Economia PR - Quando o óbvio cega: a arte de olhar para onde ninguém está olhando

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Quando o óbvio cega: a arte de olhar para onde ninguém está olhando

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Foto: Magnific / Editado com IA

Vivemos um paradoxo curioso. Nunca tivemos acesso a tanta informação. Relatórios, pesquisas, tendências, inteligência artificial, dashboards, indicadores, especialistas, podcasts, newsletters. O conhecimento nunca esteve tão disponível. Ainda assim, os grandes insights parecem cada vez mais raros.

Talvez porque o excesso de informação produza um efeito pouco discutido: ele faz todo mundo olhar para o mesmo lugar.

Quando todos acompanham os mesmos indicadores, estudam os mesmos cases e seguem as mesmas “melhores práticas”, as respostas tendem a ficar parecidas. E, em um mercado onde a atenção é um ativo escasso, repetir o que todos já fazem dificilmente gera vantagem competitiva.

O diferencial deixou de ser saber mais do que os outros. Passou a ser enxergar o que ninguém está vendo.

Pensar “fora da caixa”, nesse contexto, não é um exercício de criatividade abstrata. É uma estratégia de sobrevivência. É o que permite criar novos mercados, reinventar categorias e escapar da armadilha de apenas otimizar modelos que já começam a dar sinais de esgotamento.

A história da Netflix talvez seja o exemplo mais conhecido dessa lógica. No ano 2000, seus fundadores, Reed Hastings e Marc Randolph, ofereceram a empresa para a Blockbuster por cerca de US$ 50 milhões. A proposta era simples: a Netflix cuidaria da operação online; a Blockbuster manteria sua força nas lojas físicas. A resposta foi um sonoro “não”.

Naquele momento, a Blockbuster olhava para o próprio negócio. A Netflix olhava para a experiência do consumidor (atual e futuro).

Poucos anos depois, o streaming substituiu o aluguel de DVDs, a Blockbuster decretou falência (em 2011) e a Netflix se tornou uma das maiores empresas de entretenimento do planeta. O mérito nunca foi prever o futuro. Foi perceber um comportamento que ainda parecia pequeno demais para receber atenção.

Mais de duas décadas depois, o princípio continua exatamente o mesmo.

Nos últimos dias, chamou atenção o anúncio da compra do Banco Porto Real de Investimentos pelo Nubank. À primeira vista, parecia uma aquisição irrelevante.

Um banco pequeno, com sede em Porto Real (RJ), no interior fluminense, com apenas duas agências e foco em operações de investimento e crédito para empresas, sem atuação no varejo e sem captação de depósitos de clientes (captações zeradas).

Seus números ajudam a dimensionar essa escala: no 1º trimestre de 2026, segundo dados do Banco Central, o banco tinha cerca de R$ 32,1 milhões em ativos totais, patrimônio líquido de aproximadamente R$ 31,4 milhões e uma carteira de crédito em torno de R$ 9,78 milhões, majoritariamente voltada a capital de giro para empresas.

Em contraste, o Nubank opera em outra ordem de grandeza, com mais de 115 milhões de clientes no Brasil e ativos na casa das centenas de bilhões de Reais, o que torna a operação praticamente simbólica em termos financeiros — mas estratégica sob outras perspectivas.

Mas o ativo mais importante daquela operação nunca esteve no balanço patrimonial. Estava na licença bancária.

A movimentação aconteceu em resposta a uma regra recente do BC que limita o uso do termo “banco” por empresas que não têm essa autorização formal. Em vez de mudar sua marca ou reconstruir toda a sua identidade, o Nubank optou por um caminho mais simples: comprou uma instituição que já possuía essa licença. A operação ainda depende de aprovação, mas mostra algo importante: muitas vezes, inovar não é criar do zero, e sim encontrar uma solução inteligente dentro das regras do jogo.

O mais interessante é perceber que esse padrão se repete em praticamente todas as grandes disrupções das últimas décadas: Airbnb, Canva, Tesla, Uber e tantas outras.

Em todos esses casos, a inovação não nasceu do zero, mas de um novo ponto de vista.

Enquanto o mercado discutia grandes estruturas, essas empresas prestavam atenção aos ativos invisíveis: comportamentos negligenciados, regras pouco exploradas, experiências ruins e oportunidades que pareciam pequenas demais para despertar interesse.

Foi justamente essa reflexão que norteou o Nada Óbvio, realizado no último sábado (25), em Curitiba, evento do qual o Economia PR foi media partner.

Muito além de discutir o setor de eventos, o encontro provocou uma pergunta essencial para quem trabalha com inovação, marketing, comunicação e negócios: como encontrar oportunidades em mercados onde todos parecem estar olhando para o mesmo lugar?

O óbvio é confortável. Mas também é concorrido.

Quando todos disputam os mesmos clientes, utilizam os mesmos canais e reproduzem as mesmas estratégias, conquistar atenção se torna mais caro, mais difícil e menos eficiente.

As oportunidades costumam surgir em perguntas que quase ninguém faz.

  • Que público estamos ignorando?
  • Que experiência continua ruim porque todos se acostumaram com ela?
  • Que regra estamos tratando como imutável quando, na verdade, ela apenas nunca foi questionada?

Pensar fora da caixa, talvez, nunca tenha sido sobre criatividade. Talvez seja, antes de tudo, sobre curiosidade. Porque o mercado raramente recompensa quem acumula mais informação. Ele recompensa quem consegue enxergar antes.

Afinal, quando uma oportunidade se torna óbvia para todos, ela já deixou de ser oportunidade.

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Editora-chefe do Economia PR e estrategista editorial para empresas e lideranças que querem construir autoridade e relevância no mercado.

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