A presença histórica da comunidade árabe em Foz do Iguaçu e região trinacional produziu um patrimônio cultural que fortalece a identidade da região e amplia sua capacidade de atrair visitantes, investimentos e reconhecimento.
Esse raciocínio dialoga muito bem com debates contemporâneos sobre cidades criativas, marcas (branding), economia da cultura e desenvolvimento territorial. Isso passa pela quantificação de turistas que visitam a Mesquita, mas também mostra evidências do quanto uma comunidade migrante ajudou a moldar a identidade de uma das principais cidades de fronteira da América do Sul.
Olha esses números de visitação à Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, de Foz do Iguaçu:
07/11/2022 (dia da inauguração do CRV) a 31/12/2022: 7.694 visitantes
01/01/2022 a 31/12/2023: 61.797 visitantes
2024: 62.625 visitantes
2025: 71.622 visitantes
2026 (até 31/05): 35.371 visitantes
Em pouco tempo a visitação se expandiu rapidamente.
Recentemente fiz uma visita à Mesquita Omar Ibn Al-Khattab. Havia muitos anos que não ia, da última vez foi ainda antes da pandemia. O que eu vi, foi um lugar totalmente preparado para receber a comunidade muçulmana e também os turistas.
A visitação começa com a recepção, colocação do hijab para as mulheres e exibição de um vídeo. Me chamou atenção o carinho e acolhimento das mulheres que me ajudaram a vestir o hijab.
Em seguida, tivemos explicações sobre diversos temas da cultura árabe, do Islã, do Profeta Maomé e, das perguntas feitas pelo público, boa parte delas abordava o entendimento do Islã/Alcorão sobre o cristianismo. Há pontes históricas que passam despercebidas se não paramos para escutar e estudar. Depois, chega o momento de conhecer o interior da Mesquita.
A gerente do Centro de Recepção de Visitantes (CRV) da Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, Hola El Kadri, explicou que antes da inauguração do CRV não havia uma visita guiada, as pessoas tiravam fotos externas, em frente à Mesquita, aquelas que desejavam entrar colocavam o véu, e tinha uma pessoa para tirar dúvidas sobre a religião, sobre a Mesquita etc.
“Nos consolidamos profissionalmente enquanto turismo principalmente a partir de novembro de 2022, com a inauguração do CRV e uma visitação já mais organizada, capaz de oferecer um produto que acolha o turista, que o faça entender como funciona a dinâmica, a cultura, a religião, e ser um apoio maior para que ele se sinta confortável e volte futuramente”.
Hola explicou que os investimentos em visitação foram realizados pois já havia uma demanda.
“As pessoas pediam para entrar na Mesquita, para conhecer, então entendemos que isso era um fluxo contínuo que merecia atenção. Era um sonho desde 2011 criar esse receptivo. Depois de muita conversa, de buscar apoio, patrocinadores como a comunidade, a Itaipu e membros antigos apoiarem essa ideia, decidimos de fato nos consolidar enquanto turismo”.
O interessante é observar que esse patrimônio deixou de ser apenas um espaço da comunidade muçulmana e passou a integrar a experiência turística da cidade.
Visitantes brasileiros e estrangeiros procuram o local não somente por motivos religiosos, mas também pela arquitetura, pela curiosidade cultural e pelo interesse em compreender a diversidade étnica de Foz do Iguaçu. Em outras palavras, um recurso cultural originalmente comunitário tornou-se um recurso territorial de interesse coletivo.
E esse movimento tem implicações econômicas importantes. Ao incluir a Mesquita em seus roteiros, Foz amplia sua oferta turística e o tempo de permanência do turista, sonho da cidade que vem desde o início dos anos 2000. Além disso, a identidade árabe se estende à gastronomia e lojas de produtos típicos, o que beneficia outros setores.
Do ponto de vista do desenvolvimento regional, o caso é especialmente relevante porque mostra que cultura também é infraestrutura econômica. Patrimônio cultural, identidade local e diversidade podem gerar valor, atrair visitantes e fortalecer a competitividade dos territórios.
Eu também gosto de citar um aspecto simbólico importante. Há sempre inúmeros debates sobre custos ou desafios das migrações, o que rechaço, pois somos todos migrantes. A experiência de Foz do Iguaçu nos faz lembrar que os fluxos migratórios produzem conhecimento, empreendedorismo, redes sociais e patrimônio cultural. A Mesquita Omar Ibn Al-Khattab é a materialização dessa contribuição: um espaço criado por imigrantes que hoje beneficia toda a cidade.