego, mas sobre uso da IA
Talvez a grande divisão provocada pela inteligência artificial não aconteça entre trabalhadores que serão substituídos e trabalhadores que continuarão empregados. Talvez ela ocorra entre pessoas que trabalham com inteligência artificial e pessoas que trabalham sem ela.
A princípio, essa diferença parece pequena. Um profissional utiliza IA para escrever um relatório, outro prefere escrevê-lo sozinho. Um professor usa IA para preparar materiais, outro mantém seu método tradicional. Uma pequena empresa automatiza propostas, análises, atendimento e rotinas administrativas, outra continua executando essas mesmas atividades manualmente.
Imagine dois profissionais igualmente competentes trabalhando oito horas por dia. Um deles utiliza agentes de inteligência artificial para pesquisar, organizar informações, revisar documentos, analisar dados e executar tarefas repetitivas. O outro realiza sozinho cada uma dessas etapas.
Mesmo que a vantagem inicial seja de apenas algumas dezenas de pontos percentuais, ela se acumula. O primeiro consegue assumir mais projetos, testar mais ideias, atender mais clientes e aprender mais rapidamente.
A produtividade acumulada transforma-se em renda, a renda em investimento, e o investimento permite adquirir tecnologias melhores. Tecnologias melhores, por sua vez, produzem ainda mais produtividade.
O que mostram os dados de produtividade e salário
O AI Jobs Barometer 2026, da PwC, encontrou uma diferença crescente entre empresas mais e menos capazes de aproveitar a inteligência artificial. Nas empresas dos setores mais expostos à IA, a produtividade do trabalho cresceu 34% em 2025 em relação à base de 2018, contra 24% nas menos expostas.
São correlações, e não uma prova de que a IA sozinha produziu todo esse resultado, mas a distância entre os grupos está aumentando. A diferença aparece também nos salários. Segundo o mesmo levantamento, vagas que exigem habilidades específicas de IA apresentam, em média, prêmio salarial de 62%.
Isso leva à reflexão sobre o que acontece com o valor econômico de um profissional quando outra pessoa, fazendo o mesmo trabalho, sabe utilizar IA muito melhor.
O que dizem as projeções da OIT
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que aproximadamente um em cada quatro trabalhadores no mundo esteja em ocupações com algum nível de exposição à inteligência artificial generativa. A própria OIT ressalta que, na maioria dos casos, a transformação das atividades é mais provável do que a simples eliminação dos empregos.
O cenário mais provável não é, necessariamente, uma multidão de pessoas desempregadas observando máquinas trabalharem. Pode ser algo mais sutil: pessoas continuarão trabalhando, mas algumas estarão acompanhadas por sistemas capazes de multiplicar sua capacidade intelectual, enquanto outras continuarão produzindo praticamente da mesma forma que produziam antes.
Dois regimes de produtividade, não dois mundos separados
É possível, portanto, assistir ao surgimento não exatamente de dois mundos independentes, porque as economias continuarão conectadas, mas de dois regimes de produtividade profundamente diferentes.
De um lado, empresas, profissionais e países que incorporam inteligência artificial à infraestrutura cotidiana de produção. Do outro, aqueles que, por falta de acesso, formação ou mesmo por rejeição deliberada, continuam operando com estruturas anteriores.
A vantagem competitiva provavelmente não pertencerá à pessoa que entrega seu raciocínio à máquina. Pertencerá àquela capaz de pensar melhor porque possui uma máquina trabalhando ao seu lado.
Rejeitar inteligência artificial deixa de ser apenas uma preferência tecnológica. Transforma-se em uma decisão econômica, e, potencialmente, em uma escolha que pode ampliar desigualdades.
A grande desigualdade produzida pela inteligência artificial pode não separar simplesmente os que possuem a tecnologia dos que não possuem. Pode separar aqueles que aprenderam a multiplicar sua inteligência por meio dela daqueles que decidiram, ou foram obrigados, a continuar trabalhando sozinhos.
Se isso acontecer, não teremos criado apenas uma nova ferramenta. Teremos criado duas velocidades para a economia. E quanto mais tempo elas funcionarem em velocidades diferentes, maior será a distância entre os dois mundos.