Por Diogo Brito, Product Director na NTT DATA
Parte do debate sobre a Reforma Tributária gira em torno das alíquotas gerais, da carga tributária global e dos impactos em determinados setores da economia. Para o autor, uma das mudanças mais profundas pode ocorrer na gestão operacional das próprias empresas.
Da guerra fiscal geográfica à disputa por créditos
Durante décadas, a competitividade esteve associada à localização das operações e aos benefícios fiscais concedidos por estados e municípios. A chamada guerra fiscal influenciou decisões de investimento, logística e expansão empresarial.
Com a implementação progressiva da CBS e do IBS, essa lógica perde força e dá lugar a uma nova disputa corporativa.
O ativo mais valioso deixará de ser o benefício fiscal regional. Passará a ser a capacidade de gerar, controlar e aproveitar créditos tributários com precisão.
Transição até 2033 exige simulações
A transição se estenderá até 2033. Nesse período, o sistema tributário atual coexistirá com o novo modelo.
Nessa janela, a capacidade de rodar simulações preditivas e mensurar alíquotas efetivas com base em dados reais do SPED fiscal deixará de ser um diferencial técnico. Passará a ser um requisito de sobrevivência financeira, segundo o autor.
Compras e fornecedores sob nova lógica
Essa mudança influenciará decisões que antes pareciam comerciais. A área de compras e a gestão de suprimentos são os exemplos mais claros.
Até aqui, a escolha de fornecedores se concentrava em preço, prazo e qualidade. Agora, ganha peso uma pergunta adicional: qual fornecedor oferece maior previsibilidade na geração e realização dos créditos tributários?
No novo ambiente, o menor preço na fatura não será, necessariamente, o menor custo real da operação. Um fornecedor mais barato pode ter inconsistências documentais, erros de enquadramento NCM ou riscos operacionais. Isso pode comprometer o aproveitamento dos créditos ou gerar passivos ocultos.
Já um fornecedor com preço um pouco superior pode oferecer uma operação fiscalmente mais segura e vantajosa para o fluxo de caixa.
Crédito tributário como elemento de valor
O crédito tributário deixa de ser visto apenas como dado contábil. Passa a ser tratado como elemento ativo de geração de valor.
O movimento ganha relevância com mecanismos como o split payment e a necessidade de monitorar normas em constante alteração. A conformidade dos documentos, a consistência das informações e a proteção contra desvios de classificação fiscal passam a integrar a avaliação de risco na contratação.
Na prática, a governança e o comportamento fiscal de um fornecedor afetarão diretamente o caixa do cliente.
Integração entre áreas
Ao integrar as áreas fiscal, financeira, jurídica, de compras e de tecnologia, o ciclo tributário deixa de ser um processo isolado de fechamento mensal. Passa a fazer parte da inteligência preditiva da empresa.
Por isso, a principal mudança da Reforma Tributária, na avaliação do autor, está na maturidade da gestão interna, e não na arrecadação.
Segundo ele, as organizações que tratarem tributos de forma reativa provavelmente perderão margem e competitividade. As que transformarem o volume de dados fiscais em inteligência preditiva para compras, planejamento de cenários e gestão de fornecedores estarão à frente.
Uma disputa menos visível
Para o autor, a guerra fiscal geográfica das últimas décadas chegou ao fim. Em seu lugar, surge uma disputa menos visível.
A vantagem competitiva passa a depender de inteligência e controle de crédito. Quem administrá-los melhor terá mais condições de proteger suas margens e crescer nos negócios no Brasil.