É interessante observar o comportamento de consumo dos brasileiros. O brasileiro torce, curte, compartilha, faz campanha, compra e prestigia produtos nacionais. Nossa torcida costuma ser engajada.
Num sábado à noite, durante um jantar em família, bebemos um vinho da Serra Catarinense. Para mim, foi novidade: nunca havia experimentado um vinho produzido em Santa Catarina. Gostei. Todos beberam e comentaram quase ao mesmo tempo:
“Nossa! É bom!”.
No domingo, em um almoço que reuniu cinco núcleos familiares diferentes, três famílias levaram vinhos produzidos no Rio Grande do Sul. Cada nova garrafa aberta gerava praticamente a mesma reação:
“Nossa! Outro vinho brasileiro!”.
Todos foram degustados e elogiados, enquanto as conversas passeavam pelas experiências de visitação às vinícolas de Bento Gonçalves e pelos planos de conhecer as vinícolas da Campanha Gaúcha, na região de fronteira.
Em meio aos terroirs, deu para perceber o orgulho que sentimos ao experimentar e recomendar produtos brasileiros. Observando essas cenas de fim de semana, fiz algumas reflexões sobre o comportamento do consumidor a partir de alguns pontos.
Primeiro: moramos muito perto das fronteiras com a Argentina e o Paraguai, o que significa acesso fácil a uma enorme variedade de rótulos e preços. Ainda assim, fiquei feliz em experimentar quatro variedades de vinhos brasileiros em apenas um fim de semana.
Segundo: o brasileiro quer prestigiar o vinho feito no Brasil. Há algum tempo, fomos jantar fora e o cardápio oferecia opções interessantes de diversos países. Nosso único critério de escolha foi selecionar um vinho brasileiro.
O problema é que, muitas vezes, o preço acaba sendo um impeditivo. Em geral, o vinho nacional não é barato – especialmente para quem vive em regiões próximas à Argentina, onde há rótulos bastante acessíveis. O vinho produzido no Brasil pode chegar a ter incidência de até 47% em impostos e o valor da tributação é uma das grandes queixas dos produtores.
Terceiro: você já viu propaganda de vinho brasileiro na televisão, em jornais ou nas redes sociais? Eu, sinceramente, vi muito pouco.
Até encontro conteúdos sobre o tema porque sigo perfis de profissionais e vinícolas brasileiras no Instagram. Então, me pergunto: de onde vem tanto engajamento em torno dos nossos vinhos?
Acredito que, em grande parte, ele venha do boca a boca. Desde 2021, escuto o economista Luciano Stremel Barros, colega de trabalho, presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras e grande divulgador dos rótulos nacionais, se referir aos vinhos brasileiros com uma expressão simples e bem-humorada:
“Vinhaço”.
Comida e bebida também são patrimônio cultural. E quem desenvolve produtos locais acaba se tornando guardião dessa riqueza.
Não é por acaso que grandes chefs brasileiros construíram reconhecimento justamente valorizando ingredientes locais, sabores regionais e saberes tradicionais.
No fim das contas, talvez exista algo muito bonito no consumo de produtos brasileiros: ele carrega história, território, memória e pertencimento. Quando escolhemos um vinho, um queijo, um café, um doce ou qualquer produto local, também escolhemos prestigiar pessoas, culturas e regiões inteiras.
Então fica o convite: deixe nos comentários produtos da sua região – ou feitos com ingredientes da sua terra – para que outros brasileiros possam conhecer, experimentar e prestigiar também.