Mais de 700 mil pessoas passaram pelo Rock in Rio 2026 ao longo de sete dias, segundo o balanço divulgado pela organização. A edição reuniu 190 apresentações e mais de 1,3 mil artistas, com visitantes de 89 países. Quase metade do público, 49%, veio de fora do estado do Rio de Janeiro.
Em um evento dessa escala, medir a reação do público exige mais do que observar a plateia.
Foi nesse contexto que uma solução tecnológica transformou canto, movimento e comportamento em dados durante os shows do Palco Mundo.
A iniciativa da Heineken com o Spotify, criada pela agência LePub, atualizou em tempo real a playlist das músicas mais cantadas pelo público.
Entre as empresas envolvidas no desenvolvimento e na operação da tecnologia está a Plugh, sediada em Londrina. A empresa atua no desenvolvimento de soluções para projetos especiais, desde a identificação do problema e o desenho técnico até os testes e a operação em situações reais.
No Rock in Rio, a estrutura combinou decibelímetros, medidores de vibração e câmeras com inteligência artificial. Os dados eram cruzados com o setlist dos shows para identificar a reação coletiva da plateia. Ao longo das sete noites, 81 faixas foram medidas, segundo a Plugh.
Os dados também permitiram observar comportamentos durante as apresentações. Em “One Kiss”, de Calvin Harris, mais da metade da plateia estava pulando. Em “Let’s Get It Started”, do Black Eyed Peas, as câmeras apontaram que 60% do público estava dançando. Já em “Tiny Dancer”, de Elton John, 62% do público apareceu se abraçando.
A experiência no Rock in Rio integra uma trajetória que já soma nove premiações em Cannes para a Plugh, incluindo o Grand Prix de 2026 pelo projeto “Could Have Been a Heineken”.
Para Léo Brisolla, sócio e diretor de Projetos Especiais da empresa, o diferencial está menos na complexidade da tecnologia e mais na capacidade de fazê-la funcionar sem interferir na experiência do público.
Confira a entrevista completa no Economia PR Drops a seguir:
Como nasce um projeto especial e quais são as etapas até virar uma solução que funcione?
Léo: Quase sempre nasce de alguém dizendo “isso provavelmente não dá”. Pode ser um cliente, uma agência ou alguém da nossa equipe no meio de um café. Daí seguimos quatro passos. Primeiro, entender qual é o problema de verdade, que nem sempre é o que está no briefing: muita gente pede uma solução quando o que precisa é de uma resposta. Depois, o desenho técnico, e aqui a gente é bem chato, porque cada equipamento tem que justificar por que existe. Em seguida, a prova: montar, testar, quebrar e remontar antes de qualquer coisa ir ao ar. E, por último, a operação. Esse último passo é o que muita gente esquece. Projeto especial não termina na entrega, termina de madrugada, no último dia, com alguém conferindo se o backup rodou.
Quais são os desafios de tirar uma solução do conceito e colocá-la em operação de grande escala?
Léo: O mundo real é mal-educado. Ele não respeita o seu cronograma, não respeita a sua rede e definitivamente não respeita a sua apresentação em PDF. Por isso trabalhamos muito mais com metodologia do que com improviso. Antes de operar, listamos o que pode dar errado, ordenamos por probabilidade e impacto e escrevemos a resposta de cada item antes de acontecer, com um responsável de nome e sobrenome. Some a isso a rotina: checklist antes de começar, decisão formal de vai ou não vai, e nada de mexer em equipamento com a operação rodando. Isso importa porque em evento ao vivo não existe replay. Você não trabalha para consertar, trabalha para não precisar consertar. No Rock in Rio, dois desafios se destacaram: rede, que era nosso risco número um e exigiu redundância e captura local em cada posto, e clima, que pediu proteção dos equipamentos e janelas seguras para qualquer intervenção técnica.
A Plugh soma nove premiações em Cannes, incluindo o Grand Prix de 2026 pelo “Could Have Been a Heineken”. O que isso representa?
Léo: Representa muito, e a gente comemorou bastante. Mas o que me marca não é o troféu. Ninguém ganha Cannes por ter feito algo complicado. Ganha por ter feito algo que foi ao ar e se comportou como prometido. Nove prêmios, na prática, são nove projetos que se sustentaram no mundo real. Tem também um reconhecimento de categoria que eu acho bonito. Normalmente o que é premiado é a ideia, e a tecnologia fica nos bastidores, tratada como encanamento. O “Could Have Been a Heineken” é um bom exemplo de por quê: a ideia é simples de contar, transformar aquele áudio de WhatsApp interminável em um convite para as pessoas se verem pessoalmente. Fazer isso funcionar de forma leve, dentro do app que a pessoa já usa, sem manual e sem atrito, é engenharia grande. E ninguém percebe isso enquanto usa.
No Rock in Rio 2026, qual era a necessidade da marca e como a tecnologia virou experiência?
Léo: A ideia da Heineken com o Spotify, criada pela LePub, era clara: em vez de alguém montar a playlist do festival, deixar o público montar. Quanto mais alto a plateia canta, mais alto a música sobe no ranking. Ótima ideia, e agora a gente tem que fazer funcionar. Ninguém tinha essa medição pronta, e foi aí que entramos. Instalamos estruturas perto do Palco Mundo com decibelímetros, medidores de vibração e câmeras com IA: o canto, o quanto o público faz o chão se mover e a reação coletiva. Tudo cruzado com o setlist por horário, 81 faixas medidas nas sete noites, alimentando a playlist em tempo real. E os dados não contam só quem ganhou, contam o que aconteceu ali. Em “One Kiss”, do Calvin Harris, mais da metade da plateia estava pulando. Em “Let’s Get It Started”, do Black Eyed Peas, nossas câmeras apontaram que 60% estavam dançando. E em “Tiny Dancer”, do Elton John, 62% do público apareceu se abraçando. Como resumiu o Igor de Castro, diretor de marketing da Heineken no Brasil: mais do que descobrir quais músicas fizeram a Cidade do Rock cantar mais alto, a ideia era celebrar os momentos de conexão entre artistas, fãs e amigos. A tecnologia não estava ali para provar que a marca tem tecnologia, e sim para dar nome e número a uma coisa que todo mundo sente num festival.
O que define uma boa solução: a tecnologia empregada ou a capacidade de resolver o problema de forma simples?
Léo: Se a tecnologia aparece mais que o resultado, geralmente é porque o resultado não veio. A régua que eu uso é simples: a solução é boa quando a pessoa do outro lado esquece que existe tecnologia ali. Se ela precisa entender como funciona para usar, alguma coisa foi resolvida no lugar errado. A armadilha comum é escolher o equipamento mais impressionante antes de fazer a pergunta certa. A opção mais óbvia costuma ser a mais intuitiva, mas não necessariamente a que responde o que o cliente quer saber. Complexidade é fácil. Qualquer um consegue deixar um projeto complicado. Difícil é chegar no simples sem perder o que importa.
Como a Plugh vê o futuro dos projetos especiais com a evolução da IA?
Léo: A gente vai parar de falar de IA como ingrediente que se anuncia no cardápio. Ela vai virar sal: está em tudo e ninguém comenta. Vejo três movimentos. O primeiro é a medição em tempo real virar padrão. Hoje a marca faz a ativação, espera uma semana e recebe um relatório. Isso vai ficar estranho rápido, porque a pergunta passa a ser o que muda ainda hoje, enquanto a coisa acontece. O segundo é sair da medição de audiência para a de reação. Saber que dez mil pessoas estavam lá é uma informação. Saber quais se envolveram, quando e de que forma é outra bem diferente. O terceiro, que ninguém coloca em slide bonito, é confiabilidade. Quanto mais a decisão depende do dado, menos espaço existe para “deu um probleminha no sensor”. Resumindo o meu chute: ganha quem tiver a resposta mais rápida e mais confiável, não quem tiver a sigla mais nova na apresentação.