Por Ivan Prizon CEO e sócio-fundador da Integrare
O debate sobre crescimento empresarial no Brasil costuma girar em torno de crédito, qualificação, produtividade e escala. Todos esses fatores são relevantes. Mas, no setor de serviços, há um elemento menos visível — e decisivo: a confiança.
A análise de dados do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE/IBGE) entre 2007 e 2021 mostra que o país não sofre com falta de empresas, mas com falta de mobilidade. São poucas as que conseguem sair do pequeno porte e alcançar escala média ou grande.
Esse bloqueio não se explica apenas por limitações internas dos empreendedores, mas por um mecanismo estrutural do mercado, no qual o porte funciona como um selo informal de confiabilidade.
No setor de serviços, essa lógica é ainda mais forte. Em 2021, mais de 91% das empresas eram microempresas. O problema não está nessa concentração, mas no fato de que a participação de empresas maiores cresce muito menos do que seria esperado.
Para crescer, uma empresa pequena precisa conquistar contratos maiores. No entanto, muitos clientes operam com uma lógica simplificada: empresa pequena é risco. Risco de não entregar, de não sustentar a operação ou de não cumprir prazos.
Assim, cria-se um paradoxo difícil de romper: a empresa precisa crescer para ser considerada confiável, mas precisa ser considerada confiável para crescer.
Esse bloqueio se intensifica justamente onde o mercado é mais maduro e competitivo. Em estados como São Paulo, o ambiente mais dinâmico também se mostra um dos mais restritivos para a escalada de pequenas empresas.
A barreira, portanto, não é apenas econômica. Ela é institucional e cultural. Em mercados disputados, compradores tendem a adotar critérios de “segurança”, e o porte passa a funcionar como um atalho decisório.
O resultado é um déficit de mobilidade empresarial. Se as empresas crescessem proporcionalmente, o país teria hoje milhares de empresas a mais nos portes pequeno, médio e grande.
Isso não significa que as empresas estejam desaparecendo, mas que o crescimento está sendo apropriado de forma desproporcional por quem já está estabelecido, criando uma espécie de reserva silenciosa baseada em percepção de risco.
Na prática, esse bloqueio é sentido diariamente por empreendedores que, mesmo investindo em gestão, processos e qualificação, esbarram em filtros que privilegiam tamanho e marca. No setor de serviços, onde a entrega depende de execução contínua, reduzir o risco percebido se torna central.
Portfólio público, validações externas, especialização em nichos, parcerias e construção de reputação passam a ser ativos estratégicos.
Quando a mobilidade empresarial é travada, o país perde inovação, concorrência e produtividade. Crescer, portanto, não é apenas uma decisão de gestão interna. É também uma questão de estrutura de mercado e de como a confiança é distribuída.
Enquanto o porte seguir como critério automático de segurança, o Brasil continuará criando muitas pequenas empresas — e poucas capazes de atravessar o próximo degrau.