O Paraná tem o quarto maior contingente do país de pessoas em situação de rua, com 18.430 pessoas registradas, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Os dados são de maio de 2026 e constam em informe do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG).
Curitiba ocupa a décima posição entre as capitais brasileiras, com 4.644 registros. O Observatório classifica a situação do estado como crítica.
O panorama nacional
A cada cerca de 550 brasileiros, um está registrado no Cadastro Único como pessoa em situação de rua. Em maio de 2026, eram 388.855 pessoas nessa condição no país, segundo o levantamento. A proporção considera a estimativa populacional mais recente do IBGE, de 213,4 milhões de habitantes.
O problema se concentra principalmente no Sudeste, que reúne 61% dos registros, mas também avança em outras regiões. Na Região Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul mantêm trajetória contínua de crescimento desde 2021.
Os números, porém, não representam necessariamente todas as pessoas que vivem nas ruas. O próprio levantamento ressalta que os registros do CadÚnico podem estar subnotificados por fatores como insuficiência de busca ativa e falta de documentos ou informações necessárias ao cadastramento.
O informe também mostra que sete em cada dez pessoas registradas nessa condição são negras, e aponta fatores socioeconômicos, estruturais, institucionais e ambientais para o crescimento observado no país.
Por que a reconstrução da autonomia é mais complexa
Para Ana Clara Fonseca, pesquisadora que estuda a atuação de casas de beneficência na região Norte do Brasil, a permanência prolongada nas ruas torna a reconstrução da autonomia mais difícil, porque a perda da moradia costuma vir acompanhada do rompimento de vínculos familiares, afastamento do mercado de trabalho e dificuldade de acesso a direitos e serviços.
“Quem vive nas ruas costuma carregar dois pesos: a falta de moradia e o julgamento. Quando a sociedade passa a enxergar apenas a condição em que essa pessoa está, fica muito mais difícil criar oportunidades para que ela consiga recomeçar”, afirma Ana.
Segundo a pesquisadora, o acolhimento pode representar mais do que alimentação e abrigo. Casas de beneficência e outras organizações que atendem essa população podem funcionar como pontos de conexão com serviços de saúde, emissão de documentos, orientação jurídica, capacitação profissional e, quando possível, reconstrução de vínculos familiares.
“A situação de rua não começa quando alguém passa a dormir na calçada. Ela começa muito antes, quando essa pessoa perde o emprego, rompe os laços familiares, deixa de ter uma rede de apoio ou simplesmente não encontra quem estenda a mão no momento certo. Quando chega até uma casa de beneficência, ela já acumulou perdas que vão muito além da moradia”, avalia Ana.
O que aponta o levantamento sobre as causas
O informe do OBPopRua aponta a insuficiência histórica de políticas de moradia, trabalho e educação, além da precarização das condições de vida e dos efeitos de emergências climáticas e deslocamentos forçados, entre os fatores relacionados ao aumento dos registros.
Para quem atua no acolhimento, isso significa que recuperar a autonomia depende também de restabelecer condições básicas para acessar políticas públicas e oportunidades.
“O acolhimento é o que transforma assistência em oportunidade. Quando uma pessoa consegue recuperar um documento, acessar um serviço de saúde ou restabelecer um vínculo familiar, ela deixa de apenas sobreviver e começa, de fato, a construir um caminho para sair das ruas”, diz Ana.
A pesquisadora destaca ainda que reduzir trajetórias diferentes a uma suposta escolha individual pode dificultar a compreensão do problema.
“É muito comum as pessoas enxergarem apenas a consequência e ignorarem tudo o que aconteceu antes. Cada pessoa que chega até nós carrega uma história diferente, marcada por perdas, violência, dependência química, problemas de saúde mental ou dificuldades econômicas. Generalizar essas trajetórias acaba afastando a sociedade de uma discussão que precisa ser feita com mais responsabilidade e empatia”, afirma Ana.
O papel das políticas públicas e das organizações sociais
O Observatório defende políticas públicas integradas e estruturadas para responder ao crescimento e à complexidade do atendimento dessa população. Para Ana, organizações sociais fazem parte dessa rede, mas não substituem a atuação permanente do Estado.
“A situação de rua é um desafio que nenhuma instituição consegue enfrentar sozinha. São necessárias políticas públicas permanentes e articuladas para prevenir, acolher e criar oportunidades de recomeço. Nós fazemos parte dessa rede, oferecendo o primeiro apoio para que essas pessoas consigam voltar a acessar seus direitos”, afirma Ana.
A reconstrução dessas trajetórias, segundo ela, também exige continuidade. Alimentação e abrigo respondem a necessidades imediatas, enquanto documentação, saúde, trabalho, vínculos sociais e acompanhamento ajudam a criar condições para que a pessoa deixe a situação de rua.
“Nosso trabalho não termina quando oferecemos uma refeição. A comida mata a fome daquele dia, o acolhimento, quando é feito de forma contínua e com respeito, pode mudar o rumo de uma vida inteira e ajudar a pessoa a enxergar perspectivas para o futuro. Cada pequena conquista representa um passo importante para romper um ciclo de exclusão que, muitas vezes, se arrasta por anos”, conclui Ana.