Provedores de internet têm recorrido a serviços de streaming, como filmes, séries e esportes, para justificar planos acima dos R$ 100 e reduzir a comparação baseada apenas em preço e velocidade. A estratégia busca aumentar a percepção de valor dos pacotes e fidelizar clientes em um mercado de 55,4 milhões de acessos de banda larga fixa no Brasil.
Durante anos, a disputa entre provedores girou em torno de uma equação simples: mais velocidade pelo menor preço possível. Isso criou uma espécie de barreira psicológica em torno dos R$ 100, sobretudo entre empresas regionais, que enfrentam dificuldade para elevar o valor dos planos sem que o consumidor perceba uma contrapartida clara.
Segundo dados do segundo trimestre de 2026 da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), mais de 80% dos 55,4 milhões de acessos de banda larga fixa do país já são feitos por fibra óptica. A própria agência identificou, no primeiro trimestre, uma competição cada vez mais centrada na retenção e monetização da base de clientes, apontando a integração de conectividade, plataformas digitais, serviços e dados como estratégia de diferenciação.
Nesse cenário, filmes, séries, esportes e outros serviços digitais passam a ocupar uma função diferente dentro dos pacotes de internet, ajudando o provedor a construir ofertas mais completas.
Para João Marcelo, diretor comercial da Watch TV, o primeiro obstáculo está em fazer com que o conteúdo disponível seja percebido pelo consumidor.
“Não basta disponibilizar um catálogo robusto. É preciso transformar esse conteúdo em valor percebido pelo assinante. Isso passa por empacotamento, comunicação, ativação e recorrência. O conteúdo só gera valor quando é descoberto, consumido e incorporado à rotina do cliente”, explica João Marcelo.
Provedor como agregador
Outro desafio enfrentado pelo consumidor é a fragmentação do conteúdo: um campeonato esportivo pode ter transmissões distribuídas entre diferentes plataformas, enquanto filmes e séries desejados estão espalhados por vários serviços.
Para evitar que o consumidor precise administrar diferentes assinaturas, o provedor pode assumir o papel de agregador, reunindo conectividade e entretenimento em uma mesma oferta.
“O assinante passa a ter acesso a um portfólio mais completo, com uma única contratação e cobrança. Além disso, o poder de negociação e escala do provedor permite oferecer esse conjunto com uma relação custo-benefício que pode ser superior à contratação individual dos aplicativos”, afirma o diretor.
Na prática, isso também muda a discussão sobre quanto o consumidor está disposto a pagar pela internet. Um plano acima dos R$ 100 deixa de ser comparado apenas com outra conexão de preço menor quando incorpora serviços que o cliente já consome ou contrataria separadamente.
“Não estamos falando apenas de vender mais aplicativos, mas de resolver um problema do consumidor e simplificar o acesso ao entretenimento”, acrescenta João Marcelo.
Quando o play vira indicador de negócio
Para avaliar se a estratégia funciona, não basta contabilizar quantos clientes receberam acesso ao streaming. O desafio é descobrir se eles efetivamente utilizam o serviço.
A Watch TV, que atende 2.600 provedores em todo o país, utiliza indicadores como primeiro acesso, frequência de utilização e playtime para medir o engajamento dos assinantes. Essas informações podem ser cruzadas com métricas tradicionais do negócio, como churn, LTV (Lifetime Value) e ARPU, permitindo observar a relação entre consumo de conteúdo, permanência na base e contratação de serviços.
“Quanto maior o engajamento do cliente com o conteúdo, maior tende a ser seu tempo de permanência. O assinante que encontra conteúdos relevantes, cria hábitos de consumo e percebe valor no serviço passa a ter menos motivos para buscar alternativas ou trocar de provedor”, diz o executivo.
A mesma lógica pode abrir espaço para upsell e cross-sell. Conforme o assinante descobre novos conteúdos, o provedor ganha a possibilidade de oferecer pacotes mais completos sem depender exclusivamente de aumentos no preço da conexão.
Para João Marcelo, no entanto, disponibilizar o serviço é apenas parte do caminho. Em um mercado formado por provedores de diferentes portes e níveis de maturidade, o maior desafio é transformar a estratégia em execução.
“Clientes engajados consomem mais, permanecem por mais tempo e geram mais valor para o provedor. Por isso, acompanhamos os indicadores de uso com tanta atenção. Eles são os primeiros sinais dos resultados que veremos no negócio”, conclui João Marcelo.