Economia PR - Como Heloize Bassetti ampliou o acesso a estágios no Brasil

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Como Heloize Bassetti ampliou o acesso a estágios no Brasil

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Foto: Divulgação

Fundada em Maringá, no norte do Paraná, a Vehlor nasceu da experiência de Heloize Bassetti com a saúde pública e da percepção de que a burocracia ainda dificulta o acesso de estudantes a oportunidades de estágio no Brasil.

CEO e cofundadora da startup, Heloize criou uma solução digital para conectar empresas, estudantes e instituições de ensino, simplificando os processos de contratação e formalização de estágios.

Há cinco anos no mercado, a empresa expandiu sua atuação para todos os estados brasileiros e reúne mais de 4 mil empresas clientes, mais de 50 mil estudantes cadastrados e mais de 20 mil contratos de estágio formalizados.

A trajetória inclui investimento da Maringá Capital, em 2024, participação no programa Top 10 Sebrae PR e o desenvolvimento de soluções de inteligência artificial para apoiar a gestão de estágios.

A construção da Vehlor também reflete a trajetória de uma empreendedora que precisou desenvolver competências em gestão, tecnologia, vendas e finanças para transformar uma inquietação em um negócio de alcance nacional.

Formada em Psicologia, Heloize encontrou no empreendedorismo um caminho para aproximar empresas e estudantes e ampliar oportunidades de inserção profissional.

No especial do Economia PR Drops sobre Empreendedorismo Feminino, a empresária fala sobre os desafios de desenvolver uma startup de tecnologia no Paraná, os aprendizados à frente da Vehlor e as barreiras que ainda dificultam o crescimento de negócios liderados por mulheres no Brasil. Confira:

Como surgiu a Vehlor e qual problema de mercado motivou sua criação?

Heloize: A Vehlor nasceu há cinco anos, em uma garagem em Maringá, a partir de uma inquietação que eu conhecia bem. Trabalhei durante cinco anos na saúde pública e tentava inserir jovens no mercado de trabalho por meio do estágio. Nesse período, vi de perto como essa experiência pode mudar a vida de uma pessoa. Por outro lado, contratar um estagiário no Brasil ainda envolve muita documentação, assinaturas e dúvidas sobre a Lei do Estágio. Muitas empresas acabam desistindo no meio do processo, enquanto estudantes com potencial deixam de ter acesso a oportunidades. A Vehlor surgiu para resolver esse problema. Nossa proposta foi criar um agente de integração de estágios 100% digital, que retirasse a burocracia do caminho e facilitasse o processo tanto para quem quer contratar quanto para quem busca uma oportunidade.

Qual é a principal solução oferecida pela Vehlor, quem é seu público e que diferencial a proposta entrega ao mercado?

Heloize: A Vehlor conecta empresas, órgãos públicos, estudantes e instituições de ensino em um só lugar. A plataforma permite divulgar vagas, apoiar os processos seletivos e cuidar de toda a formalização do estágio, desde o Termo de Compromisso de Estágio (TCE) até as assinaturas com as instituições de ensino. Atendemos dois públicos. De um lado, departamentos de Recursos Humanos e gestores de empresas de diferentes portes, além de órgãos públicos. Entre os clientes estão instituições como o Ministério da Justiça e o Tribunal de Justiça do Pará. Do outro, estão os estudantes universitários, que utilizam a plataforma gratuitamente. Nosso diferencial está na digitalização de todo o processo, na utilização da inteligência artificial Vih para apoiar as atividades operacionais do RH e em um modelo de cobrança transparente, com valor fixo por estagiário, sem percentual sobre a bolsa. Hoje, temos mais de 4 mil empresas clientes, mais de 20 mil contratos de estágio formalizados e mais de 50 mil estudantes cadastrados, com presença em todos os estados brasileiros.

Em que momento está a Vehlor e quais são seus principais objetivos ou desafios para os próximos anos?

Heloize: A Vehlor vive um momento de crescimento e validação do modelo de negócio. Em 2024, recebemos investimento da Maringá Capital. Em 2026, concluímos o programa Top 10 Sebrae PR, passamos a operar o programa de estágios da Smart Fit, maior rede de academias da América Latina, lançamos a Vih e chegamos a todos os estados do país. Para os próximos anos, nosso objetivo é levar a Vehlor a mais empresas e órgãos públicos, sem perder o que nos trouxe até aqui: o atendimento próximo e a simplicidade no processo de contratação de estagiários. O maior desafio é crescer mantendo a mesma qualidade. Cada contrato representa a primeira experiência profissional de alguém, e levamos isso muito a sério. Também queremos mostrar ao mercado que o estágio deve ser visto como um investimento em pessoas, e não apenas como um custo ou uma obrigação burocrática.

Olhando para sua trajetória como empreendedora, qual decisão ou aprendizado mais contribuiu para sua evolução?

Heloize: A decisão que mais contribuiu para o meu crescimento foi entender que, para levar a Vehlor mais longe, eu também precisaria me desenvolver. E muito. Sou psicóloga. Quando fundei a empresa, entendia de pessoas, mas precisei aprender sobre vendas, finanças, tecnologia e gestão, muitas vezes ao mesmo tempo. Fui buscar esse conhecimento por meio de um MBA, da participação no programa Búfalos, da DB1, e no Top 10 Sebrae PR, além de me aproximar de mentores que já haviam construído negócios de sucesso. O principal aprendizado foi entender que empreender significa aceitar que você nunca está completamente pronta. Vai se preparando ao longo do caminho. E pedir ajuda também faz parte da estratégia.

Na sua experiência, ser mulher à frente de uma startup influencia a forma como você é percebida, avaliada ou conduz negociações no ambiente empresarial? De que maneira?

Heloize: Influencia, sim. Em muitas reuniões, fui a única mulher à mesa. Com o tempo, aprendi a lidar com isso por meio da preparação técnica, mas também desenvolvi a capacidade de me reconhecer e não depender da validação dos outros. Meu foco está em entregar resultados e fazer o melhor pela Vehlor, assim como meus sócios. Também existe um aspecto positivo nessa experiência. Minha formação em Psicologia influencia a maneira como conduzo negociações: procuro escutar, entender o que o outro realmente precisa e construir relações de confiança. Isso fez diferença para a Vehlor. Muitos clientes permanecem conosco porque se sentem escutados, acolhidos e bem atendidos.

Quais são hoje as principais barreiras para mulheres que desejam empreender e desenvolver negócios no Brasil? O que precisa mudar no ecossistema empreendedor?

Heloize: Vejo três barreiras principais. A primeira é o acesso a capital. Os investimentos ainda chegam muito menos aos negócios liderados por mulheres, e muitas empreendedoras precisam crescer utilizando recursos próprios, o que pode tornar esse processo mais lento. A segunda é a rede de contatos. Muitas oportunidades e conversas importantes acontecem em espaços nos quais as mulheres ainda são minoria. Quem não consegue acessar esses ambientes acaba perdendo oportunidades. A terceira é a sobrecarga. Muitas mulheres empreendem e, ao mesmo tempo, continuam responsáveis pela maior parte dos cuidados com a casa e a família. Isso significa dividir tempo e energia entre diferentes responsabilidades. Para mudar esse cenário, precisamos de mais investidoras e de mais mulheres ocupando espaços em bancas de avaliação, conselhos e programas de aceleração. Também são necessários programas que ofereçam acesso efetivo a mentoria e capital, como os que tive a oportunidade de participar no Sebrae PR. Além disso, as empresas precisam olhar com mais atenção para fornecedoras lideradas por mulheres.

Quais avanços você identifica no empreendedorismo feminino e quais questões ainda precisam ganhar espaço na discussão?

Heloize: O maior avanço é a visibilidade. Hoje existem prêmios, redes e programas voltados às mulheres empreendedoras. Eu mesma recebi o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios no Paraná, na categoria Ciência e Tecnologia. Esse reconhecimento me mostrou que outras mulheres estavam acompanhando minha trajetória e conseguiam se enxergar nela. Mas ainda precisamos falar mais sobre crescimento. Discutimos muito sobre como começar a empreender e pouco sobre como escalar um negócio. Precisamos de mais mulheres à frente de empresas de tecnologia, startups que recebem investimentos e negócios capazes de gerar muitos empregos. Outro tema que merece espaço é a saúde mental de quem empreende. Existem muitos medos e incertezas, especialmente em um país como o Brasil, onde empreender envolve tantos desafios. Falar sobre isso com honestidade pode ajudar outras mulheres a compreenderem que não estão sozinhas e a não desistirem.

Que conselho ou reflexão você compartilharia com outra mulher que deseja empreender ou está nos primeiros anos de construção de sua empresa?

Heloize: Comece com um propósito que faça sentido para você. Nos dias difíceis, é ele que vai manter você de pé. O meu é facilitar o acesso aos estágios em todo o Brasil, porque acredito que essas oportunidades podem mudar vidas. Depois, não caminhe sozinha. Procure programas de desenvolvimento, mentores e outras empreendedoras. Grande parte do que aprendi veio de pessoas que já tinham passado pelas situações que eu estava vivendo. Por último, seja gentil com você mesma. Você vai errar, sentir medo e fazer escolhas que outras pessoas podem considerar arriscadas. Mas tudo isso faz parte. Cada passo prepara você para o próximo.

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