Economia PR - Mais sobre CVM, relatório integrado e ações de sustentabilidade: o relatório é opcional. A confiança, não

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Mais sobre CVM, relatório integrado e ações de sustentabilidade: o relatório é opcional. A confiança, não

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Foto: freepik

Há pouco tempo, escrevi neste espaço sobre o risco de o relatório integrado deixar de ser uma ferramenta de estratégia e virar uma peça de branding.

A discussão ganhou um novo capítulo.

A CVM retirou a obrigatoriedade que estava prevista para a divulgação, pelas companhias abertas, de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade nos padrões IFRS S1 e IFRS S2.

O relatório integrado propriamente dito já era facultativo. A mudança recente alcança outro tipo de reporte, mais diretamente ligado aos efeitos financeiros dos riscos de sustentabilidade e do clima.

São instrumentos diferentes, mas que se encontram na mesma pergunta: qual é a relação entre aquilo que a empresa informa e aquilo que realmente faz?

Com a nova regra, a adoção dos padrões passou a ser voluntária, dentro da lógica do “pratique ou explique”.

Há razões para isso. 

Produzir informações confiáveis exige sistemas, controles, coleta de dados, governança e, em alguns casos, asseguração independente. Também existe o risco de criar mais um ritual corporativo: relatórios longos, reuniões intermináveis e fotografias de executivos olhando para árvores. Mas há outro lado.

Empresas não divulgam informações apenas porque o regulador exige. Elas divulgam para reduzir incertezas, construir credibilidade e facilitar o acesso a investidores, bancos e financiadores.

Informar também é captar, mesmo quando informar é opcional.

Os padrões IFRS S1 e S2 buscam justamente mostrar como riscos ambientais e climáticos podem afetar fluxo de caixa, ativos, acesso a crédito, investimentos e custo de capital.

Uma seca, por exemplo, não é apenas um problema ambiental para uma empresa dependente de água. Pode significar interrupção da produção, aumento de custos e perda de receita.

O investidor não precisa saber apenas se a empresa tem boas intenções. Precisa entender quanto os riscos podem custar.

Por isso, quem não divulga também comunica.

A ausência de informações pode ser interpretada como falta de estrutura, baixa maturidade de gestão ou tentativa de evitar comparações. A empresa economiza no relatório, mas pode pagar essa economia na percepção de risco e no custo do capital.

O modelo “pratique ou explique” também tem sua ironia. O próprio “explique” pode virar branding.

Em vez de apresentar os dados, a empresa publica uma justificativa elegante sobre por que ainda não está preparada para apresentá-los.

É aí que a novidade regulatória encontra o argumento do meu texto anterior.

O problema nunca foi produzir relatórios ou comunicar ações de sustentabilidade. O problema surge quando a narrativa se distancia das decisões reais.

Um indicador é estratégico quando muda prioridades, investimentos, metas e riscos. Quando não altera nada, é apenas decoração.

Isso vale para carbono e consumo de água, mas também para orçamento, EBITDA e participação de mercado.

Sem a obrigação, veremos quais companhias realmente tratam essas informações como parte da gestão e quais estavam apenas se preparando para cumprir uma exigência.

As primeiras continuarão divulgando porque entendem que transparência não é apenas compliance.

É também estratégia de financiamento.

O relatório é opcional.

A confiança, não.

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Eduardo Gondim é doutor em administração pela ESPM e sócio da mecê. Escreve mensalmente no Economia PR sobre governança corporativa e desafios estratégicos em startups.

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