O mercado de eventos vive um momento de transformação. Depois da retomada do setor nos últimos anos, o crescimento passou a ser acompanhado por um movimento de profissionalização, com empresas e organizadores cada vez mais pressionados a entregar resultados mensuráveis, incorporar novas tecnologias e responder às demandas por sustentabilidade e experiências mais relevantes para o público.
Nesse contexto, eventos deixaram de ser avaliados apenas pela estrutura ou pelo número de participantes e passaram a ser vistos como ferramentas de geração de negócios, fortalecimento de marcas e construção de comunidades.
É justamente essa mudança de perspectiva que norteia a edição 2026 do Nada Óbvio, que acontece neste sábado (25), em Curitiba.
Às vésperas do encontro, o Economia PR Drops conversou com as fundadoras da Agência OAH e idealizadoras do evento, Manuela Castro e Yanka Lestechen, sobre as tendências que devem moldar o futuro do setor. Confira na íntegra:
O que é “não óbvio” no mercado de eventos em 2026? O que muda nesta edição em relação às anteriores?
Manuela: Pra mim, o não óbvio no mercado de eventos hoje é que ele parou de ser medido pelo tamanho do espetáculo e passou a ser medido pelo negócio que aquilo gera depois. A empresa não quer mais saber só se o evento foi bonito ou se lotou, ela quer contato qualificado, quer dado, quer resultado que justifique o investimento que ela fez. Isso muda completamente como a gente pensa curadoria de palco, patrocínio e até formato de feira, e é um movimento que ainda não está óbvio pra todo mundo que trabalha no setor. Foi em cima disso que a gente construiu o Nada Óbvio. A primeira edição, em 2024, foi basicamente um teste. A gente tinha uma pergunta simples na cabeça: existe espaço em Curitiba para um evento feito por e para quem produz, vende e vive o dia a dia do mercado de eventos? Não fazia o menor sentido montar uma estrutura gigante sem saber se essa demanda era real, então fomos com o pé no chão, quase um MVP mesmo, pra sentir a resposta do público antes de qualquer coisa. A resposta veio, e veio forte. E foi isso que nos deu confiança pra escalar em 2026. Hoje a gente chega com uma feira de fornecedores com 16 marcas expositoras, patrocinadores maiores, um palco muito mais robusto e nomes que hoje lideram grandes eventos no Brasil, como o Marcelo Flores e o Denis Braguini abrindo a programação de palestras. O que muda nessa edição é justamente a gente levar esse não óbvio pra dentro da própria programação: deixamos de ser um evento sobre eventos e passamos a ser um espaço de negócio de verdade, um lugar pra fechar parceria, entender legislação, discutir dado e operação. A gente amadureceu junto com o próprio mercado.
Quais são os grandes temas e nomes da edição 2026?
Yanka: Montamos a programação em cima de quatro blocos que, na prática, cobrem o que qualquer profissional de eventos precisa resolver hoje: negócio, tecnologia, marca e regulação. O Marcelo Flores abre o dia falando sobre como lidar com o imprevisível na produção. Na sequência, o Denis Braguini entra com eventos B2B como plataforma de negócio, e o Tiago Ferreira, CEO da Meeventos, fecha este primeiro bloco falando sobre dados do mercado de eventos, mostrando como número solto vira decisão real dentro da operação, e não só relatório bonito pra apresentar depois. À tarde, o foco muda para tecnologia aplicada: a Fernanda Batista, do Mulheres na Produção, fala sobre IA na prática na produção, e o Adrian Svirbul, da DUST, entra logo depois com branding e IA, discutindo o que ainda faz uma marca se diferenciar quando qualquer imagem pode ser gerada em segundos. Fechamos o palco com o Ricardo Sevecenco tratando de legislação para o setor e a Victoria Nathalie contando os bastidores reais de um megaevento, da ideia até a execução. Além do palco principal, temos três workshops mais aprofundados. O João Anzolin, da EVER (Evento Responsável), conduz um workshop sobre como entregar eventos com alto impacto positivo, e a Verônica Melhem fala sobre editais e leis de incentivo, um tema que a gente sabe que trava muito produtor. Para fechar o dia, tem um bate-papo sobre eventos culturais independentes com Lucasbin, Gustavo Bauer e a própria Verônica Melhem. É uma curadoria pensada para quem já está na operação, não para quem só quer ouvir sobre tendência de longe.
Como a IA já está mudando a produção de eventos?
Manuela: A IA hoje entra em praticamente toda etapa: na criação de conceito visual, na geração de roteiro de palco, em automações de atendimento por participante, em previsão de fluxo de público. O que muda ano a ano não é mais se a gente usa, é o quanto isso já virou invisível dentro do processo. E é exatamente por isso que colocamos duas falas seguidas sobre o tema este ano: a Fernanda Batista trazendo IA na prática, aplicada mesmo, no operacional, e o Adrian Svirbul entrando com branding e IA. Por isso eu prefiro tirar a IA desse lugar de “ameaça” e colocar onde ela realmente serve: como ferramenta. É uma ferramenta excelente principalmente para quem trabalha com serviço, que é exatamente onde o mercado de eventos está. A gente vende experiência, atendimento, execução; tudo isso é serviço do início ao fim. Então o caminho não é resistir, é aproveitar de verdade o que a IA já entrega hoje: agilidade de produção, atendimento mais rápido para o participante e previsão melhor de demanda.
Como a agenda ESG vem sendo aplicada nos eventos em 2026 e quais as próximas tendências para eventos sustentáveis?
Yanka: Na operação, ESG deixou de ser discurso de abertura e virou item de planilha, literalmente. A gente já vê contratante pedindo relatório de descarte, questionando fornecedor sobre origem de material e cobrando plano de logística reversa para a estrutura montada. Tem um exemplo prático que eu gosto de citar: a Oktoberfest de Santa Cruz do Sul conseguiu reduzir seis toneladas de lixo em apenas três edições, eliminando o copo descartável do evento. Isso mostra bem a direção que o setor está tomando: sair do discurso e ir para a prática mensurável, com fornecedor local, estrutura modular reaproveitada entre eventos e relatório de impacto que o patrocinador consiga cobrar de verdade, sem cair em greenwashing. É por isso que trouxemos o João Anzolin. Ele é da EVER, Evento Responsável, uma organização daqui de Curitiba que atua direto nessa frente e que, inclusive, vem nos ajudando nos bastidores com isso. E o que ele sempre reforça para a gente é que evento tem um papel que pouca gente para para pensar: ele tem uma capacidade única de mobilizar gente e inspirar mudança de comportamento em escala, muito maior do que uma campanha isolada consegue. Hoje o setor está se mexendo bastante para reduzir o impacto negativo, principalmente em duas frentes: resíduo, que é o mais visível, e carbono, que é mais escondido, mas pesa muito, sobretudo pela emissão de gases de efeito estufa decorrente do deslocamento aéreo de convidados e participantes. Além disso, a ação de impacto social também está crescendo forte dentro dessa pauta; não é só uma questão ambiental.
Quais as principais mudanças do público e de consumo em eventos e em quais adaptações do setor isso acarreta?
Manuela: O consumo mudou de um jeito bem prático: as pessoas pararam de ir em evento só porque é evento. Antes dava para encher a agenda com qualquer coisa que estivesse acontecendo na cidade; hoje o público seleciona muito mais antes de decidir onde vai investir tempo e dinheiro. Isso faz com que cada evento precise justificar por que vale a pena estar ali, e não só existir no calendário. Isso também é reflexo de quanta oferta existe hoje. Tem evento para tudo, toda semana, em qualquer cidade grande, então o público simplesmente não consegue mais estar em tudo e passou a escolher onde investir o tempo dele. Ele não abandonou o evento, mas ficou bem mais criterioso: prefere ir a uma experiência que realmente entregue algo do que se espalhar em vários eventos genéricos ao longo do mês. Isso empurra o mercado inteiro para cima em qualidade e deixa cada vez mais apertado quem ainda faz evento de prateleira, sem curadoria nenhuma. E tem a questão da comunidade, que, para mim, é a mudança mais estrutural de todas. Antes o evento era o produto final; hoje ele é só um ponto de encontro de uma comunidade que já existia antes e continua depois, em grupo, em conteúdo e em relacionamento contínuo. Quem entende isso constrói audiência de verdade; quem não entende continua competindo só por ingresso vendido.
O que podemos esperar do setor de eventos para os próximos anos e como isso será abordado no Nada Óbvio?
Yanka: Nos próximos anos, eu vejo o setor caminhando para uma segmentação muito mais forte. Evento genérico, que tenta falar com todo mundo ao mesmo tempo, vai perder espaço para evento de nicho, pensado para resolver o problema de um público bem específico. Isso já é forte nas grandes feiras das capitais e vai chegar cada vez mais às praças menores também. Do lado operacional, a tecnologia vai deixar de ser diferencial e virar obrigação básica: credenciamento inteligente, matchmaking de negócios dentro do próprio evento, dados de participantes analisados em tempo real. Quem ainda organiza no feeling, sem esse tipo de estrutura, vai competir em desvantagem real; isso deixou de ser papo de futuro. E o terceiro ponto, que, para mim, é o mais importante: o contratante vai exigir cada vez mais prova de resultado. Não basta mais mostrar foto de gente sorrindo no evento; precisa mostrar contato gerado, negócio fechado e retorno concreto. É esse tipo de leitura que a gente tenta trazer para o palco do Nada Óbvio: menos discurso motivacional solto e mais ferramentas e cases que ajudem quem está na ponta a se preparar para esse cenário.
Serviço: Nada Óbvio 2026
Data: 25 de julho de 2026
Horário: 8h às 18h, com happy hour na sequência
Local: Macro Bar e Pista – Curitiba (PR)
Formato: presencial (150 vagas) e transmissão ao vivo exclusiva para todo o Brasil
Ingressos: R$ 397,90 (presencial) e R$ 89,90 (online), via Sympla
Mais informações: https://nadaobvio.co
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