O município de Guarapuava, no centro-sul do Paraná, consolida-se como um polo de inovação em saúde ao operacionalizar o Axis Vita – Complexo de Pesquisa Avançada.
O projeto é um caso prático do conceito de “Tripla Hélice”, onde a iniciativa privada, representada pelo bairro planejado Cidade dos Lagos, a academia, por meio da Unicentro, e o setor hospitalar, através do Hospital de Caridade São Vicente de Paulo, convergem investimentos para viabilizar tecnologia de ponta que, até então, era restrita a grandes centros globais.
O laboratório utiliza a espectrometria de massas de alta resolução, uma técnica que permite a análise ultraprecisa de proteínas para diagnósticos precoces, conhecida como proteômica. Trata-se do segundo equipamento com esta configuração na região Sul do Brasil, permitindo que patologias complexas sejam identificadas com uma assertividade muito superior aos métodos convencionais.
A viabilização do complexo seguiu um modelo de compartilhamento de ativos e responsabilidades que serve de exemplo para o desenvolvimento regional. A Cidade dos Lagos aportou a infraestrutura física e todas as adequações estruturais de alto padrão necessárias para receber os equipamentos.
O Hospital São Vicente investiu cerca de 900 mil euros, o que equivale a aproximadamente R$ 5,5 milhões, na aquisição do parque tecnológico. Já a Unicentro destinou cerca de R$ 1,5 milhão e disponibilizou seu corpo científico altamente qualificado para a operação do centro.
Maroan Navas Ribeiro, coordenadora do setor de pesquisas do Hospital São Vicente, explica que a motivação central é tornar Guarapuava um centro de excelência em pesquisa aplicada.
“A expectativa aqui é impulsionar os estudos para impactar positivamente a vida dos pacientes com resultados práticos, uma vez que a espectrometria de massa consegue estudar tudo o que tenha massa e propor tratamentos muito mais assertivos para nossos pacientes”.
Diferente de laboratórios puramente acadêmicos, o Axis Vita nasce com foco no impacto direto à comunidade e na eficiência do gasto em saúde. Um dos primeiros projetos utiliza a estrutura para monitorar 50 gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), avaliando como contaminantes externos e hábitos de saúde influenciam o desenvolvimento fetal.
A professora dra. Renata Romano, pesquisadora da Unicentro e uma das líderes científicas do projeto, explica que a relevância prática da pesquisa está em identificar biomarcadores que exames de rotina não alcançam.
“Essa tecnologia permite entender como o ambiente e o estilo de vida impactam o organismo da mãe e o desenvolvimento do bebê em nível molecular, possibilitando intervenções preventivas muito mais cedo, o que ajuda a reduzir riscos de complicações gestacionais e garante um suporte mais seguro e personalizado para essas mulheres no sistema público”, ressalta.
Para a pesquisadora, o laboratório é uma ferramenta estratégica de retenção de capital intelectual no Paraná.
“Nossa equipe já identificou 3.600 proteínas em amostras locais, o que coloca a ciência paranaense na fronteira do conhecimento global em medicina personalizada. E esse conhecimento não fica restrito a Guarapuava ou ao Brasil, mas norteia outras pesquisas no mundo todo”, frisa dra Renata.
“O laboratório materializa a nossa tese de que bairros planejados devem atuar como distritos de inovação de quarta geração para gerar valor econômico real”, explica o empresário Vilso Dubena, um dos idealizadores da Cidade dos Lagos.
“Queremos criar um legado que vá além do desenvolvimento imobiliário, conectando a infraestrutura do bairro à expertise da universidade e à necessidade do hospital para gerar soluções que atraiam novos investimentos, empresas e talentos para a região”, complementa Dubena.
Com a operação plena do Axis Vita, Guarapuava não apenas resolve demandas locais de saúde, mas projeta o Paraná como um competidor global no setor de biotecnologia.
O sucesso dessa articulação entre o setor produtivo, a academia e a saúde sinaliza um novo caminho para o desenvolvimento de cidades médias brasileiras, provando que a inovação descentralizada é a chave para a retenção de talentos e a criação de uma economia baseada no conhecimento de alto valor agregado.