Economia PR - Recuperação não começa na crise: começa no caixa

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Recuperação não começa na crise: começa no caixa

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Foto: Gerada por IA

Por Ezequiel Douglas Wilbert, CEO da Safegold

Nos últimos anos, o aumento dos pedidos de Recuperação Judicial no Brasil trouxe à tona uma discussão importante: afinal, quando uma empresa deve recorrer a esse instrumento?

A resposta mais comum ainda é equivocada. A Recuperação Judicial não deveria ser vista como um último recurso para empresas em colapso, mas sim como uma ferramenta de reorganização financeira utilizada no momento certo. E esse momento é definido por um único fator: o capital de giro e a capacidade de geração de caixa do negócio.

O erro mais comum está em ignorar a regra do fluxo de caixa. Na prática, a maioria das empresas entra em dificuldade não por falta de faturamento ou até mesmo de lucro econômico, mas por descasamento entre geração de caixa, amortizações e o serviço da dívida.

Esse é o ponto central. Enquanto o negócio gera EBITDA positivo, os compromissos financeiros, especialmente amortizações e juros, podem ultrapassar a capacidade mensal de pagamento. Quando isso acontece, inicia-se um ciclo perigoso, marcado pelo aumento do endividamento de curto prazo, pelo uso recorrente de operações financeiras de capital de giro, pela antecipação de recebíveis e pela deterioração gradual da liquidez.

O problema, portanto, não está na operação, mas na estrutura financeira. Por isso, em qualquer processo de renegociação, deveria prevalecer uma lógica simples: a dívida precisa caber dentro do fluxo de caixa da empresa. É o que se pode chamar de regra da soberania do fluxo de caixa.

No ambiente de negociação com credores, é comum observar um desalinhamento relevante. Instituições financeiras, em geral, seguem uma lógica padronizada, com alongamentos limitados, muitas vezes restritos a prazos de até 60 meses, exigência de novas garantias e foco em “rolar” a dívida.

Já a empresa, na maior parte dos casos, precisa de algo diferente: prazos mais longos, que podem chegar a 96 ou 120 meses, períodos de carência que permitam a reorganização operacional e, principalmente, uma redução efetiva do serviço da dívida.

Quando prevalece a chamada cartilha bancária, o resultado costuma ser previsível: o problema é apenas postergado, não resolvido. E, quando o inevitável chega, muitas vezes já é tarde.

Casos recentes de grandes empresas mostram um movimento interessante, com o uso da Recuperação Extrajudicial de forma preventiva. Nesses contextos, a lógica é clara: reorganizar passivos antes da ruptura, preservar capital de giro e manter a operação saudável.

Na prática, essas empresas ingressam no processo ainda com resultado econômico positivo, com geração de caixa operacional e com um nível mínimo de independência financeira.

O objetivo deixa de ser simplesmente sobreviver e passa a ser preservar valor. Essa é a diferença entre uma recuperação sustentável e uma recuperação emergencial. Antes de qualquer decisão, no entanto, é fundamental responder com clareza a algumas perguntas centrais.

A geração de caixa real do negócio é suficiente para suportar o pleito de renegociação? O EBITDA suporta o serviço da dívida atual? Existe espaço para ajuste operacional que aumente o caixa?

Se a resposta for positiva, muitas vezes é possível renegociar fora do ambiente judicial, reequilibrar o passivo dentro de condições convencionais e evitar medidas mais drásticas. Caso contrário, o caminho precisa ser mais estruturado.

Quando a Recuperação Judicial se torna inevitável, isto é, quando não há alinhamento com credores e a estrutura de dívida permanece incompatível com o caixa, ela passa a ser uma alternativa necessária. Ainda assim, há dois cenários distintos.

No primeiro, a chamada recuperação planejada, a empresa ainda gera resultado, possui reserva de capital de giro e consegue operar sem dependência imediata de crédito, o que tende a tornar o processo mais organizado e sustentável.

No segundo, a recuperação por sobrevivência, há ausência de liquidez, dependência de crédito imediato e deterioração operacional, o que altera completamente a dinâmica do processo.

Nesse contexto, a empresa passa a operar fora do sistema bancário tradicional e busca alternativas como FIDCs, securitizadoras ecrédito baseado em recebíveis. Nessas estruturas, o crédito deixa de ser baseado na empresa e passa a ser fundamentado nos seus clientes, os sacados.

Trata-se de uma solução viável, mas que traz um custo relevante: a perda de competitividade. O custo financeiro passa a ser incorporado à operação e, dependendo do ciclo financeiro, pode comprometer margens e dificultar a recuperação.

Dívida é sintoma, não causa. Um erro recorrente é tratar a reestruturação como um problema exclusivamente financeiro. Na realidade, o endividamento é consequência de desajustes operacionais, como precificação inadequada, estrutura de custos desalinhada, crescimento sem capital de giro e ineficiência na gestão do ciclo financeiro.

Por isso, qualquer processo de recuperação precisa estar apoiado em dois pilares: a reestruturação do passivo e a reestruturação da operação. Sem isso, a empresa até sobrevive, mas não se sustenta.

Conclusão: o timing define o sucesso. A diferença entre uma recuperação bem-sucedida e uma recuperação traumática está no momento da decisão. Empresas que agem cedo preservam caixa, mantêm competitividade e estruturam soluções definitivas. Já as que esperam perdem liquidez, encarecem o capital e reduzem drasticamente suas alternativas.

No fim, a lógica é simples: recuperação não é sobre dívida. É sobre fluxo de caixa. E quem entende isso cedo atravessa a crise. Quem ignora, geralmente chega tarde demais.

Mais sobre o autor

Ezequiel Douglas Wilbert é Sócio-Fundador e CEO da Safegold Capital, boutique de gestão empresarial fundada em 2010. Especialista em reestruturação empresarial, lidera negociações e mediações financeiras que já ultrapassaram R$ 4 bilhões em recursos e mais de R$ 2 bilhões em dívidas renegociadas.

Com formação em Administração de Empresas, especialização em Administração Financeira e Mestrado em Administração de Empresas, Ezequiel também atuou como professor universitário por mais de 10 anos, lecionando disciplinas como Administração Financeira, Orçamento Empresarial e Custos para quase 2 mil alunos na UNOESC.

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A Safegold foi fundada em 2010 a partir da visão de Ezequiel Douglas Wilbert, especialista em finanças com ampla experiência no setor. Desde 2002, ele já percebia que muitas empresas brasileiras enfrentavam dificuldades não por falta de potencial, mas por falhas na gestão -cenário que o inspirou a criar uma consultoria dedicada a transformar negócios com inteligência financeira e excelência na gestão. Inicialmente concebida como uma UTI empresarial voltada para turnaround, gestão de caixa e mediação de dívidas, a Safegold evoluiu ao longo dos anos. Em 2015, ampliou sua atuação com a criação da área de Controladoria e FP&A, oferecendo uma visão 360º dos negócios. Em 2018, incorporou Business Intelligence e automação de indicadores, fortalecendo sua capacidade analítica e estratégica. Hoje, posiciona-se como uma boutique de gestão com forte viés tecnológico, especializada em Performance Empresarial e Reestruturação de Negócios. Com uma equipe multidisciplinar de mais de 50 profissionais e mais de 300 empresas atendidas, a Safegold entrega soluções personalizadas com foco em resultados sustentáveis, decisões baseadas em dados e estratégia empresarial. Entre seus reconhecimentos estão o selo Microsoft Partner, software próprio de tesouraria e quatro prêmios Mérito em Administração em Santa Catarina.

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