Economia PR - Lourival Sant’Anna alerta empresas para ficarem fora da disputa ideológica

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Lourival Sant’Anna alerta empresas para ficarem fora da disputa ideológica

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Foto: JFilms

A polarização ideológica pode comprometer a capacidade de países e empresas de tomar decisões racionais, na avaliação do jornalista e analista internacional Lourival Sant’Anna.

Para ele, o Brasil deve evitar alinhamentos automáticos entre Estados Unidos, China e Europa, enquanto os empresários precisam impedir que disputas políticas contaminem a gestão dos negócios. Sant’Anna esteve em Curitiba na última terça-feira (15) para participar do Catálise Connection, promovido pela Catálise Estruturação e Gestão de Fundos, que reuniu mais de 300 pessoas no Museu Oscar Niemeyer.

“Uma coisa é você ter divergências sobre os meios para chegar a um fim. Outra coisa é você ter divergências sobre os fins, sobre o convívio, você ter impulso para excluir a outra parcela que pensa diferente”, afirmou Sant’Anna.

Segundo ele, as redes sociais aprofundam essa divisão pela lógica dos algoritmos e do engajamento.

“O medo e a raiva são as grandes emoções engajadoras.”

Para o analista, essa dinâmica ganha relevância num momento em que as relações internacionais também estão sendo marcadas pela disputa de interesses econômicos e políticos.

Sant’Anna chama de coerção econômica o uso de instrumentos como tarifas, sanções financeiras, dominância e acesso ao dólar e restrições comerciais para evitar guerras, impor interesses e moldar comportamentos. Estados Unidos e Donald Trump são, em sua avaliação, os que mais recorrem a esse mecanismo.

Ele também citou restrições da União Europeia a produtos agrícolas brasileiros e suspensões chinesas de licenças por razões sanitárias como exemplos de decisões econômicas que podem carregar componentes políticos.

Mais autonomia

Para o Brasil, a resposta passa por preservar margem de manobra.

“É preciso uma política externa equidistante entre Estados Unidos, China e Europa, sem nenhum alinhamento, por nenhuma dessas potências, e visando estritamente o interesse nacional e não em alinhamentos ideológicos.”

A disputa entre Estados Unidos e China abre oportunidades para o país, especialmente em áreas estratégicas como minerais críticos, mas também cria o risco de substituir uma dependência externa por outra.

“A China é muito importante como parceiro de negócios e investidor no Brasil, mas não podemos colocar todas as fichas lá.”

Essa posição exige condições internas para ser sustentada. Sant’Anna citou a reforma tributária, a produtividade, a infraestrutura, o custo de capital e a qualidade do gasto público entre os pontos que precisam ser enfrentados.

“Tudo está vinculado ao problema do gasto público. O poder público gasta muito mal.”

Para as empresas, a preocupação é evitar que a disputa política altere a qualidade das decisões. O empresário, segundo ele, deve observar as fontes de informação e não se deixar levar por notícias falsas, preconceitos ou impulsividade.

“Os empresários e as empresárias precisam agir com prudência, com racionalidade, com base em informação de alta qualidade”, reforça.

A orientação tem um desdobramento direto sobre a gestão: “Isso que está faltando um pouco e não permitir que as suas empresas sejam arrastadas para campanhas e disputas que não dizem respeito às empresas.”

Sant’Anna não defende, com isso, que o setor privado se afaste do debate público. Ao contrário, considera que os empresários devem participar da discussão sobre o uso dos recursos do país e pressionar por mudanças, mas com clareza sobre a realidade e os objetivos.

“É o empresário que tem a responsabilidade de assumir essa iniciativa, de pressionar, mas para isso, em primeiro lugar, é preciso ter clareza da realidade e dos objetivos” reforça.

Catalise Connection

Sant’Anna é mestre em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e analista internacional da CNN Brasil. Jornalista, consultor e palestrante, fez reportagens e análises em 87 países e 15 coberturas de guerras. É autor de quatro livros e desenvolve palestras sobre cenários nacional e internacional, medo, meio ambiente e comunicação.

Esta foi a segunda edição do Catálise Connection, promovido pela Catálise Estruturação e Gestão de Fundos. Segundo Bruno Lage, sócio-fundador da empresa e responsável pela conversa com Sant’Anna, o encontro busca aproximar clientes e parceiros e ampliar a troca de experiências entre empresários e especialistas.

O evento também contou com palestra do economista, cientista político e diplomata Marcos Troyjo.

“Esse encontro com grandes nomes da política e da economia e a possibilidade de benchmarking fortalecem nosso ecossistema”, afirmou Lage.

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