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A IA economiza horas de trabalho; quem fica com esse tempo

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Foto: Divulgação

Por Márcio Kieller, Mestre em Sociologia Política pela UFPR

A discussão sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho costuma ser apresentada como um embate entre trabalhadores e empregadores. De um lado, estão aqueles que defendem mais tempo para viver; do outro, quem teme aumento de custos e perda de competitividade. Mas talvez essa seja apenas a superfície de uma discussão muito maior.

A história do trabalho é também, em grande parte, a história da conquista do tempo. Durante a Revolução Industrial, jornadas de até 16 horas faziam parte da rotina.

Com o avanço da tecnologia e as transformações econômicas e sociais, vieram conquistas como a jornada de oito horas, o descanso semanal e as férias remuneradas. Essa trajetória mostra que os ganhos de produtividade não precisam resultar apenas em mais produção. Eles também podem se transformar em mais qualidade de vida.

Foi assim em praticamente todas as grandes revoluções tecnológicas. A mecanização reduziu a dependência do esforço físico e transformou a produção. A informática automatizou tarefas manuais, redesenhou profissões e abriu espaço para setores inteiramente novos da economia. Agora, uma nova onda de automação começa a alcançar atividades que, até pouco tempo atrás, pareciam essencialmente humanas.

Com a inteligência artificial, essa transformação chegou a uma nova fronteira. Hoje, as IAs também executam tarefas intelectuais. Escrever, resumir documentos, revisar contratos, analisar dados, programar sistemas e automatizar processos são atividades que já podem ser realizadas, em diferentes níveis, com seu apoio.

Trabalhos que antes consumiam horas podem ser concluídos em minutos, aumentando a produtividade e, sobretudo, mudando a maneira como as empresas organizam o trabalho.

Se um profissional passa a realizar em sete horas uma tarefa que antes exigia oito, surge um novo desafio: o que fazer com esse tempo economizado? Ele pode ser usado para aumentar a produtividade, ampliar os lucros e estimular novos negócios, mas também pode se transformar em mais qualidade de vida para quem trabalha.

Encontrar um equilíbrio entre essas possibilidades talvez seja uma das principais questões políticas e econômicas do nosso tempo.

Em diferentes países, experiências com jornadas reduzidas mostraram que trabalhar mais horas não significa, necessariamente, produzir mais. Reino Unido, Islândia, Bélgica e Portugal testaram modelos mais flexíveis de organização do trabalho e, em muitos casos, os resultados indicaram manutenção ou até aumento da produtividade, além de redução do absenteísmo e melhora nos indicadores de bem-estar.

Não existe, é claro, um modelo único que possa ser aplicado a todas as economias. Essas experiências, porém, mostram que a discussão precisa considerar evidências e as características de cada setor. Talvez a melhor forma de pensar o futuro das relações de trabalho seja justamente olhar para as transformações que a tecnologia já provoca e ainda provocará, em vez de nos limitarmos aos modelos construídos no passado.

No Brasil, a proposta de redução da jornada que tramita hoje no Congresso Nacional funciona como um catalisador desse debate. A inteligência artificial continuará aumentando a produtividade. A automação continuará reduzindo etapas.

Novas ferramentas continuarão economizando horas de trabalho em praticamente todas as profissões. Parte desse tempo poderá ser convertida em crescimento econômico, permitindo que empresas produzam mais, inovem e gerem novos empregos.

Outra parte poderá significar jornadas mais equilibradas e mais tempo para a família, a educação, o lazer e a própria saúde. Essas possibilidades não precisam ser excludentes. Ao contrário, podem se complementar quando tecnologia, produtividade e desenvolvimento caminham juntos.

Se cada revolução tecnológica permitiu reduzir o esforço físico e ampliar nossa capacidade de produção, talvez o maior indicador de sucesso dessas transformações não seja apenas quanto conseguimos produzir, mas quanto elas nos permitem viver melhor. 

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