Economia PR - Bem-estar precisa ir além da sua campanha contra burnout

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Bem-estar precisa ir além da sua campanha contra burnout

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Foto: Karola G / Pexels

O Brasil bateu mais um recorde que ninguém queria bater. Em 2025, mais de 546 mil trabalhadores foram afastados do trabalho por transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social. Crescimento de 15% em relação ao ano anterior.

Os casos de burnout especificamente cresceram 493% entre 2021 e 2024, conforme levantamento da Folha de S.Paulo com dados do INSS. Quase quinhentos por cento em três anos.

E, não por acaso, esses números sobem no mesmo período em que o mercado corporativo brasileiro descobriu o bem-estar como pauta de comunicação.

O paradoxo que os dados escancararam

Nunca se falou tanto em saúde mental nas empresas. Há campanhas, painéis no LinkedIn, e-mails do RH com figurinha de meditação, benefícios de psicoterapia no pacote de vantagens. E, no mesmo movimento, nunca houve tantos afastamentos.

O Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026, da Wellhub, coloca em números esse abismo: apenas uma minoria dos profissionais sente que o bem-estar está realmente incorporado à cultura da empresa, reforçando os índices de estresse e burnout em alta histórica.

Ao mesmo tempo, 85% dos profissionais dizem que deixariam uma empresa que não prioriza o tema, de acordo com o mesmo estudo.

Existe, portanto, um mercado de expectativa genuína. E existe uma indústria de resposta cosmética a essa expectativa.

Isso tem nome em marketing: é o washing. Da mesma forma que o greenwashing usa a linguagem ambiental para encobrir práticas predatórias, o wellbeing washing usa a linguagem do cuidado para encobrir culturas de sobrecarga.

A estética é diferente, tons terrosos, fontes arredondadas, fotos de funcionários sorrindo em espaços colaborativos, mas a lógica é a mesma. Comunicar o que não se pratica.

Burnout tem endereço e tem gênero

Os dados do Ministério da Previdência Social trazem um recorte que precisa entrar no centro do debate de gestão: 64% dos afastamentos por saúde mental em 2025 foram de mulheres, segundo levantamento divulgado em maio de 2026. Com média de 41 anos e até três meses de afastamento por ocorrência.

Não é coincidência biológica. É estrutura.

Mulheres acumulam jornada profissional com responsabilidades domésticas e de cuidado, majoritariamente não remuneradas, em um mercado que ainda registra gap salarial e sub-representação feminina em cargos de alta liderança. A sobrecarga invisível não aparece no organograma. Aparece no CID do INSS.

Uma empresa que lança campanha do Dia Internacional da Mulher e mantém intacta essa estrutura não está cuidando de suas colaboradoras. Está performando cuidado.

A NR-1 como momento da verdade

A partir deste mês, a fiscalização do Ministério do Trabalho passa a ter caráter punitivo para empresas que não mapearem e gerenciarem fatores como estresse crônico, burnout, assédio moral e metas abusivas. A NR-1 atualizada eleva esses riscos ao mesmo nível dos riscos físicos, químicos e biológicos no ambiente de trabalho.

Vale lembrar: a norma era prevista para maio de 2025. Foi adiada por pressão do setor empresarial. As empresas ganharam um ano extra para se preparar.

Os afastamentos, nesse ano, subiram 15%.

O que a NR-1 faz, na prática, é transformar discurso em diagnóstico. Não basta mais ter programa de bem-estar no site institucional. É preciso apresentar mapeamento real dos fatores organizacionais que causam adoecimento.

Metas inalcançáveis entram nessa conta. Liderança abusiva entra nessa conta. Jornadas que ultrapassam qualquer limite razoável entram nessa conta. E, ao que parece, ela vai chegar alta em boa parte das corporações.

Segundo pesquisa da consultoria Mercer Marsh Benefícios com 208 empresas, as três principais causas do burnout no Brasil são: alta demanda de trabalho, conflito com chefia e falta de autonomia.

Nenhuma delas se resolve com meditação guiada no Teams.

O custo que as empresas fingem não ver

Burnout é caro. E o custo não fica só no INSS.

As despesas com auxílios-doença por transtornos mentais saltaram de R$ 18,9 bilhões para R$ 31,8 bilhões entre 2022 e 2024, só para a Previdência. Para as empresas, o custo aparece em turnover, queda de produtividade, absenteísmo e passivos trabalhistas. Um funcionário com burnout não diagnosticado trabalha em capacidade reduzida por meses antes de se afastar. Esse custo difuso raramente aparece em relatório algum.

O Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026 é direto: quando o bem-estar é tratado como estratégia, e não como benefício isolado ou pauta de comunicação, os indicadores respondem. Burnout recua, foco melhora, rotatividade diminui.

O que falta, na maior parte dos casos, não é recurso. É intenção real.

O que diferencia comunicação honesta de washing

Do ponto de vista de marca empregadora, o risco agora é duplo. Legal, com a NR-1. E reputacional, com uma força de trabalho que, especialmente nas gerações mais jovens, tem tolerância zero para discurso vazio.

A diferença entre uma empresa que comunica bem-estar com credibilidade e uma que faz washing não está no volume de conteúdo produzido.

Está em algumas perguntas objetivas:

  • A liderança tem métricas de gestão de pessoas tanto quanto tem métricas de resultado financeiro?
  • Existe canal real de escuta?
  • Quando alguém na equipe sinalizou sobrecarga, o que aconteceu?

Se a resposta for “mandamos um e-mail do Janeiro Branco”, é washing.

A pergunta que toda empresa deveria se fazer agora não é “o que vamos postar no Setembro Amarelo?”.

É: quando o Ministério do Trabalho vier fiscalizar, o que vai encontrar?

Os dados já responderam o que a comunicação corporativa tentou esconder.

No fim, o mercado não está diante de uma tendência. Está diante de um ajuste de realidade. Não existe mais espaço para separar o que a empresa comunica do que ela pratica, porque o impacto dessa distância já está documentado, regulamentado e, principalmente, humanamente visível.

Bem-estar não é sobre o que se diz em campanhas. É sobre o que se sustenta quando ninguém está olhando.

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Editora-chefe do Economia PR. Fundadora da BASIS Comunicação. Community Manager. Acelerada Camila Renaux. Consultoria em Comunicação Estratégica. Prêmio Sangue Bom de Jornalismo (SINDIJOR PR 2014)

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