A agenda ESG deixou de ser apenas uma pauta institucional para ocupar posição estratégica dentro das empresas brasileiras. Pressionadas por investidores, novas regulamentações e mudanças no comportamento do mercado, organizações de diferentes segmentos passaram a incorporar práticas ambientais, sociais e de governança ao planejamento de longo prazo. Nesse cenário, a tecnologia vem assumindo papel central para transformar metas de sustentabilidade em ações mensuráveis, monitoradas e integradas à operação.
No Brasil, o avanço da agenda ESG também ocorre em meio ao fortalecimento de políticas públicas e da adoção de padrões internacionais de sustentabilidade. O país foi o primeiro do mundo a incorporar os critérios do International Sustainability Standards Board (ISSB) ao quadro regulatório nacional e tem ampliado investimentos em práticas voltadas à transparência, gestão de impacto e governança corporativa.
No Paraná, o movimento também ganha força. O estado lidera indicadores ambientais nacionais e se destaca pelo foco no pilar social do ESG, prioridade para mais da metade das empresas paranaenses.
Ao mesmo tempo, ferramentas baseadas em inteligência artificial, automação, análise de dados e integração de sistemas vêm permitindo que empresas acompanhem indicadores ESG em tempo real, reduzam consumo de recursos, ampliem rastreabilidade e organizem informações para relatórios e auditorias.
O uso da tecnologia também tem democratizado o acesso à gestão ESG, tornando soluções antes restritas às grandes corporações mais acessíveis para empresas de menor porte.
Para falar sobre como a tecnologia está acelerando a implementação das agendas ESG no ambiente corporativo, o Economia PR Drops conversa com Geovana Conti, startup especializada em monitoramento e gestão de indicadores socioambientais.
Como você enxerga o papel da tecnologia na transformação das agendas ESG nas empresas brasileiras nos próximos anos?
Geovana: A tecnologia viabiliza soluções que vão desde a gestão das emissões de gases de efeito estufa até a gestão de resíduos, permitindo mensurar impactos, reduzir danos e transformar resíduos em novos insumos. Também amplia o acesso à educação e fortalece letramentos raciais, etários e sociais, contribuindo para a redução das desigualdades. Hoje, ela torna possíveis ações capazes de gerar benefícios reais para o planeta e para a sociedade.
Qual é a principal dor que a plataforma da Paresi resolve para empresas que querem melhorar a gestão e a comunicação de ESG?
Geovana: A Paresi organiza, centraliza e acompanha de forma contínua os dados e ações de impacto ambiental e social, permitindo que as empresas entendam com clareza os resultados dos seus investimentos e para onde estão caminhando. Diferentemente dos relatórios tradicionais, geralmente anuais, nós acompanhamos a evolução continuamente, a cada inserção de um novo dado. Monitoramos indicadores ambientais, como emissões e gestão de resíduos, além de aspectos sociais internos e externos. A plataforma fortalece a análise baseada em dados próprios e informações de bases governamentais, ajudando as empresas a compreender seu papel na sociedade, identificar seu estágio de maturidade e comunicar resultados com mais consistência. Isso é feito com base em evidências e padrões internacionais, como GRI e ODS, além de bases oficiais como IBGE e IDEB.
Que sinais você observa no mercado brasileiro de que empresas realmente estão levando ESG a sério, e não apenas por compliance ou comunicação?
Geovana: A legislação ainda é o principal motor das transformações socioambientais no Brasil, mas algumas empresas já entenderam que a mudança começa ao reconhecer os impactos que sua própria operação gera na sociedade e no planeta. A partir desse entendimento, surge uma responsabilização mais genuína sobre seu papel e seus impactos, indicando um compromisso com a sustentabilidade que vai além do compliance e da comunicação institucional. Um sinal claro disso é quando a empresa deixa de apenas adotar discursos públicos e passa a promover mudanças internas concretas, como refletir sobre a participação feminina no quadro de colaboradores e buscar ampliá-la. Ações como essas têm aproximado mais empresas da pauta e fortalecido um envolvimento real com a sustentabilidade.
Quais os segmentos da economia tão mais maduros para adotar ferramentas digitais de medição de gestão ESG e quais ainda resistem?
Geovana: Não vejo essa questão como uma divisão entre setores mais maduros e mais resistentes. Empresas ligadas ao petróleo e a processos de queima vêm sendo cobradas há mais tempo por suas responsabilidades socioambientais e, por isso, discutem esses temas com maior frequência, embora isso não signifique mudanças proporcionais. O setor bancário também tem sido fortemente mobilizado devido ao seu grande impacto e alcance junto a colaboradores e clientes. Ao mesmo tempo, o nível de preparo ainda é semelhante entre os segmentos, porque a sustentabilidade é um tema recente e a maioria das empresas, especialmente as mais antigas, não foi criada com essa lógica. Por isso, o desafio é coletivo. Mais do que o setor de atuação, o que diferencia as empresas é a abertura para refletir sobre seu papel na sociedade e no planeta, algo observado em organizações de diversos segmentos presentes na plataforma.
Como a Paresi trabalha com indicadores sociais e ambientais para tornar a mensuração de impacto mais prática e confiável para as empresas?
Geovana: Na Paresi, as empresas inserem dados na plataforma, que torna a mensuração de impacto mais prática e confiável de duas formas principais: realizando um recálculo geral dos impactos sociais e ambientais e validando as informações por meio da solicitação de evidências que comprovem os dados informados. A plataforma sinaliza continuamente pendências, reforçando a necessidade de validação. Além disso, versões customizáveis permitem integração com sistemas amplamente utilizados no mercado, reduzindo a digitação manual e priorizando o compartilhamento automático de dados. Informações já validadas em ERPs, SaaS e outras soluções podem ser integradas via APIs, tornando o processo mais eficiente e aumentando a confiabilidade dos dados.
De que forma a inteligência artificial e a automação podem democratizar o acesso a relatórios ESG, inclusive para empresas menores ou de menor complexidade?
Geovana: A plataforma da Paresi utiliza uma inteligência artificial desenvolvida para sustentabilidade e um modelo de assinatura que ajuda a democratizar o acesso à tecnologia. Com diferentes versões e preços acessíveis, empresas menores também conseguem utilizar recursos avançados de IA. O modelo funciona por escala: ao ampliar a base de usuários, reduz-se o custo individual, tornando o acesso mais viável. Assim, as empresas podem utilizar recursos como análises de mercado, exportação de relatórios, extração de dados e compartilhamento de informações entre múltiplos usuários. Nesse contexto, a inteligência artificial e a automação tornam ferramentas antes restritas, acessíveis a empresas menores e menos complexas, por custos mais viáveis e justos.
Como as exigências regulatórias e de investidores estão moldando a forma como as empresas usam tecnologia para ESG?
Geovana: Hoje, diversos fundos e mecanismos de financiamento estão vinculados à comprovação de resultados sociais e ambientais, e o acesso a esses recursos depende cada vez mais da capacidade das empresas de demonstrar impactos positivos com evidências. A tecnologia se torna essencial para organizar, gerir e acompanhar indicadores ESG, além de armazenar comprovações. Soluções como a da Paresi permitem apresentar impactos de forma mais estruturada e confiável. Esse movimento se conecta à origem do ESG, impulsionada pelo mercado financeiro. Desde as discussões iniciadas pelo Banco Mundial em 2004, tecnologias como a da Paresi passaram a apoiar instituições financeiras na validação de clientes, especialmente em análises e distribuição de recursos e fundos.
O que você imagina para o futuro das empresas que integrarem tecnologia ESG ao seu core de negócio, em termos de competitividade, reputação e inovação?
Geovana: Acredito que ESG e sustentabilidade farão parte do core dos negócios, já que manter consciência sobre impactos ambientais e sociais tende a ser uma exigência. Empresas que não se adaptarem provavelmente terão mais dificuldade para permanecer relevantes e competitivas. As que integrarem tecnologia a esse processo poderão ampliar sua eficácia em sustentabilidade, transformando intenções em gestão prática, acompanhamento contínuo e decisões baseadas em dados. Em competitividade, os impactos tendem a ser significativos, fortalecendo também a reputação junto a consumidores e ao mercado B2B, o que pode gerar novas oportunidades de negócios, contratações, licitações e editais. No fim, esse movimento cria valor não apenas para a empresa, mas também para colaboradores, cadeia de valor, clientes, sociedade e o planeta.