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Como Caroline Daitx transformou a perícia médica em negócio

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Foto: Moniz Caldas

O aumento da judicialização no Brasil tem ampliado a demanda por especialistas capazes de produzir análises técnicas que auxiliem decisões judiciais, administrativas e securitárias. Nesse cenário, a perícia médica ganha protagonismo como área estratégica na interface entre saúde e direito.

Ao mesmo tempo, cresce entre profissionais da medicina o interesse por caminhos de carreira que vão além do modelo tradicional de atendimento clínico. A busca por novas fontes de renda, autonomia profissional e atuação em nichos especializados tem impulsionado iniciativas de formação e empreendedorismo dentro do próprio setor de saúde.

Esse movimento também revela o avanço da presença feminina em áreas historicamente dominadas por homens. Em diferentes segmentos da medicina, médicas têm ampliado protagonismo em pesquisa, gestão, educação e inovação, abrindo novos caminhos para a profissão.

Neste Economia PR Drops, especial pelo Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a médica perita Caroline Daitx fala sobre carreira, empreendedorismo e a transformação da perícia médica em um campo estruturado de atuação profissional. Confira a entrevista a seguir:

Você deixou um cargo público concursado na Polícia Científica do Paraná em 2023 para empreender. O que motivou essa decisão?

Caroline: Deixar um cargo público nunca foi uma decisão impulsiva foi uma escolha estratégica. Eu entendi que poderia gerar muito mais impacto atuando como perita particular, formando médicos e ajudando a estruturar a perícia médica como um mercado profissional, organizado e valorizado. Na Polícia Científica do Paraná, eu estava na linha de frente dos casos. Ao empreender, ampliei meu alcance: passei a realizar perícias particulares em todo o país, multiplicar conhecimento, formar novos peritos e desenvolver soluções que chegam ao Brasil inteiro. Foi uma decisão guiada por propósito e escala: sair de uma atuação essencialmente individual para construir um ecossistema que profissionaliza a perícia médica no país.

Como você avalia o crescimento da demanda por perícias médicas no Brasil diante do aumento da judicialização? Isso representa uma oportunidade real para médicos no Paraná?

Caroline: Esse crescimento aumenta de forma objetiva e contínua a necessidade de provas técnicas qualificadas e a perícia médica é peça central nesse cenário. Existe, sim, uma oportunidade real. O desafio é que muitos médicos ainda não enxergam a perícia como uma carreira estruturada. Falta formação prática, orientação de mercado e uma visão mais empresarial da atuação. O Paraná tem grande potencial, inclusive por concentrar intensa atividade judicial, assim como outros estados do Sul. Mas essa oportunidade só se concretiza para quem se posiciona estrategicamente e compreende a perícia como uma especialidade que exige seriedade, método e construção de carreira também no longo prazo.

O Perícia do Zero nasceu de uma lacuna no mercado. Como era esse cenário antes do programa e o que mudou desde o lançamento?

Caroline: Antes do CAEPE-Centro Avançado de Estudos Periciais, o médico que queria atuar com perícia geralmente aprendia por tentativa e erro. Faltava um caminho estruturado e, principalmente, uma orientação prática sobre onde estão as oportunidades, como captar casos, como definir honorários e como se posicionar de forma profissional. O Perícia do Zero é a porta de entrada para quem ainda não conhece a perícia médica e precisa começar do jeito certo entendendo, com o básico, quais são as possibilidades reais no mercado, como pode atuar como perito particular, como se cadastrar e se habilitar para receber nomeações em tribunais, e também outras formas de atuação pericial (como assistência técnica, consultoria e produção de pareceres). E, principalmente, ele não para aí: é o início de uma trilha completa e progressiva. Os treinamentos são totalmente estruturados para o médico conseguir conciliar tempo e investimento de acordo com a sua realidade atual com uma sequência de formação que segue em mais três etapas, até a consolidação e a finalização também disponibilizada nos treinamentos através da pós-graduação. Desde o lançamento, tenho visto médicos que antes dependiam exclusivamente de plantões construindo uma nova fonte de renda, com mais previsibilidade, autonomia e uma carreira de longo prazo dentro da perícia.

O CAEPE oferece uma pós-graduação reconhecida pelo MEC, uma das primeiras do tipo no país. Qual impacto você espera gerar com essa iniciativa?

Caroline: O impacto é estrutural. A pós-graduação do CAEPE não nasce para “ensinar a fazer laudo”, mas para elevar o padrão técnico e ético da perícia médica no Brasil formando médicos com base científica sólida, segurança jurídica, método, e uma visão estratégica de carreira. Eu espero gerar impacto em três frentes muito objetivas:

  • Qualificação técnica real: Profissionais capazes de raciocinar como peritos: analisar documentos, conduzir exame pericial com método, estabelecer nexo causal, quantificar dano, incapacidade e repercussões. Sustentar conclusões com literatura, diretrizes e técnica, não com opinião.
  • Valorização financeira do perito: Quando o perito entrega qualidade, consistência e previsibilidade, ele passa a ser percebido como um profissional de alta responsabilidade e isso muda o jogo de honorários, posicionamento e demanda. A valorização vem como consequência direta do aumento de padrão.
  • Consolidação da perícia como área de excelência médica: A perícia precisa ocupar o lugar que merece dentro da Medicina: uma área própria, com formação séria, critérios, linguagem técnica adequada e reconhecimento institucional. Isso fortalece o Judiciário, protege a sociedade e também protege o médico que atua com seriedade.

Além disso, por ser uma das primeiras pós-graduações do tipo no país e reconhecida pelo MEC, a iniciativa ajuda a padronizar uma formação que antes era fragmentada. Ela cria referência, cria cultura e forma uma geração de peritos mais preparados para atuar em diferentes frentes: tribunais, assistência técnica, perícia particular, consultoria, pareceres e suporte técnico a decisões complexas. No fim, é isso: quando o nível sobe, o mercado inteiro se transforma e a perícia médica deixa de ser “um bico” para se tornar uma carreira sólida, respeitada e profissionalizada.

A perícia médica é historicamente dominada por homens. Como foi construir autoridade nesse ambiente?

Caroline: Foi um processo natural, mas não “automático”: foi construído com competência, consistência e entrega. A Medicina Legal e a perícia médica ainda carregam traços históricos de um ambiente mais masculino especialmente nos espaços institucionais e nas posições de visibilidade. Mas, na prática, autoridade não se sustenta por gênero. Ela se sustenta por conhecimento técnico, posicionamento claro e resultado verificável. Desde o início, eu fiz uma escolha muito objetiva: ser incontestável no método. Por isso investi pesado em formação com residência na USP, atualmente aluna do doutorado no Departamento de Patologia Forense da FMUSP Ribeirão Preto, com especializações e, ao mesmo tempo, em produção de conteúdo qualificado, com base científica e linguagem acessível. Quando você entrega consistência, o reconhecimento vem de alunos, de colegas, de advogados, e também do próprio mercado que passa a buscar quem resolve com segurança. Também foi importante entender que, para uma mulher, muitas vezes não basta “ser boa”: é preciso ser nítida. Nítida no posicionamento, na técnica, na comunicação e na postura profissional. Eu me coloquei como referência não por ocupar espaço, mas por entregar padrão e repetir isso ao longo do tempo. E hoje eu vejo algo muito positivo: cada vez mais mulheres entrando na perícia com seriedade, método e ambição de carreira. Isso não é tendência passageira, é um movimento irreversível. E, quanto mais mulheres bem formadas ocupam esse espaço, mais a perícia se eleva como área: mais ética, mais técnica, mais profissional.

Caroline: O modelo tradicional de carreira médica é quase sempre linear e assistencial: o médico troca tempo por atendimento, plantão, agenda e produtividade. É um modelo importante, mas limitado em escala, previsibilidade e autonomia. O nosso ecossistema foi desenhado para funcionar como um ciclo completo de carreira em perícia médica, em três camadas que se conectam:

  • Formação (CAEPE): onde o médico aprende do zero com método, evolui por níveis e constrói competência técnica, segurança jurídica e posicionamento. É formação com trilha, não “curso solto”.
  • Execução acessível de perícias (Perícia Médica Popular): onde a perícia sai do discurso e vira prática, com casos reais, demanda organizada e acesso para quem precisa. Além de impacto social, isso também cria um ambiente concreto para o perito atuar com método e consistência.
  • Proteção e suporte ao médico (Medprotec): A Medprotec é uma camada de segurança para médicos em geral, baseada na lógica da perícia médica e na gestão técnica de conflitos: como o perito conhece de perto onde os problemas clínico-jurídicos costumam nascer (comunicação, documentação, expectativas e condutas mal registradas), ele consegue orientar o médico desde o momento zero a conduzir situações sensíveis com método, protocolos e organização, reduzindo risco e evitando que conflitos com pacientes escalem para crises, denúncias ou processos, garantindo suporte técnico, jurídico e operacional.

Isso cria um ciclo virtuoso de formação, prática e suporte.

O diferencial é que a gente aplica lógica empresarial à medicina, sem perder seriedade técnica. O médico deixa de ser apenas “prestador de serviço” e passa a atuar como profissional estratégico, com processo, posicionamento, previsibilidade de demanda e construção de longo prazo algo raro no modelo tradicional.

Como você enxerga o papel da educação digital na valorização e na geração de renda para profissionais da saúde?

Caroline: A educação digital tem um papel decisivo porque ela democratiza o acesso e acelera a carreira. Hoje, um médico fora dos grandes centros pode aprender com profundidade, se especializar e criar uma nova frente de atuação sem depender de estar fisicamente em um polo tradicional. Mas aqui existe um ponto crítico: digital não é sinônimo de qualidade. Conteúdo superficial dá sensação de avanço. Formação estruturada dá competência e competência gera renda. Educação digital com método, prática orientada e visão de mercado muda o padrão de valorização do profissional. Já o conteúdo aleatório vira distração, ruído e mais uma coisa para “consumir” sem transformar a realidade.

O que você diria a médicas que querem transformar sua especialidade em um negócio, mas ainda têm receio de sair do caminho tradicional?

Caroline: Eu diria que não é sobre “abandonar” o caminho tradicional é sobre ampliar possibilidades com inteligência. A perícia médica, inclusive, abre um leque grande de atuações além da perícia em si: assistência técnica, consultoria, pareceres, gestão de risco, auditoria, educação, suporte estratégico a equipes e até atuação indireta com protocolos e prevenção de conflitos e, para muitas mulheres que buscam mais tempo com a família e mais autonomia de agenda, isso pode ser uma excelente oportunidade de redesenhar a atuação profissional, mesmo sem exercer diretamente a perícia. Empreender na medicina não é só abrir empresa: é construir estrutura (processo, rotina, entregáveis), conhecimento de mercado (demanda, precificação, canais, oportunidades) e posicionamento estratégico (autoridade, nicho, diferenciação e confiança). E existe uma verdade que muita gente evita encarar: hoje, o maior risco não é empreender e sim depender exclusivamente de um único modelo de renda (plantão, agenda, convênio), sem alternativa, sem reserva e sem controle. O caminho mais seguro é o estratégico: comece criando uma nova frente enquanto mantém segurança financeira; teste, ajuste, profissionalize. Planejamento reduz medo. Método reduz desgaste. Estratégia reduz risco.

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