A imigração deixou de ser um fenômeno periférico na economia paranaense. O Paraná registrou 211.580 entradas de migrantes e refugiados internacionais entre 2010 e 2025, segundo o primeiro Panorama Geral das Migrações no Paraná, elaborado pelo Observatório Regional de Governança Migratória (OrgMigra). O número coloca o estado na terceira posição entre as unidades da federação, atrás de São Paulo e Roraima.
A presença latino-americana é especialmente expressiva. Venezuelanos, haitianos, paraguaios, cubanos, colombianos e argentinos aparecem entre as principais nacionalidades registradas no período e, juntas, representam cerca de 80% dos registros migratórios do estado. Curitiba concentra a maior parcela, com 65.232 registros, seguida por Foz do Iguaçu e Cascavel.
O movimento também já produz efeitos mensuráveis no mercado de trabalho. Em 2025, conforme dados do IBGE, o Paraná registrou 89.175 admissões de trabalhadores migrantes e 68.152 desligamentos, resultando em saldo positivo de 21.023 empregos formais. Curitiba, por sua vez, liderou entre os municípios brasileiros, com saldo de 7.267 vagas ocupadas por migrantes no ano.
Mas existe uma dimensão desse fenômeno que ainda recebe menos atenção: o empreendedorismo. Além de ocupar postos de trabalho, migrantes também criam negócios, movimentam cadeias de consumo, introduzem produtos e serviços, estabelecem conexões internacionais e trazem repertórios culturais que podem ampliar a capacidade de inovação das empresas e dos territórios.
É nesse espaço que atua o Hub Terra Latina, iniciativa criada em Curitiba para conectar empreendedores migrantes, especialmente latino-americanos, ao ecossistema brasileiro de negócios, inovação e impacto. A organização já impactou mais de 200 empreendedores por meio de mentorias, consultorias, capacitações, eventos e conexões estratégicas.
Para entender os desafios e as oportunidades desse movimento, o Economia PR Drops conversou com Yedimar Carolina Castellano de León, fundadora e diretora do Hub Terra Latina, sobre empreendedorismo migrante, diversidade cultural, inclusão econômica e o potencial dessa população para o desenvolvimento do Paraná. Confira:
Como surgiu a ideia de criar o Hub Terra Latina e qual lacuna no ecossistema de empreendedorismo você identificou em Curitiba?
Yedimar: O Hub Terra Latina nasceu da minha própria experiência como mulher migrante venezuelana e empreendedora no Brasil. Ao chegar em Curitiba, encontrei um ecossistema rico em oportunidades, mas percebi que muitos empreendedores migrantes não conseguiam acessá-las por barreiras como idioma, falta de informação, diferenças culturais e ausência de uma rede de apoio. Identifiquei que existiam iniciativas voltadas para acolhimento e empregabilidade, mas poucas dedicadas ao fortalecimento do empreendedorismo migrante como estratégia de desenvolvimento econômico. Foi assim que criamos o Hub Terra Latina: uma ponte entre talentos latino-americanos e o ecossistema brasileiro de inovação, negócios e impacto.
Quais são os principais desafios enfrentados por empreendedores migrantes e latino-americanos ao abrir ou expandir um negócio no Brasil?
Yedimar: Os desafios vão muito além da burocracia. Muitos empreendedores enfrentam dificuldades para compreender a legislação brasileira, acessar crédito, construir redes de relacionamento e conquistar credibilidade em um novo mercado. Também existe o desafio da adaptação cultural e da comunicação. Por outro lado, vemos diariamente que esses empreendedores possuem uma enorme capacidade de inovação, resiliência e criatividade. Quando recebem orientação, conexões e oportunidades, conseguem transformar essas competências em negócios sustentáveis que geram renda, emprego e impacto social.
O Hub defende que “ser latino” pode ser uma vantagem competitiva. Como essa diversidade cultural se traduz em inovação e oportunidades de negócios?
Yedimar: A diversidade cultural amplia a forma de pensar, criar e resolver problemas. Os empreendedores latino-americanos trazem novas perspectivas, produtos, sabores, serviços e modelos de negócio que enriquecem o mercado brasileiro. No Hub Terra Latina acreditamos que a interculturalidade é uma vantagem competitiva. Ela estimula inovação, amplia mercados, fortalece conexões internacionais e aproxima empresas de consumidores cada vez mais diversos. Quando diferentes culturas trabalham juntas, todos ganham: empreendedores, empresas e a sociedade.
Que impacto o Hub Terra Latina já conseguiu gerar para empreendedores e para a economia local desde sua criação? Há casos que ilustram esse resultado?
Yedimar: Desde a criação do Hub, já impactamos mais de 200 empreendedores por meio de mentorias, consultorias, eventos, capacitações e conexões estratégicas com parceiros do ecossistema. Temos histórias inspiradoras de empreendedores que formalizaram seus negócios, ampliaram suas vendas, participaram de feiras, conquistaram novos clientes e passaram a enxergar seu conhecimento e sua cultura como diferenciais competitivos. Mais do que apoiar empresas, estamos fortalecendo a inclusão econômica e demonstrando que a imigração também gera inovação, desenvolvimento e riqueza para o território.
Na sua visão, o Paraná e Curitiba estão preparados para aproveitar o potencial econômico da imigração empreendedora? O que ainda precisa evoluir?
Yedimar: Curitiba e o Paraná vêm avançando de forma significativa e hoje são referências em inovação, empreendedorismo e acolhimento. Existe abertura para construir políticas, programas e parcerias que valorizam a diversidade. Ao mesmo tempo, ainda precisamos ampliar o acesso à informação, fortalecer políticas públicas voltadas ao empreendedor migrante e promover uma maior representatividade dessas pessoas nos espaços de decisão e inovação. Integrar talentos migrantes não é apenas uma ação social, mas uma estratégia de desenvolvimento econômico para o estado.
Quais são os próximos passos do Hub Terra Latina e como vocês pretendem ampliar a conexão entre empreendedores migrantes, empresas e o ecossistema de inovação brasileiro?
Yedimar: Nosso próximo passo é consolidar o Hub Terra Latina como a principal plataforma de conexão entre empreendedores migrantes, empresas, investidores, universidades e instituições do ecossistema de inovação. Estamos ampliando programas de capacitação, experiências de negócios, mentorias, conexões comerciais e iniciativas que aproximam empresas brasileiras do potencial da diversidade cultural. Nosso propósito é mostrar que a interculturalidade gera inovação, competitividade e desenvolvimento sustentável. Acreditamos que, quando criamos pontes entre culturas, fortalecemos negócios mais humanos, inclusivos e preparados para os desafios do futuro.