Economia PR - O custo invisível de tentar fazer tudo ao mesmo tempo

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O custo invisível de tentar fazer tudo ao mesmo tempo

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Foto: Drazen Zigic/magnific

A agenda está cheia, a equipe está ocupada, as reuniões se acumulam e novas demandas surgem antes mesmo que as anteriores sejam concluídas. No fim do dia, existe a sensação de muito trabalho realizado, mas nem sempre a percepção de avanço naquilo que realmente importa para o negócio.

Essa contradição faz parte da rotina de muitas empresas. Em um ambiente marcado por mudanças rápidas, pressão por resultados e novas oportunidades, fazer mais parece uma resposta natural. O problema começa quando a quantidade de iniciativas passa a ocupar o lugar da definição de prioridades.

Um levantamento da McKinsey publicado em fevereiro de 2026, com mais de 10 mil executivos seniores de 15 países e 16 setores, aponta a produtividade sustentável como uma das principais preocupações das organizações. No estudo, dois terços dos executivos consideram suas empresas excessivamente complexas e ineficientes.

O dado não representa diretamente a realidade das pequenas e médias empresas brasileiras. Ainda assim, ajuda a evidenciar uma questão relevante para negócios de diferentes portes: aumentar a atividade não significa, necessariamente, melhorar a capacidade de execução.

Quando a atividade se confunde com progresso

Em muitas empresas, a falta de avanço não decorre necessariamente da ausência de ideias ou de disposição para trabalhar. O problema pode estar na quantidade de frentes abertas ao mesmo tempo.

Uma campanha é iniciada antes que a anterior tenha seus resultados avaliados. Um novo canal de comunicação entra na rotina sem que exista clareza sobre sua contribuição. Uma oportunidade comercial recebe atenção porque parece urgente, enquanto uma decisão importante para o crescimento continua sendo adiada.

Cada iniciativa, isoladamente, pode parecer justificável. A dificuldade está em sustentar todas elas simultaneamente, com tempo, orçamento e capacidade de execução limitados.

Essa preocupação também aparece no relatório Pulse of the Profession 2026, do Project Management Institute (PMI). Segundo o levantamento, 81% dos profissionais de projetos entrevistados afirmam que os projetos se tornaram mais complexos nos últimos anos. Além thredisso, 31% dos projetos classificados como complexos não alcançaram integralmente os benefícios pretendidos.

Os números não significam que esses projetos fracassaram exclusivamente por excesso de iniciativas. O estudo aborda diferentes fontes de complexidade, incluindo problemas de coordenação, objetivos desalinhados, mudanças tecnológicas e fatores externos.

Mas reforça uma distinção importante: executar atividades e entregar valor não são necessariamente a mesma coisa.

Uma empresa pode manter diversos projetos em andamento e, ainda assim, enfrentar dificuldades para transformar esse esforço em resultados consistentes.

A complexidade também consome recursos

Quanto mais iniciativas simultâneas uma organização mantém, maior pode ser a necessidade de coordenar equipes, distribuir responsabilidades, acompanhar informações e administrar dependências.

Esse trabalho é necessário. O problema surge quando a coordenação começa a consumir uma parcela desproporcional da capacidade disponível.

O relatório da McKinsey de 2026 destaca que mudanças estruturais e cortes de custos podem produzir ganhos temporários de produtividade sem resolver problemas persistentes relacionados a processos, comportamentos e informações dispersas.

Em um dos exemplos apresentados pela consultoria, uma organização identificou decisões duplicadas entre áreas, excesso de reuniões em comparação com empresas semelhantes e mais de mil horas mensais dedicadas a relatórios manuais.

Trata-se de um caso específico, não de um padrão que possa ser atribuído a todas as empresas. Ainda assim, ele ilustra como parte do esforço organizacional pode ser consumida pela própria maneira como o trabalho está organizado.

Na prática, isso exige olhar não apenas para o que as equipes fazem, mas para quanto tempo e quantos recursos são necessários para que consigam fazer.

O preço das prioridades que nunca são revistas

O excesso de iniciativas também envolve um custo de oportunidade. O tempo dedicado a uma ação é tempo que deixa de ser investido em outra.

Uma empresa que distribui seus recursos entre muitas frentes pode acabar sem capacidade suficiente para executar bem aquelas que teriam maior potencial de contribuição para seus objetivos.

Isso não significa que toda iniciativa paralela seja um desperdício ou que a empresa deva evitar experimentar. Testes, inovação e adaptação são importantes. A questão é estabelecer critérios para decidir o que merece continuidade, o que precisa ser ajustado e o que deve ser interrompido.

Uma iniciativa que fazia sentido há seis meses pode já não responder à realidade atual do negócio. Um canal que trouxe resultados no passado pode exigir uma revisão. Uma oportunidade aparentemente promissora pode consumir recursos que seriam mais bem empregados em outra prioridade.

Sem revisões periódicas, decisões antigas permanecem na rotina apenas porque já receberam investimento, tempo ou energia.

E aqui existe um ponto que merece atenção: nem sempre o custo mais relevante está naquilo que foi gasto. Pode estar na capacidade que deixou de ser direcionada para outra oportunidade.

Estratégia também é escolher

Uma das contribuições mais importantes dos estudos de estratégia competitiva é o reconhecimento de que escolher implica renunciar.

Ter estratégia não significa prever todas as mudanças ou elaborar um planejamento que nunca será alterado. Significa estabelecer uma direção, definir critérios para as decisões e reconhecer que nem tudo poderá ser feito ao mesmo tempo.

Na prática, isso exige perguntas que nem sempre são confortáveis: quais iniciativas estão mais conectadas aos objetivos atuais? O que precisa ser concluído antes de iniciar algo novo? Quais atividades consomem recursos sem apresentar uma contribuição clara? O que pode ser adiado sem comprometer o resultado?

Essas perguntas ajudam a tirar a discussão do volume de trabalho e levá-la para a qualidade das escolhas.

O desafio pode se intensificar quando a empresa cresce. Mais clientes, produtos, canais e oportunidades aumentam as exigências de coordenação. Sem uma definição clara de prioridades, o crescimento pode trazer consigo uma operação cada vez mais difícil de administrar.

Fazer menos pode exigir mais decisão

Reduzir a dispersão não significa trabalhar menos por princípio, eliminar iniciativas importantes ou abandonar oportunidades. Significa direcionar a capacidade disponível para aquilo que tem maior relevância naquele momento.

Isso pode envolver concluir projetos antes de iniciar outros, rever reuniões, estabelecer responsáveis, definir critérios de sucesso e criar momentos para avaliar se as iniciativas continuam fazendo sentido.

Também exige que a liderança comunique com clareza o que é prioritário. Quando tudo recebe o mesmo grau de urgência, as equipes precisam decidir sozinhas onde concentrar esforços, frequentemente sem conhecer o contexto completo do negócio.

Uma organização mais eficiente não é necessariamente aquela que faz mais coisas. É aquela que consegue relacionar suas atividades aos resultados que pretende alcançar.

A agenda cheia pode ser um sinal de demanda, mas não é, por si só, uma medida de progresso.

Para entender se a empresa está avançando, é preciso olhar além do número de tarefas concluídas e observar o que essas tarefas efetivamente movimentam.

A pergunta que fica para a gestão não é apenas quanto trabalho cabe na rotina. É quanto desse trabalho está levando a empresa na direção que escolheu seguir.

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Editora-chefe do Economia PR e estrategista editorial para empresas e lideranças que querem construir autoridade e relevância no mercado.

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