Por Silvio Mendonça, diretor de Tecnologia e Transformação Digital do Grupo Marista
Muitas decisões antes 100% humanas já contam com a interferência da inteligência artificial. Da indústria à comunicação, da educação à saúde, a tecnologia ajuda a filtrar informações, produzir conteúdo e interpretar dados. Às vezes, até sugere caminhos estratégicos para empresas e instituições.
A automação está aí e será usada, estejamos ou não de acordo. O mais importante, quando o assunto é IA, não é a automação em si.
O que importa é que ela está mudando quem é responsável por decisões fundamentais, sejam pessoas ou máquinas. Essa mudança tem acontecido sem muito debate.
Encíclica coloca a responsabilidade no centro
A encíclica Magnifica humanitas, divulgada recentemente pelo Papa Leão XIV, leva o assunto para outro patamar. O documento defende que qualquer tecnologia capaz de influenciar a vida das pessoas precisa ser entendida, questionada e corrigida por elas.
Segundo o texto, quando isso não acontece, o problema é uma falha de responsabilidade das instituições. Essa é uma crítica direta a quem trata a IA como assunto que só diz respeito à tecnologia, e não à ética ou à governança.
A encíclica não dá respostas técnicas prontas, e talvez essa seja a intenção. Em vez de normas específicas, propõe um critério que serve de régua para qualquer situação. A tecnologia não pode operar fora do alcance das pessoas afetadas por ela.
Isso muda o debate. Não se trata mais de discutir se a IA é boa ou ruim.
O que se exige é que exista sempre alguém responsável por avaliar, contestar e corrigir o que ela decide. Sem esse freio, corremos o risco de que as instituições deixem de responder pelo que fazem.
Governança passa a ser imprescindível
Na prática, as empresas usam IA de formas bem diferentes. Algumas a aplicam somente para ganhar eficiência e reduzir esforço. Outras deixam que ela participe de decisões relevantes, influenciando estratégias, equipes e resultados.
E aqui mora o problema. Quanto mais a IA assume o papel de decidir, maior é o risco assumido pela empresa, e poucas parecem perceber isso a tempo.
Quando a IA deixa de ser um agente de execução e passa a ser um agente de definição, fortalecer a governança se torna imprescindível. Esses sistemas utilizam modelos estatísticos e dados que são, muitas vezes, impossíveis de compreender ou auditar integralmente.
Por isso, a transparência não é um mero detalhe técnico, mas uma condição para que a decisão seja legítima. Adotar essa tecnologia não é questão apenas de eficiência, e seria um erro tratar o assunto assim.
Mercado de trabalho e distribuição dos ganhos
No mercado de trabalho, a reorganização já é visível. Funções repetitivas perdem espaço. Ganham valor habilidades como análise de contexto, resolução de problemas, criatividade e interação humana.
Isso muda não apenas o volume de tarefas, mas o próprio conceito de valor profissional. A formação e a qualificação seguem a mesma dinâmica: aprender e reaprender tornaram-se parte permanente da rotina dos trabalhadores.
Embora os ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial sejam evidentes, eles não se distribuem sozinhos, nem de forma justa. O resultado depende das escolhas feitas na implementação dessas tecnologias.
Como as responsabilidades são definidas? Quais processos continuam sob supervisão humana? Que mecanismos existem para corrigir o que der errado?
Por isso, as organizações mais preparadas para o futuro serão as que tratarem essas escolhas como decisões estratégicas, e não como detalhes técnicos que podem ser resolvidos depois.