Por André Bobek, consultor financeiro e CEO da Mhydas Planejamento Financeiro
O fim da jornada 6×1 pode impactar os preços ao consumidor final. A questão é entender como a mudança afetará os custos das empresas e quem absorverá essa diferença.
Se a redução da jornada vier com a manutenção dos salários, sem ganhos de produtividade ou medidas que compensem o aumento do custo por hora trabalhada, parte do impacto poderá ser repassada aos preços.
Antes de discutir as narrativas em torno da medida, é preciso avaliar seus efeitos econômicos concretos. Uma mudança dessa magnitude exige estudos de impacto e planejamento, para que os objetivos sociais não resultem em desequilíbrios na economia.
Pressão inflacionária e custos para as empresas
Entre os principais riscos está a pressão inflacionária. Se as empresas tiverem de manter o mesmo nível de operação com menos horas de trabalho, poderão enfrentar custos adicionais com contratações, horas extras ou reorganização das equipes.
Em setores com margens reduzidas e pouca capacidade de absorver esses aumentos, o repasse ao consumidor pode se tornar uma alternativa.
Emprego e automação
Outro ponto de atenção é o emprego. Empresas que não conseguirem adaptar sua estrutura de custos poderão reduzir contratações, rever operações ou, em casos mais extremos, encerrar atividades.
Também pode haver aceleração da automação e do uso de inteligência artificial para compensar a menor disponibilidade de mão de obra. Isso tende a transformar o mercado de trabalho.
Crescimento econômico e investimentos
Há ainda possíveis reflexos sobre o crescimento e os investimentos. Com custos maiores e mais incerteza, parte dos empresários pode priorizar a manutenção das operações em vez de investir na expansão dos negócios.
Se esse movimento se disseminar, poderá comprometer o ritmo de crescimento da economia.
Inflação, juros e crédito
A inflação também exige atenção. Se as pressões de custos se traduzirem em aumentos persistentes de preços, o Banco Central poderá ter menos espaço para reduzir os juros ou mais dificuldade para controlar a inflação.
Juros elevados encarecem o crédito, restringem o consumo e dificultam os investimentos. Com isso, ampliam os efeitos sobre a atividade econômica.
Risco de informalidade
Outro risco é o avanço da informalidade. Diante de dificuldades para adequar as operações às novas regras, algumas empresas podem recorrer a formas de contratação menos estruturadas.
Os trabalhadores, por sua vez, podem buscar atividades complementares para recompor a renda.
Transição com responsabilidade
A melhoria da qualidade de vida do trabalhador é um objetivo legítimo, segundo o autor. Mas ela precisa ser acompanhada de uma transição economicamente responsável.
A redução da jornada pode trazer benefícios, mas os resultados dependem de fatores como produtividade, características de cada setor e capacidade de adaptação das empresas.
Sem planejamento consistente e avaliação dos impactos, existe o risco de que parte dos custos recaia sobre os trabalhadores, os consumidores e a economia como um todo.